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20 de janeiro de 2019

LIVRO - PARA AUDREY, COM AMOR!



PARA AUDREY, COM AMOR

    Os preparativos para a festa de formatura estavam avançados e os alunos ansiosos, sentimentais nas conversas e nas reuniões de despedida.  Muitos mudariam de cidade em busca de uma colocação profissional e outros, como Jonathan, atravessaria o oceano para estudar, se aperfeiçoar num intercâmbio graças à bolsa de estudos que ganhou classificado como um dos melhores alunos da universidade federal. Jonathan estava muito feliz pela oportunidade de estudar, ainda mais sabendo que depois de dois anos voltaria com a garantia de um excelente emprego numa empresa multinacional. Entretanto, não escondia sua preocupação com Audrey, que prometeu esperá-lo para se casarem. Audrey estava em tratamento de uma doença rara, que prejudicava sua coordenação motora, cujos médicos ainda não tinham um diagnóstico preciso. Assim sendo, preferiu adiar seu intercâmbio e Jonathan iria sozinho. Mas, o mais importante naquele momento foi o baile de formatura, comandado pela orquestra municipal, alunos formandos e seus familiares estavam felizes e se confraternizando pelo diploma e pelo objetivo conquistado. Um a um, os casais de alunos eram anunciados pelo mestre de cerimônias e sob palmas e vivas passavam por um corredor para receber os comprimentos em meio aos flashes que registravam todos os momentos da festa, para ficarem guardados para sempre. Quando Jonathan segurou na mão de Audrey ao serem anunciados, sentiu a emoção da despedida.

    - Atenção formandos para a hora da valsa!

    O mestre de cerimônias anunciava o momento da valsa. A primeira seria com o pai ou mãe, depois padrinhos e a terceira seria para os casais enamorados. A hora da despedida estava chegando e todos estavam emocionados e talvez tenha sido por isso que Jonathan não tinha dado importância ao fato de que Audrey estava tremendo, quando segurou em sua mão para dançarem. Durante a valsa os olhos de Jonathan e Audrey ficaram perdidos, filmando todos os detalhes que fariam parte de uma saudade breve e ansiedade pelo regresso que um dia iria chegar. Os olhos de Audrey se fixaram nos olhos de Jonathan, que se preocupou quando sentiu todo peso de Audrey em seus braços. A música entoava uma harmonia agradável e romântica que os olhos de Audrey abriam e fechavam, contemplando um largo sorriso adocicado em seus lábios de mel.

    - Você está se sentindo bem?

    Bastou Jonathan questionar Audrey que ela caiu, literalmente, em seus braços. Parecia desmaiada. A música parou e todos se assustaram com a cena. Audrey ficou sem movimentos e desacordada. Logo a levaram para longe dali e a orquestra voltou a tocar para que não deixasse um ar de preocupação ainda maior entre as pessoas. Uma ambulância logo chegou e levou Audrey para um hospital.  Chegando, foi removida imediatamente para uma UTI, tendo Jonathan sempre ao seu lado. Das crises, aquela havia sido a mais preocupante, a que deixou os pais de Audrey e Jonathan mais preocupados. Quatro dias se passaram e Audrey não demonstrava nenhuma reação.  Enquanto aquilo acontecia, os médicos repetiam as baterias de exames, mas sem chegarem a um diagnóstico preciso e concreto. Todos ficaram preocupados e Jonathan posicionou a todos que adiaria a viagem. Não teria condições psicológicas para viajar para o outro lado do mundo e deixar Audrey naquele estado. Depois de quinze dias Audrey acordou. Ficou consciente, reconheceu a todos e ficou preocupada por não ter visto Jonathan ao seu lado. Jonathan ficou muito cansado, passou dias e noites no hospital ao lado da mulher amada e tinha ido para casa, tomar banho, trocar de roupa para voltar novamente ao hospital e ficar ao lado de Audrey. Ao vê-la consciente novamente, disse a ela que nada era mais importante que sua saúde e que havia tomado uma importante decisão:

    - Audrey, não vou mais viajar. Não posso ficar longe de você e não vou me dar bem do outro lado do mundo sabendo que você não está bem aqui.

    Por mais que Jonathan tenha relutado em ficar, foi convencido pelos familiares e pela própria Audrey a ir embora em busca do seu sonho de realização profissional:

   - Ficarei bem meu amor. Ficarei te esperando até sua volta. Vá e realize seu sonho. Disse Audrey na despedida. Jonathan partiu preocupado e com lágrimas nos olhos. Audrey teve uma razoável melhora, mas sua doença ainda era um mistério para os médicos. Algum tempo se passou e Audrey começou a lecionar numa escola particular de línguas. Conversava com Jonathan no máximo duas vezes por semana. Jonathan por sua vez, tinha uma vida atribulada de estudos e estágios e pouco tempo de lazer. Quando sobrava algum tempo tinha que descansar para poder enfrentar a maratona pesada de trabalhos e estudos, mas estava satisfeito, porém com muita saudade da família e principalmente de Audrey. Quando existe a saudade no coração, o tempo é cruel e custa a passar. Nos momentos em que ficava só e isolado, Jonathan recordava com amor dos momentos felizes que passava com Audrey, mas ficou mais despreocupado, pois houve uma boa melhora na saúde da mulher que tanto amava. Perto de completar um ano distante de Audrey, Jonathan ligou para dar uma excelente notícia: Passaria o natal com ela e toda família graças a uma semana de férias antes de iniciar seu ultimo ano de intercâmbio. Audrey não se coube de tanta alegria e não via a hora de chegar o dia de reencontrar seu grande amor. Quando Jonathan chegou, a casa estava toda harmoniosa, com enfeites natalinos e ao ver Audrey à distância, correu até que pudessem se abraçar: Jonathan e Audrey se abraçaram e se beijaram no reencontro e não quiseram perder um só minuto para ficarem juntos e aproveitarem o pouco tempo que teriam antes de Jonathan retornar aos estudos. Muitos planos estavam fazendo para depois do último ano em que Jonathan concluiria seu intercâmbio e voltaria de vez para uma vida nova junto de Audrey. Assim, as festas de natal passaram depressa e Jonathan teria de retornar. Audrey lhe fez um pedido antes de partir:
    - Quando se aproximar a data do seu retorno, plante uma flor, espere ela brotar e traga-a para mim num pequeno vaso.

    Jonathan disse que atenderia o pedido de Audrey, sem mesmo perguntar o porquê e partiu.Passado um tempo Jonathan recebeu a notícia de que Audrey havia tido novas crises e que tinha ficado internada. Jonathan se desesperou, ameaçou largar tudo é vir ao socorro dela, mas foi convencido a ficar. Jonathan ficou desconfiado de que estavam lhe escondendo algo sobre a saúde de Audrey e isso fez com que começasse a ter níveis mais baixos de avaliação onde fazia estágio e estudava. Novas crises apareceram e Jonathan sentia que algo grave estava ocorrendo com Audrey.

    - Os médicos descobriram a doença e ela está internada e sendo tratada.

      - Eu quero falar com ela!

    - Quando for o momento e os médicos assim permitir você falará com ela!

    E quando chegou o momento em que Jonathan conseguiu falar com Audrey, sentiu que estava dispersa, falando coisas sem sentido, mas lembrou-se da flor e pediu que Jonathan não esquecesse de trazê-la. Finalmente chegou o dia de Jonathan regressar, de reunir os dois lados. Em sua bagagem o sucesso de um intercâmbio perfeito, emprego garantido e possibilidade de concretizar todos os planos que fez, ao lado de Audrey. Seu pensamento positivo fazia com que ele imaginasse encontrar Audrey bem, curada de sua enfermidade e feliz, correndo para abraçar e beija-lo, matando a saudade de seu grande amor. Jonathan segurava a flor amarela com o maior cuidado, como se fosse um prêmio, um troféu, um objeto de devoção. Lembrou-se que poderia escrever um cartão para colocá-lo junto com a flor, e assim o fez:
    - Por favor, quero comprar um cartão de presente!

    - Sim senhor! Pode escolher entre esses!

    - Eu gostei deste!

    - O senhor vai escrever alguma coisa?

    - Sim. Escreva por favor: Para Audrey, com amor!

    O voo que trouxe Jonathan de volta teve vários atrasos, várias conexões e o tempo que ficou incomunicável foi de quase três dias. Ao chegar, estranhou que ninguém estava lhe esperando no aeroporto. Pegou um táxi e seguiu para casa. No caminho sentiu um calafrio, suas mãos ficaram geladas, assustou como se um vulto tivesse passado à sua frente e segurou com mais cuidado a flor amarela que carregava. Chegando em casa não tinha ninguém de seus familiares e dos familiares de Audrey lhe esperando. Chegou a chamar por eles, mas ninguém respondeu. A casa estava vazia, nem os cachorros estavam latindo como de costume, até que apareceu um senhor de quem Jonathan não conhecia e que lhe entregou um bilhete com um endereço, onde alguém pedia que fosse imediatamente até o local assim que chegasse:

    - Meu amigo, vá depressa antes que seja tarde! Disse o desconhecido.

    Jonathan se desesperou, mas continuou segurando com todo o cuidado a flor que Audrey lhe pediu. O táxi demorou a chegar aumentando ainda mais a ansiedade de Jonathan que depois, questionado pelo motorista do porque estava chorando, disse-lhe que estava com a sensação de ter perdido um pedaço de seu coração e de sua alma. E ao chegar no local determinado no bilhete, Jonathan adentrou ao recinto. Ouviu choros e gemidos. Não quis olhar no rosto de ninguém antes de ver Audrey. Jonathan estava sereno, como se estivesse sendo guiado por uma força suprema, divina, como se estivesse sendo emanado por um raio de luz. Jonathan sabia onde estava e porque estava naquele local, só não quis acreditar. Um local obscuro, triste, com cheiro forte de parafina de tantas velas que estavam sendo queimadas, misturando-se com o forte perfume de flores de todas as espécies e cores. Nas laterais de paredes geladas, ficavam os vultos de seus familiares e amigos. No centro um caixão branco, "enfeitado" com flores coloridas, e dentro dele estava Audrey, de olhos fechados, sem expressão ou marcas de sofrimento. Encostado ao caixão existiam várias coroas de flores e faixas com a palavra "saudade". Jonathan entrou bem devagar com a flor em suas mãos e avançou até o caixão sem dizer nada a ninguém e ninguém o interpelou. Jonathan colocou a pequena flor amarela bem perto do rosto de Audrey, deu-lhe um beijo na face e fez o sinal da cruz. Do bolso, tirou um lenço branco para enxugar suas lágrimas e um cartão, onde estava escrito "Para Audrey, com Amor!
TRECHO DO LIVRO

LIVRO - QUANDO A CHUVA PASSAR

Heraldo chegou em casa o sol havia nascido e seus raios, através das frestas da janela, invadiam o quarto bem arrumado e ainda podia sentir o perfume de Maria Luiza. Ela não estava em casa. Como todas as manhãs, acordava bem cedo, deixava a filha na creche e corria atrasada para o trabalho na repartição pública. Heraldo ficava pelo menos setenta e duas horas fora de casa, às vezes mais, quando as viagens eram mais longas, ou quando tinha que cobrir a falta de algum colega na Empresa de Turismo. Heraldo era motorista de ônibus, costumava fazer sempre a mesma viagem de uma capital à outra, sempre nas madrugadas, e estava bem acostumado com aquela rotina e também era bem quisto na empresa. O ônibus saía sempre à meia noite. Heraldo dirigia a madrugada inteira e chegava na cidade de destino pela manhã. Depois descansava até por volta do meio dia e dirigia novamente da cidade de destino até a cidade de origem, chegando à meia noite, pois na volta fazia escalas em cidades que ficavam no percurso. O percurso era sempre o mesmo e a empresa, precavida, dispunha de dois motoristas em todos os ônibus, para que pudessem revezar em caso de cansaço ou qualquer outro imprevisto. O trajeto sempre foi muito perigoso: Muita neblina, garoa e pistas irregulares, mas Heraldo sempre teve muito cuidado... Um excelente motorista. Ele trabalhava na mesma empresa fazia vinte anos e nunca havia tirado ferias como se devia e dizia que não conseguia ficar parado, sem trabalhar, tanto que nos dias em que ficava de folga, trabalhava com o taxi do irmão.
     Heraldo conhecia a maioria dos passageiros de suas viagens, assíduos, viajavam a negócios, por trabalho, estudos, pois existiam grandes empresas multinacionais e faculdades localizadas no percurso. Os passageiros ficavam tranquilos quando viam que era Heraldo quem estava ao volante do ônibus.
     Por outro lado, o relacionamento de Heraldo com Maria Luiza não andava bem fazia algum tempo. Ele vivia para trabalhar e ela, trabalhava para viver, pois a situação financeira do casal não era das melhores. Eles só se encontravam nos finais de semanas ou nos feriados em que por ventura Heraldo estivesse de folga. Apesar de todas as amarguras Heraldo amava muito Maria Luiza. No dia em que veio a separação definitiva, Heraldo tinha uma importante viagem onde levaria vários estudantes para fazer vestibular numa das universidades que ficava no percurso, no roteiro da viagem onde ele estava escalado como motorista. Apesar da situação conturbada que culminou na separação, Heraldo amava Maria Luiza e naquele dia todos perceberam em seu semblante uma terrível desilusão.
     A viagem iniciou-se pouco depois da meia noite e a previsão de chegada ao destino seria por volta das seis horas da manhã, horário suficiente para os estudantes se prepararem para a prova do vestibular que começaria por volta das nove horas.
     Entre os passageiros do ônibus estava Andressa. Andressa era muito conhecida de Heraldo e viajava sempre na primeira poltrona do lado direito e ficava basicamente ao lado do motorista. Heraldo e Andressa se conheciam viagens anteriores e ela sempre dizia que era muito tranquilo e agradável viajar com ele ao volante do ônibus.
     Naquele dia ele estava de poucas palavras face ao abalo por sua separação. Andressa entendeu e respeitou o sentimento do amigo motorista e permaneceu em silêncio durante a viagem.
Ao se aproximarem da serra, uma neblina intensa fez com que Heraldo reduzisse a velocidade e andasse com mais atenção, tanto que pediu auxilio para o motorista reserva na orientação do percurso. Precavido, achou melhor parar o ônibus num recuo seguro quando começou uma chuva muito intensa.
     - Pessoal! Vamos esperar a chuva passar! Vou estacionar o ônibus neste recuo seguro – Disse Heraldo aos passageiros.
     A chuva demorou a cessar e chegou no limite de tempo em que a viagem teria de prosseguir de qualquer maneira para que os alunos/passageiros não corressem o risco de chegarem atrasados no destino e perderem a prova do vestibular.
     - Pessoal! A Chuva ainda continua intensa, mas temos que prosseguir!
     A visibilidade não era das melhores, e com toda sua experiência Heraldo dirigia o ônibus com a maior cautela e cuidado. Olhou pelo retrovisor e viu que os passageiros estavam calmos e tranquilos, muitos estavam dormindo, inclusive Andressa a quem Heraldo constantemente olhava.
     - Quando a chuva passar ficaremos mais tranquilos!
A descida da serra era perigosíssima em dias normais, com visibilidade normal... Imagine com chuva e neblina! Heraldo por mais que tentasse tornar o ônibus dirigível, as curvas acentuadas na pista molhada e a baixa visibilidade fez com que o ônibus derrapasse várias vezes até capotar. Por sorte não caiu ribanceira abaixo. No momento do acidente Heraldo ainda percebeu que a maioria dos passageiros estavam dormindo. Ele ficou preso entre as ferragens do ônibus e até que o socorro chegasse não teve como mensurar o tamanho da tragédia, mas ouvia gritos, gemidos e pedidos de socorro. Chamou por André, o motorista reserva, mas ele não respondeu. Olhou para a poltrona onde Andressa estava sentada e só enxergou destroços.
     Chovia muito e isso dificultava o trabalho das equipes de resgate.
Da ultima vez em que teve consciência, Heraldo reclamava que não estava sentindo sua pernas e chamava pelo nome, os passageiros mais conhecidos, sem resposta alguma.
     - Venha por aqui!
     - Não consigo me mexer!
Alguém tentava prestar ajuda a Heraldo, que tentava a todo custo se desprender das ferragens.
- Estou sentindo muitas dores! Estou sentindo muitas dores!
Uma voz calma e tranquila, no meio daquela cena desesperadora, tentava guiar Heraldo para “um lugar seguro”, como a voz dizia:
     - Venha por aqui! Já existem vários que estão comigo! Estão seguros!
     - Mas quem é você? Você é do resgate?
     - Venha por aqui! Muitos já estão aqui comigo! Outros, infelizmente não foi possível!
     Assustado e sentindo muitas dores, Heraldo conseguiu se desvencilhar das ferragens e com muito esforço seguiu na direção em que ouvia uma voz chamá-lo sem cessar.
     - Entre Heraldo! Entre!
     Heraldo reconheceu quem o chamava e pedia para entrar: Era Andressa! Juntamente com algumas pessoas que estavam no ônibus que desgovernou e capotou.
     - Onde estão os outros?
     - Alguns foram resgatados e levados para os hospitais da região, outros, infelizmente não tiveram a mesma sorte que a nossa de conseguir entrar nesteônibus reserva”! Disse Andressa a Heraldo.
Heraldo estava com o semblante assustado. Nem Andressa nem as outras pessoas estavam com qualquer escoriação e ainda ficou mais assustado quando percebeu que as fortes dores que estava sentindo havia cessado:
     - Nós vamos embora quando a chuva passar!
Andressa repetia essa frase várias vezes, encostada na janela do “ônibus reserva” com a palma da mão direita estendida:
     - Nós vamos embora quando a chuva passar!
Quando finalmente Heraldo percebeu o que havia ocorrido e o que estava acontecendo, chorou... Chorou e chamou por Maria Luiza. Depois sorriu, abraçou Andressa e as demais pessoas que estavam dentro do “ônibus reserva”, olhando a chuva cessar e um raio de luz brilhar no céu azul entre nuvens!
     - A chuva passou! Já podemos ir! Até um dia, Maria Luiza! Um dia vou chegar até você! Enquanto isso não vou parar de fazer a minha prece:
     Como vou chegar até você?

Talvez voando, entre as nuvens, entre o céu é o amanhã. Quem sabe se eu rezar você possa aparecer e segurar na minha mão, como da última vez em que morri para te encontrar...
Passarão os dias e as noites e se eu não achar o caminho, a chuva vai me levar. A chuva é sempre forte, os raios e os travões não me amedrontam mais, mas, mesmo assim, vou esperar a chuva passar... Paciente, para eu poder voar novamente entre as nuvens, pois na certa vou te encontrar e vamos para bem longe, para algum lugar... Porque eu te amo e a chuva vai passar. Vai passar!
ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

LIVRO - O SILÊNCIO DA PENHA - "JAMAIS TE CALAS"



          Maria conheceu João na melhor época da sua vida. Ela tinha quinze anos; ele, vinte e cinco. Quando o assunto é amor, não há regra. Casais com grande diferença de idade são mais comuns, contudo a questão sugere tabu para muitas pessoas, principalmente se a diferença ultrapassa os dez anos. A sociedade está muito mais aberta a aceitar que a idade não é impedimento para o amor, mas é preciso compreender o que a diferença pode significar na vida a dois. Amadurecimento deve ser a palavra de ordem em um relacionamento desse tipo.

          Quando um casal é maduro, independente da idade, a convivência tende a ser harmônica e as possíveis dificuldades em relação à diferença não serão valorizadas pelo casal. Comentários preconceituosos são menos frequentes mais existem e, em alguns casos, eles vêm da própria família. Não dá para controlar a opinião das pessoas, e por isso o casal deve ter paciência para que o tempo dê um jeito de mostrar para a família que os dois se amam e que é isso que realmente importa”.

          Quando existem valores essenciais, como o amor, a sinceridade, a amizade e o desejo, a relação se fortalece independente do preconceito. Quando isto existe a diferença de idade não atrapalha e o casal lida com ela de forma simples e natural. Essa questão pesa quando não há equilíbrio na relação.

          No começo do relacionamento de João e Maria o que  predominava eram as juras de amor. Maria estava apaixonada e não se cansava em se declarar para João.

          - Você sabe que Te Amo. Sabe que sou completamente apaixonada por ti, por cada um dos detalhes físicos e de caráter que fazem de ti um ser único e especial. Mas há algo em ti que me deixa completamente encantada: é a sua boca maravilhosa, capaz dos sorrisos mais luminosos, dos beijos mais calorosos e das palavras mais carinhosas. É da tua boca que sempre me chega o conforto, seja através dos teus especialíssimos toques, seja através das palavras doces que só ela é capaz de dizer... Como é possível tão forte beleza repousar sobre lábios tão gostosos? E quer saber mais, quando tua boca se abre em um sorriso, o mundo fica mais claro e a minha alma enche de luz, pois você sorrindo é Lindo um Gatinho... Meu eterno Amor.

        A tua boca me fascina e as palavras, sempre as boas palavras que diz através dessa boca linda me cativa definitivamente, faz com que eu viaje por um mundo de paz e amor. Ver teu sorriso e ouvir a tua voz são coisas que me faz muito feliz. E quando essa boca se cala em beijos que calam fundo no meu corpo? Nem imagina as sensações maravilhosas que os teus beijos, os beijos dessa boca encantadora me proporcionam. Amo-te João, amo-te inteirinho, mas fico completamente alucinada quando olho para tua boca, quando me aproximo da tua boca, quando toco a tua boca com a minha boca.    
        Maria não se completava sem João

LIVRO - AMOR EM PEDAÇOS

O BEIJO QUE VOCÊ ME DEU
       Os alunos sempre ficavam perfilados no pátio e ouviam o hino nacional antes que subissem para a sala de aula. Depois, os inspetores conferiam na fila se todos estavam com os uniformes devidamente alinhados, limpos, sapatos engraxados, cabelos penteados e devidamente aparados. Evidente que existia certo rigor excessivo, mas servia para complementar a educação que recebíamos de nossos pais. Para complementar o rigor, os meninos ficavam bem longe das meninas, mas mesmo de longe eu conseguia ver a beleza de Elizabeth, para mim, a menina mais linda do Grupo Escolar. Quando terminávamos de cantar o hino nacional, os meninos e meninas, perfilados, se dirigiam para a sala de aula e sempre, num dado instante, a fila dos meninos se encontrava com a fila das meninas. Como eu era um dos mais altos, ficava sempre no final da fila e consegui ver todas as meninas passarem e me encantava com todas, mas em especial com Elizabeth.
        Elizabeth sempre ganhava os concursos de menina mais bonita e que tirava as melhores notas em todas as matérias e eu de cara deduzi que para conquistá-la, primeiro teria que ser um excelente aluno. Eu me esforçava demais para tirar boas notas. Minhas notas não eram ruins, mas não iguais a de Elizabeth. Na sala de aula eu gostava de sentar-me na lateral, do lado da janela. Elizabeth sentava-se numa posição mais central, na terceira fileira e da minha posição conseguia ver suas pernas perfeitas e seu corpo de silhueta de traços uniformes, tudo encaixado na saia cinza e camisa branca. Eu precisava de uma chance, de uma oportunidade de ficar frente a frente com Elizabeth e poder iniciar uma conversa. Nos grupos de trabalho eu gostaria de poder participar com Elizabeth, mas a professora, a chata da Dona Cacilda quem formava os grupos e ela sempre separava os meninos das meninas.
       - Vai ter a festa de aniversário do Robertinho. Você vai?
        Sinceramente não estava a fim de ir à festa do aniversário do Robertinho. Eu estava cansado de ficar esquentando a parede da garage onde fazíamos os bailes, principalmente quando tocava a música we said goodbye do Dave McLean. Nenhuma menina queria dançar comigo:
        - Você é muito alto. Diziam elas.
Mas quando fiquei sabendo que Elizabeth iria à festa, não pensei duas vezes. Fui. O Robertinho era um cara legal, mas muito metido. Era ruim de bola, preferia jogar vôlei a futebol, por isso não fazia parte da minha roda de amigos, mas, mesmo assim nos dávamos bem. O pior foi saber que ele também estava a fim da Elizabeth e além do mais as notas dele eram melhores que as minhas. O grande defeito de Elizabeth era escolher seus amigos e amigas em função das notas que tínhamos no boletim. Isso me incomodava, pois, apesar de não ser mal aluno, estava no terceiro escalão de notas e assim seria difícil me aproximar de Elizabeth. Todos achavam Elizabeth a mais linda da escola. Até as meninas, os professores, a diretora, achavam Elizabeth linda, e eu, evidentemente, muito mais ainda. Quando cheguei à escola naquele início de tarde, após cantarmos o hino nacional e tomarmos uma geral dos inspetores, as filas iniciaram a subida para as salas de aula. Na curva da escada, me dei de frente com Elizabeth.  Meu Deus! Que garota linda! Ela olhou para mim e sorriu. Minha boca ficou aberta e eu hipnotizado. Os olhos de Elizabeth brilhavam e as minhas pernas tremiam. Ela sorriu novamente e me chamou pelo nome:
       - Você vai à festa do Robertinho?
       - Vou sim!
       - Então nos vemos lá!
Na sala de aula era muito difícil os meninos conversarem com as meninas por causa da Dona Cacilda e as chances disso acontecer era na fila, depois do hino, subindo as escadas em direção à sala de aula. No recreio também era tudo separado e sempre éramos vigiados pelos inspetores. Uma vez eu e o Robertinho armamos um plano que deu certo e conseguimos passar para o lado das meninas. Foi uma aposta. Quem conseguia passar as meninas beijavam... Pena que aquilo me custou dois dias de suspensão e uma carta de advertência, assinada pela Dona Cacilda.
       Fiquei muito feliz de ter tido a oportunidade de conversar com Elizabeth e teria uma grande oportunidade de conversar novamente na festa do Robertinho.
       De volta para casa, naquele dia, comecei a descobrir o que é realmente o amor, como ele se manifesta e as transformações que temos no comportamentos e ficamos como se realmente estivéssemos no "mundo da lua". A partir daquele momento eu tinha decidido que iria tentar conquistar Elizabeth de qualquer maneira. Eu estava apaixonado e meu primeiro desafio foi melhorar ainda mais meus estudos, pois sabia que a maneira mais rápida de me aproximar de Elizabeth era ter um boletim cheio de notas verdes.
      Minha mãe ficou preocupada e confusa, pois pelas notas que eu tinha no boletim não era necessário que eu me "matasse" de estudar. Meu pai ficou muito preocupado, pois me pegou várias vezes nas madrugadas debruçado e dormindo sobre os livros:
       - O que será que está acontecendo com esse menino?
       A festa foi um fracasso. O puto do Robertinho só convidou homem. Devia ter uns quinze meninos para quatro meninas, dentre elas Elizabeth. A vitrola quebrou na terceira música e o jeito foi ficar conversando, comendo bolo pullman e bebendo crush. Elizabeth foi logo embora. Seu pai veio buscá-la muito cedo e assim a festa perdeu a graça, pois as outras três meninas eram muito feias. Na semana seguinte eu teria uma grande chance de mudar o rumo desta história. Aconteceria um concurso ou uma gincana de matemática. Eu havia estudado feito louco nos últimos meses e as minhas notas que já eram boas, ficaram ótimas. Só que desta vez a gincana teria um atrativo a mais e que aguçou todos os meninos: Como Elizabeth vencia todas as gincanas de matemática, daquela vez ela não participaria. Além disso, o primeiro colocado dos meninos ganharia um beijo de Elizabeth. Existiam doze meninos participando da gincana, pois somente os doze que tinham as melhores notas poderiam participar. Os três primeiros colocados ganhariam medalhas de ouro, prata e bronze e o primeiro colocado, além da medalha de ouro, ganharia o beijo de Elizabeth. A prova foi composta por dez questões, dez exercícios de matemática em que os doze meninos teriam quarenta e cinco minutos para resolvê-los. Eu estava bem preparado, tinha estudado bastante, gostava muito de matemática, mas os outros garotos também eram bons e todos nós queríamos o beijo da garota mais linda e mais gostosa da escola. A prova não estava difícil, mas o professor Alcides era mestre em preparar algumas pegadinhas nos exercícios que fazia confundir e se não fossemos espertos poderíamos errar até mesmo os exercícios fáceis. Terminei a prova com trinta e sete minutos. Robertinho terminou com trinta e os outros concorrentes ainda ficaram "quebrando a cabeça"
       - Cadê a Elizabeth!
       - Calma garoto. Tá com fogo? Disse a Dona Angélica, diretora que iria ajudar o professor Alcides na correção das provas.
       Eu estava nervoso, minhas mãos estavam suando e me deu vontade de fazer xixi. Fui ao banheiro e no corredor encontrei-me com o Robertinho:
       - O que achou da prova?
     - Não estava difícil, mas o professor Alcides gosta de fazer pegadinhas nas questões.
       - É mesmo, mas minha medalha e meu beijo estão garantidos, disse o metido do Robertinho.
       O professor Alcides começou a corrigir as provas com um sorriso sarcástico no rosto quando a diretora Dona Angélica disse que todos estavam dispensados e podiam voltar para suas casas e que o resultado da gincana de matemática somente seria divulgado no dia seguinte. Foi muito difícil dormir naquela noite que antecedeu o resultado da gincana. Eu tinha certeza que tinha ido bem na prova, mas me bateu um conflito em minha consciência. Eu estava apaixonado pela Elizabeth, mas não queria ganhá-la num concurso de matemática e ao mesmo tempo o beijo seria apenas um cumprimento, da mesma forma que as pessoas se saúdam por um feito, prêmio etc. Dessa maneira eu fui para a cerimônia de premiação despreocupado, sem a ansiedade de que teria que ganhar a qualquer custo e pensar que o beijo de Elizabeth valeria mais do que a medalha de ouro.
       - Vamos iniciar o anúncio do resultado, Disse a Dona Angélica.
       Eu fiquei longe do palco. Estava estranho naquele dia. Senti uma vontade de ir embora e sequer saber do resultado da gincana. No meio da multidão de alunos não consegui avistar Elizabeth, enquanto a Dona Angélica entregava a medalha de bronze para o Victor Hugo. O Robertinho esfregava as mãos, mas ficou decepcionado com a medalha de prata.
       - E o vencedor da gincana de matemática da oitava serie do ano de mil novecentos e setenta e quatro foi...
       Quando o professor Alcides anunciou meu nome como vencedor, a única coisa que me veio à mente foram os dias em que passei estudando até nas madrugadas para que pudesse estar mais perto da garota que eu estava apaixonado. Lembrei-me da preocupação dos meus pais e cheguei à conclusão naquele momento que o mais importante era saber que fui capaz de atingir um objetivo e isso foi muito importante para o que eu pretendia na minha vida. Quanto a Elizabeth, para que deveria me preocupar com o beijo se ela nem ao menos estava na cerimônia de premiação?
       - Eu estou aqui! Eu vi quando você se afastou do palco e veio nesta direção! 
       Era Elizabeth, na minha frente!
Ela olhou em meus olhos e logo fui hipnotizado pelo brilho de seus olhos de ébano, enquanto a Dona Angélica me chamava pelo microfone para me entregar a medalha de ouro.
       - Fiquei contente que você venceu a gincana. Torci por você.
Na verdade eu não estava acreditando no que estava acontecendo. Abaixei a cabeça e vi quando os pés de Elizabeth caminharam na minha direção. À medida que ela se aproximou, exalou um perfume que jamais havia sentido. Parecia que eu estava num imenso jardim em que todas as rosas tinham inveja de Elizabeth, por ela ser a mais bela, a mais perfumada. E quando ficamos frente a frente, pensei em dar uma face para que Elizabeth me beijasse, pois afinal, eu havia ganhado a medalha de ouro. Mas existem momentos na vida que são únicos, que não podemos deixar passar, pois só existem uma vez e pode ser que não teremos mais uma oportunidade como aquela. E foi então que ao invés da face, dei minha boca para Elizabeth. Foi uma sensação única que pensei que demoraria poucos segundos e fomos surpreendidos por um longo beijo. E o beijo quando somado ao abraço, invade a alma e o coração dispara feito uma bateria de ritmos descompassados, e o resultado são formas de expressão, como as bochechas vermelhas no rosto de Elizabeth e as minhas pernas trêmulas, resultando no que chamamos de paixão.
       - Elizabeth, eu nunca vou me esquecer daquele beijo. Do beijo que você me deu!

        “O mundo pode acabar amanhã que não vou me esquecer do beijo que você me deu! Existem momentos na vida que ficam gravados para sempre na alma e no coração. E isso se torna um combustível que nos permite forças para nunca desistir de caminharmos em busca da felicidade. E é por isso que nunca vou me esquecer do beijo que você me deu! Lembra? Mesmo quando as estrelas uma a uma estiverem se apagando não vou esquecer-me do beijo que você me deu. Se estiver velho e sem forças, quando meu coração insistir em parar de bater, vou recordar o beijo, daquele beijo, do beijo que você me deu. Para o caminho que eu seguir, pode ser que minha memória se apague. Em meus devaneios vou pedir ajuda de Deus para que não se apague a lembrança do beijo, do beijo que você me deu. E se a saudade for tanta, tamanha, que eu queira deixar de existir para esquecer-se do gosto do teu beijo, caminharei das mais distantes vilas, do fundo do mar, da última estrela do universo, do infinito, e vou pedir a Deus para nascer de novo, nem que seja por alguns minutos, e que eu possa te encontrar de novo e você me dar um beijo igual àquele que você me deu!”
TRECHO DO LIVRO