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7 de setembro de 2013

RUA CINCO DE JULHO


... No Grupo, havia uma classe de alunos e alunas com alguns distúrbios mentais, que a gente, criança, na inocência, chamava-os de Loucos. O Beiçola era o terror da molecada. Na ficha dele lia-se que tinha sete anos, mas sua aparência era de uns quarenta. Eu dizia para minha mãe: 


- Mãe, existe gente careca com sete anos?
- Por quê?
- Porque o Beiçola é careca! O cabelo dele não cresce!

Minha mãe preferiu não responder. 

O principal recurso do Beiçola era o de atirar pedras. Ele tinha uma mira impressionante e quando caçoado pelos demais moleques, atirava sem pensar e sempre na cabeça. Outra que botava medo era conhecida como Maria Bonita. Acho que foi a menina mais feia que eu conheci na minha infância. Certa vez a minha professora Dona Julieta estava passando uma lição de casa no quadro verde e acabou o giz. Como sentava perto da porta, ela me pediu para buscar um pedaço de giz na sala ao lado. A sala estava fechada e andando pelo corredor, distraído, bati na porta da sala número treze:

- Professora, posso pegar um giz?
- Pode sim João!

Não tinha giz no quadro verde que ficava de frente para os alunos. Virei-me para o quadro verde lateral quando percebi que tinha uma aluna em pé me oferecendo o pedaço de giz. Levantei a cabeça e tive um grande susto: Descobri que estava dentro da Sala Especial e a menina que estava me oferecendo o giz, sorrindo sem os dentes da frente, era a Maria Bonita. Ameacei correr, me assustei ao ficar frente a frente com a menina mais feia do mundo e pude perceber que na hora que peguei o giz da mão dela, o Beiçola me filmou, me encarou e naquele momento eu fui jurado por ele, com o sinal que ele me fez com o beiço, que era o seu tique nervoso:

- Vou te pegar!

Eu não sabia que a Maria Bonita era namorada do Beiçola. Juro. Quando bateu o sinal eu saí correndo sem olhar para trás. Eu corri com a mochila nas costas e uma das mãos sobre a cabeça, com medo de tomar uma pedrada do Beiçola. Pior foi à noite. Eu não conseguia dormir. Ficava me lembrando do rosto da Maria Bonita. Ela era muito feia, parecia que tinha só um buraco no nariz, a ponta do seu nariz fazia uma curva e suas pernas eram peludas. Diziam que ela andava mancando, pois tinha uma perna maior que a outra. No dia seguinte, cheguei cedo ao Grupo e fui correndo procurar o Ratinho. Ratinho era um moleque bem baixinho, magrinho, narigudo e com cara de velho. Ele também estudava na Sala Especial, mas era um amigo que eu tinha. Pedi para o Ratinho conversar com o Beiçola e dizer que eu não queria briga com ele, que ele entendeu errado e que eu não queria nada com a Maria Bonita, pois minha namorada era a Raquel. A Raquel não era da Sala Especial e depois que nos formamos na quarta série, em mil novecentos e setenta e um nunca mais soube dela.
TRECHO DO LIVRO

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