21 junho 2016

LIVRO - ANTES QUE TERMINE O DIA

Quando acordei naquela manhã a chuva fina caía e embaçava a janela lateral do quarto de dormir. As folhagens das árvores tremulavam com o vento e a sensação de frio intenso fazia com que me precavesse e me agasalhasse bem antes de sair de casa. A cólica forte persistia e eu tinha acabado de resolver ir ao pronto atendimento do hospital que ficava bem próximo de casa. À medida que eu movimentava meu corpo as cólicas aumentavam e era com se estivessem espetando meu abdômen. Eu estava com medo, pois todas as tentativas de remédios que eu havia ingerido nos últimos três dias não havia feito efeito nenhum.
Quando descia pelo elevador até chegar à garagem, pensei em retornar para a minha cama, pois meu corpo não conseguia ficar em pé. Minha boca estava seca e eu não tinha apetite algum, só bebia água, muita água e com isso a todo o momento sentia vontade de urinar.
Os vizinhos que viram meu estado no elevador sentiram-me estranho, mas percebia que ficaram receosos de perguntarem se eu estava bem. Na verdade a minha vontade era de gritar, pedir socorro, dizer que eu estava passando muito mal e até chorar, se fosse preciso, mas o meu orgulho impedia isso.
O dia estava apenas começando e antes que terminasse o dia, sentia que viriam muitas consequências graves em função do meu estado de saúde. Coração não é, pressão arterial também não, os níveis de glicose estavam sob controle... Todas essas certezas me aliviavam, pois eu tinha como medi-las com os equipamentos que eu tinha na minha casa.
Quando entrei no carro e comecei a dirigir rumo ao pronto atendimento, a dor cessou.
Pensei em voltar para casa, mas eu já estava no meio do caminho e resolvi continuar. Ao chegar no pronto atendimento a fila para passar pela recepção estava imensa e já existiam muitas pessoas aguardando os médicos começarem as consultas. Pelo semblante das pessoas, todos estavam com dores e alguns gemiam. Eu estava realmente me sentindo muito mal, porém, não me senti no direito de pedir para passar na frente de todas aquelas pessoas e lembrei-me que eu tinha ainda um último remédio que até então eu não tinha usado: A oração.
Pedi a Deus que me livrasse daquela dor insuportável, que me mantivesse em pé para conseguir agendar a minha consulta, que não me fizesse desistir e voltar para casa sem ser atendido.
Pela fisionomia das pessoas e pelo tempo que eu podia ver pela janela da sala de recepção do hospital, estava fazendo muito frio. Ouvia alguém na fila atrás de mim dizendo que estava fazendo dois graus centígrados. Mesmo assim, eu não parava constantemente de passar a mão em meu rosto para enxugar o suor, provocado pela dor.
Após conseguir passar pela recepção, consegui a senha 204, e que significava, realmente, que existiam 203 pessoas na minha frente para serem atendidas. Não havia lugar para se sentar. Encostei meu corpo numa coluna da parede da sala para poder me escorar e evitar uma queda, que por duas vezes pareceu inevitável. Quando finalmente consegui um lugar para me sentar, senti uma vontade imensa de ir ao banheiro.
Pensei que talvez fosse um problema intestinal que indo no banheiro eu melhoraria. Quando voltei, percebi que meu lugar ainda estava reservado, mesmo tendo várias pessoas ainda em pé. Foi então, vendo uma senhora com expressão de dor, fiz com que ela pudesse sentar-se no meu lugar. Ao sentar-se, aquela senhora olhou em meus olhos e percebi e até senti que fez uma força enorme para sorrir, para agradecer, mas não consegui em função do seu estado de saúde e naquele momento eu até esqueci da minha própria dor.
As horas foram se passando e eu acabei me acostumando com a dor. Acreditei que Deus havia atendido as minhas preces e finalmente eu tinha um remédio que fizesse efeito.
Depois de um tempo consegui me sentar bem ao fundo da sala e pude comparar o meu sofrimento com o sofrimento das outras pessoas. Na verdade, não existe sofrimento menor ou maior entre as pessoas. Existe o sofrimento. Ao sofrer, as pessoas precisam ter um alívio. Esse alívio, algumas vezes pode ser até mesmo a morte.
- Obrigado senhor!
Uma jovem menina veio me agradecer e eu, aparentemente não havia percebido o motivo.
- Obrigado por ceder o seu lugar para a minha avó! Ela ainda está em estado grave e acabou de ser internada.
Em minhas orações, não havia pedido a Deus o "remédio" só para mim. Pedia a todos enfermos que se encontravam naquela sala de emergências médicas.
- Vou continuar rezando para que sua avó logo melhore! Disse eu a menina que se encaminhava para a saída da sala de emergências. Existiam ainda cerca de dez pessoas na minha frente. Meu suor havia cessado, eu passei a sentir muito frio, principalmente dos pés e nas mãos.
A dor havia amenizado ou então, definitivamente, eu havia me acostumado com ela, mas me sentia fraco, principalmente se tivesse que ficar em pé ou tivesse que me deslocar andando. Finalmente chegaria a minha vez de ser atendido. Quando contei o meu histórico de dor para o médico ele logo fez um pedido de exame ao laboratório do hospital. Na primeira impressão ele constatou, apertando meu abdômen, que não existia uma lesão ou que houvesse algum rompimento, mas eu insistia na dor que estava sentindo haviam três dias. Imediatamente ele prescreveu para que uma enfermeira aplicasse uma injeção para aliviar a dor. Depois de alguns minutos eu não estava mais sentindo dor e aguardava pelos resultados dos exames, antes que terminasse o dia. Só pelo fato de não estar mais sentindo dor alguma, mudei até meu estado de espírito, mas ainda fiquei preocupado e ansioso pelo resultado do exame.
Fui transferido para uma sala de repouso, olhei pela janela lateral e o dia já estava começando a escurecer. O frio intenso fazia com que eu me encolhesse na poltrona confortável na qual haviam me colocado. Quando o relógio da sala de repouso cravava dezenove horas, chegou uma enfermeira segurando um envelope com o resultado do meu exame:
- O senhor contraiu uma virose muito intensa e que o seu organismo não conseguiu dissipá-la com os remédios tradicionais que foram ministrados. A injeção que o senhor tomou serviu apenas para aliviar as fortes dores que vinha sentindo e que as mesmas devem ser repetidas as doses por mais setenta e duas horas. Além disso, o senhor deve seguir a receita indicada pelo médico e tomar esse remédio a partir de hoje às vinte e três horas, seguindo as doses de oito em oito horas.
Sai do pronto atendimento mais aliviado e sem dor. Já se passavam das vinte horas e eu tinha que encontrar uma farmácia para tomar uma nova injeção para a dor não voltar e comprar o remédio que teria de tomar de oito em oito horas.
O frio parecia que tinha tirado todas as pessoas das ruas e o meu bairro estava mais parecendo uma cidade fantasma. Encostei o carro numa grande farmácia e por minha infelicidade não encontrei os remédios que tinha de comprar. Foi me sugerido então que caminhasse até outra farmácia que ficava a três quadras de onde eu estava. Resolvi deixar o carro onde estava e seguir a pé. No trajeto, passei em várias ruas em que não havia luz adequada. Eram lugares ermos. Num determinado recuo, mas bem próximo da calçada, ouvi um gemido. Virei-me na direção de onde vinha a queixa.
Era um homem enrolado num cobertor rasgado e sujo. Aproximei-me do homem de cabelos brancos, bem magro e todo sujo. Perguntei se ele estava com fome e ele me respondeu imediatamente que havia muito tempo que não sentia mais fome, mas que estava congelando de tanto frio.
Naquele instante fiquei sem reação momentânea, pois as situações estavam acontecendo muito rapidamente. Mas num ato em que não precisei raciocinar muito, tirei o paletó de lã que eu estava vestindo e cobri o homem. Mesmo assim, achei que não seria suficiente para que se aquecesse adequadamente, quando resolvi chamar a polícia para que aquele homem fosse encaminhado a um abrigo e fosse adequadamente atendido. A polícia não demorou a chegar. O tenente me comentou que já haviam recolhido várias vezes aquele homem ao abrigo, mas que sempre, no dia seguinte, ele como tantos outros voltavam para a rua novamente e que as autoridades não podiam obriga-los a ficar no abrigo. Mas, de qualquer forma, para a minha consciência, aquele homem não iria morrer de frio naquela noite. Ao voltar, a farmácia em que eu iria comprar meus remédios, como todas as outras, estavam fechadas. Voltei ao carro e retornei para minha casa. Pensei que no dia seguinte, bem cedo, eu poderia me levantar e comprar os remédios.
Quando cheguei em casa, tomei um banho bem quente, me agasalhei adequadamente e me deitei. O dia estava terminando quando me lembrei que o médico havia pedido para eu tomar a injeção e o remédio às vinte e três horas. Mas, já passavam das vinte e três horas, as farmácias estavam fechadas, eu já havia decidido que iria esperar amanhecer o dia para voltar à farmácia, mas eu não estava contando naquele momento que as dores iriam voltar como realmente voltaram e para piorar ainda mais a situação, lembrei-me que a receita com o nome genérico tanto do remédio, como da injeção, tinham ficado no bolso do paletó que havia doado ao mendigo.
Vivi mais uma noite de intensas dores. Fiquei com medo de voltar ao hospital e ainda levar uma tremenda bronca do médico por não seguir a risca as suas determinações. Pensei em procurar a enfermeira que havia me entregado o resultado dos exames e a receita, e assim me dirigi novamente ao pronto atendimento. No caminho, resolvi antes passar na primeira farmácia em que na noite anterior eu havia procurado os remédios. Na certa, se o mesmo farmacêutico estivesse lá, ele iria lembrar dos medicamentos que eu precisava.
- Ei você!
Alguém me chamou na rua.
Virei-me para o mesmo beco da noite anterior e me deparei com o mesmo senhor, mendigo, de cabelos brancos, vestindo meu ex-paletó de lã e bebendo um líquido branco que pela expressão facial que ele fazia, não parecia ser água:
- Toma aqui a sua "carta"! Estava no bolso do paletó de lã que você me deu ontem a noite!
Imediatamente comprei o remédio e recebi a aplicação da injeção, que me aliviou as dores e que depois de três dias fiquei totalmente curado. Quando sai da farmácia tive a disposição de questionar o mendigo do porque ele não havia ficado no abrigo, afinal, no abrigo ele dormiria numa cama, poderia tomar banho, cortar o cabelo, fazer a barba, ganharia roupas novas e remédios se necessário. Mas por que os indigentes não ficam nos abrigos mesmo no inverno? Mas, ao passar por ele, percebi que estava dormindo, vestido com meu paletó de lã e enrolado na mesma manta suja e surrada da noite anterior. Ao seu lado, dormia um cachorrinho, encolhido e enrolado num pedaço da manta surrada. Cheguei bem perto deles e pude perceber que dormiam sorrindo ele e o cachorro, isso mesmo, como se fossem pai e filho, irmãos ou amigos, juntos com o mesmo propósito de se livrarem do frio. Naquele instante eu também sorri.
Talvez no abrigo o homem não pudesse ter a mesma liberdade que tanto procurava, talvez não pudesse dormir ao lado de seu grande amigo... Talvez não pudesse sorrir da mesma maneira que eu estava sorrindo por ter me livrado da dor.
Nas semanas seguintes passei diariamente no local onde o homem e seu cachorro ficavam e sempre deixava algo que pudesse fazer com que se alimentassem, até que um dia não os vi mais naquele local, nunca mais.
TRECHO DE UM DOS CAPÍTULOS DO LIVRO

12 junho 2016

LIVRO - CANTARES E SALMOS

A Sulamita de Cânticos dos Cânticos é a personagem principal do livro. A referência a sua origem aparece em Ct 7,1. Segundo alguns estudiosos sua referência em Ct pode ser uma alusão à jovem sunamita escolhida para aquecer o Rei Davi em sua velhice, que é descrita como mulher jovem e formosa. A Sulamita de Ct é chamada de amada e é descrita como a mais formosa entre todas as mulheres, ou a mais bela das mulheres. Nas palavras da Sulamita, ela mesma se descreve como uma mulher morena e formosa. A alusão a sua cor morena foi fruto do trabalho, que seus irmãos a obrigaram fazer, ao guardar suas vinhas.  Mas o que importa no livro de Cânticos dos Cânticos não é apenas o físico, embora em Ct a descrição física da Sulamita seja uma das mais belas comparações feitas com alguns dos elementos mais bonitos encontrados na natureza. O importante que é preciso ressaltar é sua coragem e a fidelidade ao amado. Ela não se deixa aprisionar pelas convenções da época e sai em busca do amado, e o procura incessantemente. A sua fidelidade ao amado faz dessa mulher um modelo de esposa companheira, que dá livremente seu amor ao amado. Amor esse que é recíproco.>>>>> PREFÁCIO DO LIVRO

11 junho 2016

LIVRO - PECADO ORIGINAL

Pecado Original” refere-se ao pecado de Adão em comer da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e seus efeitos sobre o resto da raça humana desde então, principalmente seus efeitos em nossa natureza e nosso relacionamento com Deus, até mesmo antes de termos idade suficiente para cometer pecado conscientemente. Veja a seguir as três opiniões diferentes que tentam explicam seu efeito: Pelagianismo: O pecado de Adão não teve nenhuma influência sobre as almas de seus descendentes além de, através de seu exemplo pecaminoso, encorajar outras pessoas a também pecar. De acordo com essa opinião, o homem tem a habilidade de parar de pecar se ele quisesse. Esse ensino vai de encontro a várias passagens que ensinam que o homem é um escravo do pecado (quando longe da intervenção de Deus) e que suas boas obras são “mortas”, quer dizer, sem nenhum valor para ganhar o favor de Deus (Efésios 2:1-2; Mateus 15:18-19; Romanos 7:23; Hebreus 6:1; 9:14). Arminianismo: Os arminianos acreditam que o pecado de Adão resultou no resto da humanidade herdando uma tendência a pecar chamada de “natureza pecaminosa”. Essa natureza pecaminosa nos leva a pecar da mesma forma que a natureza de um gato o leva a miar – ocorre naturalmente. De acordo com essa opinião, o homem não pode parar de pecar sozinho, por isso Deus dá uma graça universal, a qual o capacita a parar. Essa graça é chamada de graça preveniente. Também de acordo com essa opinião, não somos responsáveis pelo pecado de Adão, apenas os nossos. Esse ensinamento vai de encontro ao tempo verbal escolhido para “...todos pecaram” em Romanos 5:12 e também ignora o fato de que todos sofrem a punição do pecado (morte) mesmo quando não pecaram de uma forma semelhante à de Adão (1 Coríntios 15:22; Romanos 5:14-15,18). Além disso, a Bíblia não ensina em lugar nenhum a doutrina de graça preveniente. Calvinismo: O pecado de Adão resultou não só na nossa natureza pecaminosa, mas também em culpa diante de Deus, pelas quais merecemos punição. Ser concebido com o pecado original sobre nós (Salmos 51:5) resulta em nós herdando uma natureza pecaminosa tão perversa que Jeremias 17:9 descreve o coração humano como “enganoso ... mais do que todas as coisas, e perverso”. Adão foi não só culpado por causa do seu pecado, mas sua culpa e punição (morte) pertencem a nós também (Romanos 5:12,19). Há duas opiniões sobre por que Deus deve enxergar a culpa de Adão como pertencente a nós também. A primeira afirma que a raça humana fazia parte de Adão em forma de semente; portanto, quando Adão pecou, pecamos nele. Isso é semelhante ao ensino Bíblico de que Levi (um descendente de Abraão) pagou dízimos a Melquisedeque em Abraão (Gênesis 14:20; Hebreus 7:4-9), apesar de que Levi não nasceu até centenas de anos mais tarde. A outra opinião é de que Adão serviu como nosso representante e como tal, quando ele pecou, tornamo-nos culpados também. A opinião Calvinista enxerga o homem como incapaz de ter vitória sobre o seu pecado, exceto sob o poder do Espírito Santo. Esse poder só é possuído quando alguém arrepende-se do seu pecado e vira-se para Cristo em total dependência dEle e Seu sacrifício expiatório na cruz. Um problema com essa opinião é como explicar como bebês e aqueles que são incapazes de cometer pecado de forma consciente são salvos (2 Samuel 12:23; Mateus 18:3; 19:14), já que eles também são responsáveis pelo pecado de Adão. Millard Erickson, autor de Teologia Cristã, acha que essa dificuldade é resolvida da seguinte maneira: “Há uma posição (opinião) que….preserva o paralelismo entre nós aceitando o trabalho de Cristo e o de Adão (Romanos 5:12-21), e ao mesmo tempo destaca de forma mais clara nossa responsabilidade pelo primeiro pecado. Somos responsáveis e culpados quando aceitamos ou aprovamos a nossa natureza corrupta. Há um momento na vida de cada um de nós quando nos tornamos cientes de nossa própria tendência a pecar. Naquele ponto, podemos abominar a natureza pecaminosa que tem estado presente todo aquele tempo.... e arrepender-nos dela. Pelo menos haveria uma rejeição do nosso pecado. Mas se submeter-nos à natureza pecaminosa, estamos na verdade dizendo que ela é boa. Ao estabelecer nossa aprovação de uma forma tácita da corrupção, estamos também aprovando ou concordando com a ação no Jardim do Edén de tanto tempo atrás. Tornamo-nos culpados daquele pecado sem termos ainda cometido um pecado próprio”. A opinião Calvinista do pecado original é a mais consistente com o que a Bíblia ensina e “pecado original” pode ser definido como “aquele pecado e sua culpa que todos nós possuímos aos olhos de Deus como resultado direto do pecado de Adão no Jardim do Éden”.
PREFÁCIO DO LIVRO

LIVRO - A ESCOLHA

A reencarnação, um dos princípios básicos do Espiritismo, é, ao mesmo tempo, fator explicativo para as diferenças que atingem as pessoas no contexto social, bem como esperança diante dos desafios que a vida terrena oferece. Tem por finalidade desenvolver a inteligência e é uma oportunidade de prova, expiação ou missão. Sobretudo, ela leva ao progresso espiritual e à participação na obra da criação. Tudo começa com um estado de transição, em que o espírito passa por um momento de e perturbação e perda gradativa da consciência de si mesmo. Este é um estágio preparatório para o nascimento. A infância, que vai do nascimento à puberdade, é um período de repouso do espírito, que nessa fase está mais acessível às impressões que recebe. Para os pais esse é o momento de imprimir conceitos e orientações capazes de auxiliarem o adiantamento deste que se lhe apresenta como filho ou filha. O diálogo é insubstituível no processo educativo. E a par da educação do corpo é fundamental educar a alma. Esse período exige muito dos pais diante do compromisso aceito na espiritualidade de receber filhos na Terra. Embora a criança apresente, geralmente, um estado de inocência e de fragilidade, é um espírito necessitado de orientação e amparo. Não se veem crianças dotadas dos piores instintos? Donde provirão instintos tão diversos em crianças da mesma idade, educadas em condições idênticas e sujeitas às mesmas influências? A infância representa um período acessível aos conselhos. A delicadeza da idade infantil torna a criança branda e receptiva aos conselhos da experiência dos pais. É um período em que se pode reformar e reprimir os maus pendores. Tal o dever que Deus impôs aos pais, missão sagrada de que terão de prestar contas. A reencarnação atesta a justiça divina oferecendo oportunidade de encontros e reencontros educativos através dos quais se cumpre a lei de causa e efeito e, sobretudo, é o caminho que leva a Deus.
PREFÁCIO DO LIVRO

LIVRO - VIVER DE NOVO - REENCARNAR



A Doutrina Espírita trabalha atualmente com a hipótese de que o processo reencarnatório envolve conceitos de missão, provação, expiação e karma. 
Vale ressaltar que no entendimento atual da Doutrina, os processos reencarnatórios apresentam facetas desses quatro conceitos, mas que algumas reencarnações podem apresentar o predomínio de algumas dessas características. Eles não são consequência de uma interferência ou controle externo ao espírito reencarnante, descartando-se portanto qualquer ideia de castigo, punição ou recompensa. Eles são decorrentes da lei de causa e efeito e das condições de equilíbrio e harmonia do espírito. Missão é a situação na qual o espírito reencarnante aplica conhecimentos internalizados a favor de uma pessoa ou do grupo de sua convivência. Provação é a situação na qual o conhecimento em processo de acomodação e internalização deve ser vivenciado; é a situação na qual o espírito é desafiado ao limite de seu conhecimento. Expiação não se refere à aplicação de conhecimento, mas, sim, a uma consequência de um conhecimento aplicado, que provocou consequências difíceis, desagradáveis, muitas vezes dolorosas, que o seu responsável deverá enfrentar. Carma ainda é um conceito útil dentro da concepção da Doutrina, desde que se esteja atento para o seu significado, diverso do de outras Doutrinas. Para o Espiritismo, carma caracteriza a situação na qual o espírito está enfrentando as consequências de atos seus que lhe provocaram um desequilíbrio muito intenso, tanto em qualidade como em quantidade, e que, pela sua intensidade, o espírito poderá levar toda uma encarnação, ou mais de uma, para recuperar seu equilíbrio. A pessoa em desequilíbrio estará sempre em recuperação tanto pela sua reação própria como pela ajuda de outras pessoas (curar, aliviar, consolar; conhecimento técnico, moral e afetivo). O que varia é apenas o tempo necessário para que o equilíbrio seja novamente retomado. É importante frisar que as dificuldades que o espírito encarnado encontra em seu cotidiano muitas vezes não são explicadas pela reencarnação. Reencarnação não explica tudo. Há muitas situações de desequilíbrio causadas em sua encarnação atual.
TRECHO DO LIVRO

03 junho 2016

LIVRO - DEUS DO IMPOSSÍVEL - OS MILAGRES DE JESUS



Deus é bom, sempre bom. Às vezes, porém, não conseguimos ver a bondade de Deus nas circunstâncias da vida, mas, mesmo assim, Deus continua sendo sempre bom.
          Havia um súdito que dizia sempre para o rei que Deus é bom. Um dia saíram para caçar e um animal feroz atacou o rei e ele perdeu o dedo mínimo. O súdito ainda lhe disse: Deus é bom. O rei mandou prendê-lo. Noutra caçada o rei foi capturado por índios antropófagos. Na hora do sacrifício o cacique percebeu que ele era imperfeito, porque lhe faltava um dedo. O rei foi solto e chegou para o súdito e disse-lhe: é verdade, Deus é bom. Mas por que então, eu lhe mandei para a prisão? O súdito, respondeu: porque se estivesse contigo eu seria sacrificado. As tempestades da vida não anulam a bondade de Deus. Não haveria o arco-íris sem a tempestade, nem o dom das lágrimas sem a dor. Só conseguimos enxergar a majestade dos montes quando estamos no vale. Só enxergamos o brilho das estrelas quando a noite está trevosa É das profundezas da nossa angústia que nos erguemos para as maiores conquistas da vida. Jesus passara todo o dia ensinando à beira-mar sobre o Reino de Deus. Ao final da tarde, ele deu uma ordem para os discípulos para entrarem no barco e passarem para a outra margem, para a região de Gadara, onde havia um homem possesso. Enquanto atravessam o mar, Jesus cansado da faina, dormiu e uma tempestade terrível os surpreendeu, enchendo dágua o barco. Os discípulos apavorados clamaram a Jesus. Ele repreendeu o vento, o mar e os discípulos e aqueles homens apavorados com a fúria dos ventos ficaram maravilhados diante do seu milagre”.
          Analisando este texto, podemos sintetizá-lo em seis pontos básicos:
·        Uma noite a bordo;
·        Uma tempestade furiosa;
·        Um clamor desesperado;
·        Um milagre impressionante;
·        Uma reprovação amorosa e um efeito profundo.

          Aprendemos aqui algumas lições importantes: Em primeiro lugar, as tempestades da vida são inesperadas.
          O Mar da Galiléia era famoso por suas tempestades. É um lago de águas doces, de 21 quilômetros de comprimento por 14 de largura, há 220 metros a baixo do nível do Mar Mediterrâneo e é cercado de montanhas por três lados, que têm até 300 metros de altura. Os ventos gelados do Monte Hermon (2.790m), coberto de neve durante todo o ano, algumas vezes, descem com fúria dessa região alcantilada e sopram com violência, encurralados pelos montes, caindo sobre o lago, encrespando as ondas e provocando terríveis tempestades.
          A palavra usada é seismós terremoto (Mt 24:7). As tempestades da vida são também inesperadas: é um acidente, uma enfermidade, uma crise no casamento, um desemprego. As tempestades não mandam telegrama. Elas chegam em nossa vida sem mandar recado e sem pedir licença. As tempestades, algumas vezes nos colhem de surpresa e nos deixam profundamente abalados. Como seguidores de Cristo devemos estar preparados para as tempestades que certamente virão. Os discípulos tinham passado o dia ouvindo o Mestre e fazendo sua obra, mas isso não os isentou da tempestade. Eles amavam a Jesus e tinham deixado tudo para segui-lo, mas isso não os poupou do mar revolto. As aflições e as tempestades da vida fazem parte da jornada de todo cristão. Em segundo lugar, as tempestades da vida são perigosas. Mateus diz que o barco era varrido pelas ondas (Mt 8:24). Marcos diz que se levantou grande temporal de vento, e as ondas se arremessavam contra o barco, de modo que o mesmo já estava a encher-se de água (Mc 4:37). Lucas diz que sobreveio uma tempestade de vento no lago, correndo eles o perigo de soçobrar (Lc 8:23). As tempestades da vida também são ameaçadoras.
          Elas são perigosas. São verdadeiros abalos sísmicos e terremotos na nossa vida. Muitas vezes as tempestades chegam de forma tão intensa que deixam as estruturas da nossa vida abaladas. Põem no chão aquilo que levamos anos para construir. É um casamento edificado com abnegação e amor, que se desfaz pela tempestade da infidelidade conjugal. É um sonho nutrido na alma com tanto desvelo que se transforma num pesadelo. De repente uma doença incurável abala a família, um acidente trágico ceifa uma vida cheia de vigor, um divórcio traumático deixa o cônjuge ferido e os filhos amargurados. Uma amizade construída pelo cimento dos anos naufraga pela tempestade da traição. Em terceiro lugar, as tempestades da vida são inadiministráveis. Elas são maiores do que nossas forças.
          Os discípulos se esforçaram para contornar o problema, para saírem ilesos da tempestade. Mas eles nada puderam fazer para enfrentar a fúria do vento. Seus esforços não puderam vencer o problema. Eles precisaram clamar a Jesus. O problema era maior do que a capacidade deles de resolver. Há problemas que nos deixam com uma profunda sensação de impotência. Não temos força para resistir a fúria dos ventos e a força das ondas. Certa feita, Josafá, rei de Judá, foi encurralado por três inimigos que se armaram até os dentes para atacar Jerusalém. Mandaram-lhe um recado insolente, dizendo que o rei não podia escapar de suas mãos. Josafá teve medo, pôs-se a buscar a Deus e decretou um jejum em toda a nação. 
TRECHO DO LIVRO

29 maio 2016

LIVRO - P E C A D O S

Era o fruto proibido as relações sexuais, como alguns têm afirmado? As Escrituras não apoiam essa ideia. Primeiro porque, quando Deus estabeleceu a proibição, Adão estava sozinho e evidentemente continuou assim por um tempo. Segundo, Deus mandou que Adão e Eva ‘fossem fecundos, se tornassem muitos e enchessem a terra’. É claro que Deus não os mandaria violar sua lei e depois os sentenciaria à morte por fazerem isso. Terceiro, Eva comeu do fruto antes de Adão e depois o deu também a seu esposo.  Fica claro que o fruto proibido não era o sexo. A árvore do conhecimento era uma árvore de verdade. No entanto, ela representava o direito de Deus, como Legislador, de decidir o que é bom e o que é mau para suas criaturas humanas. Portanto, comer da árvore não era apenas um roubo — tomar algo que pertencia a Deus —, mas era também uma tentativa presunçosa de conseguir autodeterminação, ou independência moral. Observe que logo depois de mentir a Eva, dizendo que ela e seu marido ‘positivamente não morreriam’ se comessem do fruto, Satanás afirmou: “Porque Deus sabe que, no mesmo dia em que comerdes dele, forçosamente se abrirão os vossos olhos e forçosamente sereis como Deus, sabendo o que é bom e o que é mau.” Entretanto, quando comeram do fruto, Adão e Eva não obtiveram esclarecimento igual ao de Deus sobre o que é bom e o que é mau. De fato, Eva disse a Deus: “A serpente — ela me enganou.” Mas Eva conhecia a ordem de Deus, tanto que a repetiu para a serpente, que foi usada por Satanás como seu porta-voz. Assim, sua atitude foi de desobediência deliberada. Adão, por outro lado, não foi enganado. Em vez de obedecer lealmente ao seu Criador, ele ouviu sua esposa, preferindo também seguir um proceder independente. Ao declarar sua independência, Adão e Eva prejudicaram de modo irreparável seu relacionamento com Jeová e gravaram em si mesmos, diretamente em seus genes, a marca do pecado. É verdade que eles viveram centenas de anos, mas começaram a morrer “no dia” em que pecaram, assim como acontece a um galho que é cortado duma árvore. Além disso, pela primeira vez, eles se sentiram angustiados. Perceberam que estavam nus e tentaram se esconder de Deus. Também sentiram culpa, insegurança e vergonha. O pecado produziu uma agitação dentro deles: era sua consciência os acusando do proceder errado. A fim de cumprir sua palavra e se apegar aos seus padrões sagrados, Deus foi justo ao sentenciar Adão e Eva à morte e expulsá-los do jardim do Éden. Desse modo, o Paraíso, a felicidade e a vida eterna foram perdidos, dando lugar ao pecado, ao sofrimento e à morte. Que tragédia para a humanidade! Entretanto, imediatamente após sentenciar o casal, Deus prometeu, sem comprometer seus padrões justos, reverter todo o dano causado pelo pecado deles.Jeová decidiu tornar possível que a descendência de Adão e Eva fosse liberta do pecado e da morte. Ele realizou isso por meio de Jesus Cristo. Por intermédio dele, Deus eliminará o pecado e todos os seus efeitos e transformará a Terra num paraíso global, exatamente como ele intencionou no início.
PREFÁCIO DO LIVRO

28 maio 2016

LIVRO - ESCREVENDO NA AREIA


O Senhor tinha o costume, especialmente pouco antes de sua paixão, de pregar a Palavra de Deus durante o dia no templo que havia em Jerusalém; sua pregação era acompanhada de sinais e milagres. Quando chegava a tarde voltava para Betânia, hospedando-se na casa de Lázaro, Marta e Maria, e na manhã seguinte voltava à mesma atividade. E como estivesse no último dia da festa do tabernáculo ocupado com a pregação, à tarde foi ao monte das Oliveiras. É isso o que diz: E Jesus foi para o monte das Oliveiras, e: E onde devia pregar Jesus senão no monte das Oliveiras, no monte do unguento, monte do crisma? O nome Cristo quer dizer crisma; e crisma em grego quer dizer unção. Nos ungiu porque nos colocou na condição de lutar contra o diabo(Santo Agostinho, In Joannen, tract. 33), e também: “Significava que depois que começou a habitar no templo por meio da graça (isto é, na Igreja), todas as gentes começaram a acreditar n’Ele. Por isso segue: ‘E veio a Ele todo o povo, e sentado lhes ensinava” (São Beda), e ainda: “A ação de estar sentado representa a humildade da Encarnação. E quando o Senhor estava sentado, o povo vinha a Ele, porque depois que se fez visível pela natureza humana que tomou, começaram muitos a ouvir e crer n’Ele, porque havia aproximado deles por meio da humanidade. Enquanto que os pacíficos e simples admiravam as palavras do Salvador, os escribas e os fariseus lhe perguntavam, não para aprender, mas para embaraçar a verdade. Por isso segue: ‘Os escribas e os fariseus lhe trouxeram uma mulher surpreendida em adultério, a puseram no meio e lhe disseram: ‘Mestre, esta mulher foi surpreendida em adultério”, e: Haviam conhecido que o Salvador era muito bondoso, porque d’Ele estava escrito: ‘... reina por meio da verdade, da mansidão e da justiça’ 
TRECHO DO LIVRO

LIVRO - HERODÍADES - A VERDADE SEMPRE INCOMODA


É bem verdade que “a fé entra pelos ouvidos”, porém, se o coração não se abre a ela, continuamos como meros espectadores e não nos deixamos transformar por aquilo que ouvimos. A Palavra de Deus, por si mesma, traz a graça de tocar e transformar nossas vidas, entretanto, somos nós quem livremente acolhemos ou não sua ação em nossas vidas. A palavra do mês está no Evangelho de São Marcos 6,14-29. Leia-a atentamente, escute-a com os ouvidos e também a acolha com o coração. Medite sobre essa palavra e deixe-a crescer dentro de você, para isso o silêncio e o recolhimento promovem o ambiente propício. O rei Herodes simplesmente ouviu falar de Jesus, parou naquilo que os outros lhe diziam, e acabou tendo uma impressão errada de quem era o Senhor. Isso porque se acostumou a ouvir apenas como um espectador, deixando que as palavras entrassem por um ouvido e saíssem por outro, como costumamos dizer. Herodes gostava de ouvir João Batista, ainda que ficasse desconcertado e embaraçado com as palavras deste por causa de sua situação de vida errada. Todos nós queremos ouvir a verdade, ainda que ela revele nossas fragilidades, porém, ter a coragem de assumir e mudar de atitude e de vida é o grande desafio. A verdade sempre vai incomodar a quem não quer mudar de vida! João Batista incomodava Herodes e Herodíades, que viviam em adultério; no entanto, ambos escolheram continuar no erro e preferiram calar ao profeta por medo de mudarem de vida e de se converterem! Eu e você precisamos fazer uma escolha diferente! Não podemos ficar na postura medíocre de simples espectadores da Palavra de Deus, de quem ouve a Palavra, mas não vive aquilo que ouve. Nós precisamos ouvir a Palavra de Deus com o forte desejo de sermos transformados por aquilo que ouvimos. Certamente isso será exigente para todos nós; contudo sair da nossa zona de conforto é algo sempre necessário. Costumamos dizer que “água parada cria bicho”, e isso é verdade; quando um pouco de água fica empoçada por muito tempo, torna-se um ambiente propício para o aparecimento de bichos e doenças. Aplicado isso à nossa vida, também podemos dizer que um cristão parado vira bicho, ou seja, um cristão que não se converte continuamente, que não rompe com o vínculo cômodo do pecado e do vício, acaba se assemelhando a um animal, vive uma vida desfigurada e desumanizada. Foi o que aconteceu com Herodes que, ao recusar-se a deixar sua vida errada, acabou por matar João Batista, resolvendo, de forma covarde, continuar errando ao eliminar a quem lhe mostrava a verdade. Jesus é a verdade e essa verdade sempre vai nos provocar a tomar decisões e a fazer escolhas. Ainda que sejamos incomodados pelo anúncio da verdade, nossa vida precisa ser por ela transformada, caso contrário, tornamo-nos semelhantes a Herodes, que preferiu eliminar João Batista a se arriscar mudar de vida. Por isso renunciemos à “síndrome de Herodes”, que apresenta resistência à verdade e fúria assassina, buscando resolver as situações ao eliminarmos todos que nos dizem a verdade não desejada. Conhecereis a verdade e ela vos libertará”, ensina-nos Jesus; deixe que essa verdade transforme a sua vida.
PREFÁCIO DO LIVRO

15 maio 2016

LIVRO - SALMO _51

A história demonstra que, na vida, cada escolha feita de forma errada resultará em consequências desastrosas, trágicas. Uma escolha errada pode virar um pecado, por seu descuido espiritual. No entanto, apesar de quão grande for o pecado cometido e os desdobramentos de suas escolhas e das trágicas consequências, Deus, mesmo assim, vai demonstrar sua graça e amor, restaurando-os, perdoando-os e ainda mais, concedendo ao pecador a oportunidade "outras felicidades". A história contida neste livro não tem o cunho religioso propriamente dito, mas suas consequências e escolhas nos remete a uma passagem bíblica e por conseguinte ao Salmo 51. Ao final da leitura chegaremos a conclusão que devemos avaliar nossas vidas, verificando em quais áreas temos pecado contra o Senhor. Confesse cada um dos seus erros, dispondo-se a abandoná-los. Lembre-se de que é indispensável você manter vigilância para que suas escolhas sejam sempre feitas segundo a instrução da Palavra de Deus. E não se esqueça de sempre render louvores ao Senhor pelo perdão que ele concede a você, bem como, por sua infinita graça que é revelada na continuidade de suas bênçãos em sua vida, apesar de seus erros.
ESCOLHAS ERRADAS = CONSEQUÊNCIAS TRÁGICAS
SINOPSE DO LIVRO 

07 maio 2016

LIVRO - O SILÊNCIO DA PENHA (JAMAIS TE CALAS)



Maria Sanchez Penha conheceu o ex-marido na melhor época da sua vida. Ela tinha quinze anos; ele, vinte e cinco. No começo o que se predominava eram as juras de amor. Maria estava apaixonada, ou cega, como diria mais tarde, mas o amor é mesmo assim: Indecifrável no começo, trágico no fim. Eles faziam planos a curto médio e longo prazo e Maria se encantava com tudo que ele dizia e planejava. Brigas, discussões, são normais nos casais pensava Maria e com uma boa lábia, ele sempre trazia a situação sob seu controle depois de uma briga. Até então, as ameaças não faziam parte da rotina do casal – Até então. Certa vez fizeram uma viagem. Foram a uma praia e foi ali que a situação pareceu que começaria a fugir do controle: Depois de uma sucessão de brigas, Maria ameaçou deixá-lo. Ele a levou para um penhasco e garantiu que a mataria caso o relacionamento chegasse ao fim. Mesmo depois desse e de novos episódios semelhantes acontecidos, os dois resolveram morar juntos:


          - Querendo ou não, eu gostava dele, justificava Maria.

           Maria “achava” que ele poderia mudar.

São coisas do amor, ainda mais quando é cego, mas o que é o amor? Pergunta sem resposta. Quem sabe é o coração. A primeira agressão física aconteceu numa noite de Natal. Imaginem só, bem numa época em se prega o amor e a alegria entre pessoas que se amam. Maria levou uma cabeçada do marido que a fez desmaiar. Quando acordou, foi impedida de ir para a casa dos pais pelos cunhados, cúmplices das inúmeras outras agressões que ela viria a sofrer. Teve que ir para a casa que dividia com o marido. A partir daí, chutes, socos, empurrões e ameaças de morte se sucederam:

           - Eu pedia para nos separar; ele chorava muito, dizia que ia mudar. Fui levando.

 Eles continuaram juntos e tiveram um filho. Numa ocasião, chegaram a ficar separados por dois anos, e Maria, certa vez, teve de ficar hospedada na casa da sogra, pois o filho faria uma cirurgia. Com isso o casal voltou a viver juntos. Depois, quando Maria decidiu aceitar um emprego, despertou a fúria do marido. Ele subiu em sua barriga e a socou vigorosamente. A sogra assistiu à cena, imóvel:

           - Quando meu marido terminou de me bater, minha sogra disse que a culpa era minha.

          Maria se mudou, mas não conseguiu completar nem um mês no apartamento arranjado pela amiga. Em outra ocasião, ele tentou matá-la com uma faca. Conseguiu fugir e se escondeu na casa de uma amiga. Maria então resolveu denunciá-lo, uma, duas, tantas vezes, mas as ameaças continuaram, apesar das ordens judiciais de que ele deveria se manter afastado dela por certa distância, das ameaças da polícia de prendê-lo, e a vida de Maria passou a ser um tormento ameaçador, a todo o momento fugindo, com medo e se escondendo de seu grande amor.
SINOPSE DO LIVRO

LIVRO - ALGUMAS PALAVRAS IV - TODAS AS MÃES

MÃE DE RUA
Daquela vez ela não quis nem saber e o fez dormir fora da casa humilde, de madeiras, forrada com placas de papelão para aliviar o frio que castigava as noites intermináveis. O vento e os respingos da chuva que invadia o pequeno cômodo faziam com que o menino, trêmulo, se afagasse no corpo da mãe mesmo debilitada e drogada, bêbada igual marido zumbi moribundo, “envenenados” na loucura das drogas e do álcool. E qual exemplo teria aquele menino que assistia de olhos arregalados àqueles filmes diários de perdição, melancolia e desespero? Mas o menino não se cansava de suplicar a Deus para que um dia tudo aquilo pudesse acabar e quando acabasse não seria também um morador de rua como sua mãe, como seu pai, e nem estaria envolvido com aquelas drogas pesadas – sonhava com dias melhores. Ele não queria ser um menino de rua, e sim, um homem com identidade e digno para viver. Que Deus possa me ajudar, dizia o menino, pois não queria se perder feito sua mãe e não queria ser um morto vivo como seu pai. Quando o pequeno menino se deparou novamente com sua mãe completamente drogada, suja, maltrapilho, poderia ignorar, chorar, correr... Desprezar, mas sua Mãe de Rua antes de se perder o ensinou a amar, ensinou que existe amor e que o amor pode ser pequeno, grande ou infinito. O pequeno menino não tinha forças, não conseguiria tirar sua mãe das ruas apenas com seu corpo físico, mas poderia tirar com os olhos que refletem e refletiam o amor através do coração, e isso ele conseguiu, mesmo que por um instante, até a próxima abstinência ou recaída, mas para o menino o que mais valia era “apenas” um instante de amor, para ter a certeza de que o amor existia.
- Ó meu Deus todo poderoso e misericordioso! Eu enxergo o amor nos olhos da minha mãe, mas parece que o amor está preso, acorrentado, prisioneiro deste vício maldito. Mas as lágrimas da minha Mãe de Rua ainda pode ser o remédio da compaixão, da esperança, da perseverança. Enquanto eu tiver forças não vou abandonar a minha mãe e sei que ela está fazendo de tudo para não me abandonar, para não abandonar a si mesma, e é por isso que acredito no amor acima de tudo. Mas, se o amor perder a guerra, na certa eu vou chorar. Minha mãe de rua vai padecer, escafeder-se, mas mesmo assim não vou abandonar o meu Deus todo poderoso, não vou achar que meu Deus me abandonou, pois apesar de menino, eu tenho a consciência de que fiz o melhor e essa lição vou levar para a vida inteira, pois sei que meu Deus me ama e se me deu esse peso, essa sina, é porque fui escolhido como a “pessoa certa”, amém!
TRECHO DO LIVRO

29 abril 2016

LIVRO - ALGUMAS PALAVRAS _ FILOSOFIA - COLEÇÃO

Na Antiguidade, dizia-se que “O pensamento é o passeio da alma”, pois este era considerado uma atividade na qual saímos de nós mesmos sem sairmos de nosso interior. Em nosso cotidiano, usamos as palavras pensar e pensamento em sentidos variados, podendo se constituir em uma atividade solitária, invisível para nós e que precisa ser proferida para ser compartilhada, ou também se traduzir em sinais corporais e visíveis. Há várias maneiras de se interpretar o pensar, que pode ser visto como preocupação cisma ou dúvida; pode ser sinônimo de deliberação e de decisão, como algo que resulta numa ação; pode se referir a algo que se pode ou não querer, algo voluntário e deliberado, uma forma de atenção e concentração; pode representar uma determinada ideia que, definindo algum assunto, foi publicamente anunciada; ou pode ainda, conforme mencionado por Descartes na frase “Penso, logo existo”, indicar a própria essência da natureza humana. Podemos inclusive supor que há bons e maus pensamentos.
Trecho do Livro 

24 abril 2016

LIVRO - RUA CINCO DE JULHO - BURACO NA ALMA NO CAMPO DE SONHOS

Ao adormecer, me vi num corredor estreito, iluminado por luzes fortes, amarelas e repleto de fumaça branca. Estava frio e comecei a escorregar em curvas, como se fosse um tobogã, até chegar à ponta de baixo de uma grande escada branca onde avistava bem lá no alto uma grande porta.
- Suba Tinho! Suba!
Uma voz de menina pedia para eu subir as escadas.
- Mas eu não posso subir essas escadas! São muitos degraus e eu tenho arritmia. Posso ter uma crise!
- Suba Tinho! Suba!
- Mas quem é você?
- Suba Pai!
Não foi difícil subir as escadas, pois parecia que estava voando e ao invés do esforço me provocar uma crise, sentia meu coração cheio de amor e paz. Ao chegar à porta, ela mesma se abriu sem ao menos eu bater e de dentro uma voz perguntava o que eu estava fazendo ali, e respondi:
- Eu vim chamar a minha mãe. Ela precisa soprar meu coração! Meu coração está doendo!
- Deixa que eu chamo! Disse a menina, de vestido vermelho.
Foi então que a porta se fechou e eu fiquei do lado de fora, descendo os degraus como se “pássaros com grandes asas” me conduzissem. Olhei para trás e vi a menina de vestido vermelho me dando tchau e gritei perguntando seu nome:
- Anna!
Olhei para a janela lateral e vi que ainda estava escuro. Perdi a noção do tempo naquele momento. Estava deitado em minha cama, olhando para algumas estrelas que apareciam no céu. O
céu me parecia tão perto e o brilho das estrelas iluminavam o meu quarto. Fui até a cozinha preparar um copo de leite com café e senti que parecia ter alguém na sala. Pelo espelho do banheiro, que refletia o sofá da sala, vi uma menina pulando no sofá como se fosse uma cama elástica. Tive a sensação de que se ela me visse, iria parar de pular, mas eu não queria que ela parasse. Fui devagar até a minha cama, me deitei, mas conseguia ainda vê-la na sala, pulando no sofá. Ela estava ali, na minha frente, sorrindo pra mim!
- Anna. Minha filha!
Agora de vestido branco, acariciando os meus pés e indicando que eu tomasse um copo com água que estava no criado mudo, ao lado dos remédios que eu havia ingerido, ao lado do retrato onde eu e ela estávamos abraçados e sorrindo. Eu tentava me levantar para abraçá-la, mas não conseguia, e ela fazia um sinal, como se estivesse pedindo para eu ficar quieto, deitado, sem me esforçar e mesmo afoito, resolvi obedecer. Eu precisava de um remédio. Eu precisava dela e Deus me fez vê-la, provando a mim, mais uma vez, que ELE existe.
- Descanse bem, pois amanhã tem jogo!
- Jogo?
- Sim Tinho! Contra os caras da Rua Marcos Portugal! Lembra?
- Como você sabe menina?
- É tudo que você sempre quis, não é? Marcar um gol num jogo decisivo!
Se eu pudesse falar e você ouvir, queria lhe dizer tantas coisas, mas Deus só permitiu que eu visse o sorriso de Aneobalda, depois do diálogo, vindo à direção dos meus olhos para fazer com que meu coração explodisse em bater, mas sem arritmia, somente de alegria e contentamento.
- Descanse bastante, Tinho!
- Tá bom!
- Você precisa ficar bem para poder marcar o gol da vitória! O jogo vai ser muito importante! Será contra os caras da Rua Marcos Portugal e vai valer troféu, medalha e flâmula!
- Tá certo, mas eu preciso ainda comprar o meu tênis bamba!
- Sua mãe já comprou e nós já sopramos seu coração! Vá é marque o gol da vitória. Estaremos torcendo por você e seu time, e depois, quando o jogo acabar, suba novamente as escadas, não vai doer. A porta irá se abrir e estaremos te esperando para lhe abraçar. Vou correr em teus braços e como criança, você vai me girar no ar. Esse é o melhor momento, a hora de te encontrar, pai!
TRECHO DO LIVRO

LIVRO - DO OUTRO LADO - UM NOVO FINAL - 2a. edição



A mesa estava fria, tal como as mãos do médico que trabalhava para me tirar a pequena vida cujo coração só recentemente começava a bater. Senti vergonha e uma dor terrível por permitir que este médico tirasse de mim o meu bebê. No silêncio e no meu desespero, podia ouvir uma voz muito baixa que estava a chamar a minha atenção.
               Era como se a voz dissesse:
               "Não, por favor, não... Por favor, não."
Mas foi tarde demais. A voz desapareceu junto com o corpo pequenino. Que vergonha, culpa e depressão me seguia. Como foi possível eu fazer uma coisa tão egoísta e má? Que tipo de ser humano sou? Eu queria morrer. 
               Quando estava pronta para sair da clínica, reparei numa enfermeira a colocar um cartão na gaveta.  Supunha que tinha o meu nome e toda a informação sobre o meu bebê morto. Então, é assim pensei eu, A vida do meu bebê num cartão que vai ficar dentro de muitos outros, num gabinete. Posso saber o que está escrito no cartão? Será que era um rapaz ou menina? Claro que não - Ouvi dizer que não é possível de se saber tão cedo. Por intuição penso que era um rapaz.
             Mas como era o meu bebê? Mas em vez de ter nos meus braços um bebê vivo que respirava, e que um dia iria correr rir e amar, só existia um cartão com palavras. Continuei a pensar mais: E se alguém conhecido começar a trabalhar nesta clínica e vir o meu nome nas fichas? Sentia-me muito envergonhada. Preocupava-me com a minha reputação. O meu aborto aconteceu há doze anos. Foi num mês de Novembro - e a cada outono, quando vejo as folhas das árvores mudarem de cor e caírem , lembro-me da minha queda quando matei o meu próprio bebê.  Todavia apesar daquele dia tão terrível, desde então eu vim a conhecer um Salvador que me ama. Soube do seu perdão e agradeci-lhe por isto, mas nunca me sentia perdoada. Eu chorava muitas vezes pedindo-lhe para tirar-me a culpa e o sofrimento, mas parecia não haver resposta. Até que uma noite eu tive um sonho tão real até ao ultimo detalhe. No sonho estava na clínica, a olhar a enfermeira a colocar o cartão na gaveta. Sentia um peso enorme ao meu redor, que quase não conseguia respirar. De repente um homem apareceu ao lado da enfermeira. Ó não! Será alguém que conheço? Alguém vai descobrir o que eu fiz.  O homem virou-se para mim. Eu vi o seu rosto. Não, por favor, Ele não... Qualquer pessoa, menos Ele. Era Jesus!
 - Saia, se faz favor, dizia eu. Não deve estar neste lugar horrível. 
Mas Ele não saia. Em vez disto, mansamente, Ele tirou o cartão da mão da enfermeira. Eu comecei a tremer na medida em que eu via os seus olhos absorver a realidade do que eu tinha feito. Lentamente Ele curvou a cabeça e começou a chorar. Sentia-me tão mal porque eu era a razão d'Ele ter vindo àquele lugar. Eu caí ao chão em desespero. Senti as suas mãos nos meus ombros e olhei para os seus olhos, esperando a sua ira. Mas não via nem ira nem condenação, só compaixão. O seu rosto refletia tristeza, e percebia que era mais profunda do que a minha. Ele abraçou-me e eu coloquei a minha cabeça no seu peito. As nossas lágrimas caiam juntas. Finalmente ele começou a escrever algo no cartão. Eu vi e descobri que Ele tinha escrito o seu próprio nome em cima do meu pecado. O seu nome estava escrito num vermelho tão forte que não mais conseguia ler o que estava escrito em baixo. Ali, no seu próprio sangue, o nome de Jesus Cristo cobriu o meu pecado. O peso saiu de mim e enquanto olhava nos seus olhos brilhantes Ele sorriu e sussurrou: Tudo acabou. Finalmente compreendi. Não há condenação para aqueles que acreditam em Jesus, só perdão. A culpa já passou - sou perdoada e livre do passado, agora posso andar com Jesus com felicidade e paz.
TRECHO DO LIVRO


23 abril 2016

LIVRO - NUNCA É TARDE



Doutor Alberto era um grande empresário, um homem muito respeitado perante á sociedade, sua história chega a ser de superação, um homem que quebrou barreiras e deixou uma infância pobre para obter muitas riquezas, se tornando um homem de negócios, mas junto com suas riquezas ele obteve um novo caráter, não era mais aquela criança doce e encantadora, se tornou um Deus, um homem muito arrogante e severo, virou um ser humano amargo e robótico, estava sempre ocupado, por isso ao invés de presentear seus filhos com amor e carinho, os presenteava somente no campo material e havia se esquecido de presentear seus filhos no campo emocional. Seus filhos eram muito unidos, mas estavam seguindo o exemplo do pai, tornando-se arrogantes e amargos. Alberto então decidiu treinar seus filhos para assumir o seu lugar, e desde então as coisas só pioravam. João e Vitor eram péssimos lideres e tratavam mal a todos.
                 Alberto não contava com o fato de que a vida dá muitas voltas, e o prepararia uma surpresa muito desagradável. Em um exame médico foi encontrada uma grave doença, e o médico após muitos exames constataram que infelizmente Alberto só teria mais dois meses de vida. Aquele grande homem severo, poderoso e muito rico se transformou em uma frágil criança; percebeu que a morte nos humaniza, já não sabia o que dizer, nem ao menos o que deveria fazer, seu mundo desmoronou. Era um homem de apenas 55 anos, muito jovem para partir desta vida, mais devido ao estresse, seus pensamentos mórbidos e uma vida dedicada somente ao trabalho, sua doença se agravou. Foi justamente nessa hora que ele percebeu que nem todo dinheiro e poder do mundo traria sua saúde de volta, muito menos compraria a felicidade de ver seus filhos assumindo a empresa, se casando e lhe dando netos, nunca compraria paz no coração. Alberto então decidiu fazer uma viagem e nesses dois meses iria refletir sobre sua vida. Deixou seus filhos responsáveis pela empresa, disse que precisava de umas férias e que viajaria pelo mundo; ele não teve coragem de dizer a verdade.
                 No dia de sua morte, João e Vitor foram comunicados, o advogado além de ser responsável pela notícia, recebeu outra missão de seu cliente Alberto e disse: João e Vítor seu pai me deixou responsável por dividir entre vocês toda a riqueza que ele acumulou durante toda sua vida, ele me confidenciou que suas riquezas estão todas dentro do cofre de sua casa e vamos até lá para abri-lo e dividir entre vocês o que ele os deixou ao partir. Mas João e Vitor pareciam nem ligar para a morte do pai, havia uma intensa briga entre eles, que praticamente lutavam pela herança; os irmãos que eram tão unidos, agora estavam em pé de guerra. João pensava consigo mesmo: Já posso até imaginar, no cofre deve haver dólares, euros, muito dinheiro, escrituras de propriedades, ações de diversas empresas pelo mundo, pode até ter barras de ouro, não vejo a hora de meter a mão na grana do velho. Vítor também pensava semelhante ao irmão: Não vejo a hora que abra logo, esse cofre deve ter muita grana, o velho era muito rico e tinha muitas propriedades e sempre deu mais importância ao material do que seu lado emocional. Até mesmo os advogados já acostumados com esses casos, ficaram completamente horrorizados com suas atitudes, então finalmente decidiram abrir o cofre.
                 Foi um momento de puro suspense e muita tensão, ao abrir o cofre eles tiveram uma surpresa e um forte choque, se olharam entre si e não entenderam nada e até se perguntaram: Isso é uma piada?  No cofre só haviam fotos e recados de quando João e Vítor eram crianças, uma foto da mãe dos rapazes, algumas poesias e textos assinados por Alberto e uma coleção de livros do Doutor Augusto Cury. Além disso, havia também uma carta que dizia: "Queridos filhos que eu tanto amo e sempre amarei, primeiramente gostaria de me desculpar com vocês pelo péssimo exemplo que dei á vocês e pelo pai ausente que fui, somente agora perto de minha morte estou me humanizando, tentei dissecar o meu ser, lapidar os meus defeitos.
                 Saibam, meus filhos, que esses foram os dois meses mais intensos da minha vida, comecei somente agora perto de minha morte a descobrir que a vida é muito mais do que o nosso exterior, eu existi somente na superfície, nos meus últimos dias entendi a verdade e a essência de nossas vidas, aprendi a contemplar o belo da natureza, tudo e todos ao nosso redor. A noite eu conversava com a lua e namorava as estrelas, voei pelo lindo céu azul na asa delta da imaginação, presenciei os pássaros cantando , aprendi a dançar com alegria a valsa da vida, fiz uma viagem como nunca havia feito antes, mas desta vez não cruzei o meridiano. Por certo vocês acham que fui á Europa? Paris? Milão? Não meus filhos desta vez viajei para dentro do meu ser, visitei os vales da sombra de minha arrogância e soberba, nesta viagem aprendi a controlar minhas emoções e filtrar meus pensamentos ruins, nunca na vida agi por impulso e através do ego, comecei a me divertir com minha insensatez e minhas mazelas, percebi que uma pessoa inteligente aprende com seus erros, mas uma pessoa sábia aprende com o erro do outro, por isso aprendam com o meu erro de como não se deve ser e viver, aprendam as grandes lições da escola da vida. Só agora dissecando o meu ser percebi que eu era autoritário e rígido por ser infeliz interiormente, me vi agora como uma pessoa porco espinho: agressiva por fora e frágil por dentro.
                 A verdadeira felicidade está na simplicidade, procuramos tanto essa tal da felicidade, quando na verdade ela mora e se esconde dentro de nosso ser, nós tentamos conquistar e seduzir a felicidade através do luxo fútil exterior, mas no final todo luxo vai para o lixo; ao morrermos não levamos nada a não ser a vida que levamos e o legado que deixamos do útero ao túmulo a única coisa que realmente existiu e sempre existirá e que irá nos libertar é o amor.
                 Eu sempre me preocupei com valores econômicos e tive poucos valores de vida, me preocupava muito com o ilusório mundo exterior e esqueci o meu fantástico e libertador mundo interior. Vivemos em uma sociedade que inverte os valores, fazem do consumismo e da ignorância uma escravidão mental, desculpe-me meus filhos, pois eu sempre os presenteei com brinquedos e muitos supérfluos materiais, mais nunca os dei atenção, afeto, carinho, nunca ouvi suas histórias, suas preferências, nunca penetrei no mundo de vocês, fui um pai no piloto automático, só agora descobri que o amor se compara a uma flor: Se não cuidamos, não regamos nossos entes queridos com afeto e carinho esse amor pode murchar como uma flor sem a água da vida. Desculpe-me meus filhos se eu os decepcionei, não havia dinheiro no cofre e nem nada material, neste cofre só guardei a verdadeira riqueza de toda minha vida, vocês meus filhos, que sempre trarei no coração, e um pouco da sabedoria que obtive durante esses meus últimos dias de vida. Nunca se esqueçam: Nunca é tarde para recomeçar. Após lerem a carta, João e Vítor decidiram fazer igual ao pai, se redescobrir se reinventar ser um eterno aluno na escola da vida, iriam se humanizar e serem eles mesmos, tiraram suas máscaras sociais, e como seu pai disse: Nunca é tarde para um novo recomeço.
TRECHO DO LIVRO