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21 de junho de 2016

LIVRO - ANTES QUE TERMINE O DIA

Quando acordei naquela manhã a chuva fina caía e embaçava a janela lateral do quarto de dormir. As folhagens das árvores tremulavam com o vento e a sensação de frio intenso fazia com que me precavesse e me agasalhasse bem antes de sair de casa. A cólica forte persistia e eu tinha acabado de resolver ir ao pronto atendimento do hospital que ficava bem próximo de casa. À medida que eu movimentava meu corpo as cólicas aumentavam e era com se estivessem espetando meu abdômen. Eu estava com medo, pois todas as tentativas de remédios que eu havia ingerido nos últimos três dias não havia feito efeito nenhum.
Quando descia pelo elevador até chegar à garagem, pensei em retornar para a minha cama, pois meu corpo não conseguia ficar em pé. Minha boca estava seca e eu não tinha apetite algum, só bebia água, muita água e com isso a todo o momento sentia vontade de urinar.
Os vizinhos que viram meu estado no elevador sentiram-me estranho, mas percebia que ficaram receosos de perguntarem se eu estava bem. Na verdade a minha vontade era de gritar, pedir socorro, dizer que eu estava passando muito mal e até chorar, se fosse preciso, mas o meu orgulho impedia isso.
O dia estava apenas começando e antes que terminasse o dia, sentia que viriam muitas consequências graves em função do meu estado de saúde. Coração não é, pressão arterial também não, os níveis de glicose estavam sob controle... Todas essas certezas me aliviavam, pois eu tinha como medi-las com os equipamentos que eu tinha na minha casa.
Quando entrei no carro e comecei a dirigir rumo ao pronto atendimento, a dor cessou.
Pensei em voltar para casa, mas eu já estava no meio do caminho e resolvi continuar. Ao chegar no pronto atendimento a fila para passar pela recepção estava imensa e já existiam muitas pessoas aguardando os médicos começarem as consultas. Pelo semblante das pessoas, todos estavam com dores e alguns gemiam. Eu estava realmente me sentindo muito mal, porém, não me senti no direito de pedir para passar na frente de todas aquelas pessoas e lembrei-me que eu tinha ainda um último remédio que até então eu não tinha usado: A oração.
Pedi a Deus que me livrasse daquela dor insuportável, que me mantivesse em pé para conseguir agendar a minha consulta, que não me fizesse desistir e voltar para casa sem ser atendido.
Pela fisionomia das pessoas e pelo tempo que eu podia ver pela janela da sala de recepção do hospital, estava fazendo muito frio. Ouvia alguém na fila atrás de mim dizendo que estava fazendo dois graus centígrados. Mesmo assim, eu não parava constantemente de passar a mão em meu rosto para enxugar o suor, provocado pela dor.
Após conseguir passar pela recepção, consegui a senha 204, e que significava, realmente, que existiam 203 pessoas na minha frente para serem atendidas. Não havia lugar para se sentar. Encostei meu corpo numa coluna da parede da sala para poder me escorar e evitar uma queda, que por duas vezes pareceu inevitável. Quando finalmente consegui um lugar para me sentar, senti uma vontade imensa de ir ao banheiro.
Pensei que talvez fosse um problema intestinal que indo no banheiro eu melhoraria. Quando voltei, percebi que meu lugar ainda estava reservado, mesmo tendo várias pessoas ainda em pé. Foi então, vendo uma senhora com expressão de dor, fiz com que ela pudesse sentar-se no meu lugar. Ao sentar-se, aquela senhora olhou em meus olhos e percebi e até senti que fez uma força enorme para sorrir, para agradecer, mas não consegui em função do seu estado de saúde e naquele momento eu até esqueci da minha própria dor.
As horas foram se passando e eu acabei me acostumando com a dor. Acreditei que Deus havia atendido as minhas preces e finalmente eu tinha um remédio que fizesse efeito.
Depois de um tempo consegui me sentar bem ao fundo da sala e pude comparar o meu sofrimento com o sofrimento das outras pessoas. Na verdade, não existe sofrimento menor ou maior entre as pessoas. Existe o sofrimento. Ao sofrer, as pessoas precisam ter um alívio. Esse alívio, algumas vezes pode ser até mesmo a morte.
- Obrigado senhor!
Uma jovem menina veio me agradecer e eu, aparentemente não havia percebido o motivo.
- Obrigado por ceder o seu lugar para a minha avó! Ela ainda está em estado grave e acabou de ser internada.
Em minhas orações, não havia pedido a Deus o "remédio" só para mim. Pedia a todos enfermos que se encontravam naquela sala de emergências médicas.
- Vou continuar rezando para que sua avó logo melhore! Disse eu a menina que se encaminhava para a saída da sala de emergências. Existiam ainda cerca de dez pessoas na minha frente. Meu suor havia cessado, eu passei a sentir muito frio, principalmente dos pés e nas mãos.
A dor havia amenizado ou então, definitivamente, eu havia me acostumado com ela, mas me sentia fraco, principalmente se tivesse que ficar em pé ou tivesse que me deslocar andando. Finalmente chegaria a minha vez de ser atendido. Quando contei o meu histórico de dor para o médico ele logo fez um pedido de exame ao laboratório do hospital. Na primeira impressão ele constatou, apertando meu abdômen, que não existia uma lesão ou que houvesse algum rompimento, mas eu insistia na dor que estava sentindo haviam três dias. Imediatamente ele prescreveu para que uma enfermeira aplicasse uma injeção para aliviar a dor. Depois de alguns minutos eu não estava mais sentindo dor e aguardava pelos resultados dos exames, antes que terminasse o dia. Só pelo fato de não estar mais sentindo dor alguma, mudei até meu estado de espírito, mas ainda fiquei preocupado e ansioso pelo resultado do exame.
Fui transferido para uma sala de repouso, olhei pela janela lateral e o dia já estava começando a escurecer. O frio intenso fazia com que eu me encolhesse na poltrona confortável na qual haviam me colocado. Quando o relógio da sala de repouso cravava dezenove horas, chegou uma enfermeira segurando um envelope com o resultado do meu exame:
- O senhor contraiu uma virose muito intensa e que o seu organismo não conseguiu dissipá-la com os remédios tradicionais que foram ministrados. A injeção que o senhor tomou serviu apenas para aliviar as fortes dores que vinha sentindo e que as mesmas devem ser repetidas as doses por mais setenta e duas horas. Além disso, o senhor deve seguir a receita indicada pelo médico e tomar esse remédio a partir de hoje às vinte e três horas, seguindo as doses de oito em oito horas.
Sai do pronto atendimento mais aliviado e sem dor. Já se passavam das vinte horas e eu tinha que encontrar uma farmácia para tomar uma nova injeção para a dor não voltar e comprar o remédio que teria de tomar de oito em oito horas.
O frio parecia que tinha tirado todas as pessoas das ruas e o meu bairro estava mais parecendo uma cidade fantasma. Encostei o carro numa grande farmácia e por minha infelicidade não encontrei os remédios que tinha de comprar. Foi me sugerido então que caminhasse até outra farmácia que ficava a três quadras de onde eu estava. Resolvi deixar o carro onde estava e seguir a pé. No trajeto, passei em várias ruas em que não havia luz adequada. Eram lugares ermos. Num determinado recuo, mas bem próximo da calçada, ouvi um gemido. Virei-me na direção de onde vinha a queixa.
Era um homem enrolado num cobertor rasgado e sujo. Aproximei-me do homem de cabelos brancos, bem magro e todo sujo. Perguntei se ele estava com fome e ele me respondeu imediatamente que havia muito tempo que não sentia mais fome, mas que estava congelando de tanto frio.
Naquele instante fiquei sem reação momentânea, pois as situações estavam acontecendo muito rapidamente. Mas num ato em que não precisei raciocinar muito, tirei o paletó de lã que eu estava vestindo e cobri o homem. Mesmo assim, achei que não seria suficiente para que se aquecesse adequadamente, quando resolvi chamar a polícia para que aquele homem fosse encaminhado a um abrigo e fosse adequadamente atendido. A polícia não demorou a chegar. O tenente me comentou que já haviam recolhido várias vezes aquele homem ao abrigo, mas que sempre, no dia seguinte, ele como tantos outros voltavam para a rua novamente e que as autoridades não podiam obriga-los a ficar no abrigo. Mas, de qualquer forma, para a minha consciência, aquele homem não iria morrer de frio naquela noite. Ao voltar, a farmácia em que eu iria comprar meus remédios, como todas as outras, estavam fechadas. Voltei ao carro e retornei para minha casa. Pensei que no dia seguinte, bem cedo, eu poderia me levantar e comprar os remédios.
Quando cheguei em casa, tomei um banho bem quente, me agasalhei adequadamente e me deitei. O dia estava terminando quando me lembrei que o médico havia pedido para eu tomar a injeção e o remédio às vinte e três horas. Mas, já passavam das vinte e três horas, as farmácias estavam fechadas, eu já havia decidido que iria esperar amanhecer o dia para voltar à farmácia, mas eu não estava contando naquele momento que as dores iriam voltar como realmente voltaram e para piorar ainda mais a situação, lembrei-me que a receita com o nome genérico tanto do remédio, como da injeção, tinham ficado no bolso do paletó que havia doado ao mendigo.
Vivi mais uma noite de intensas dores. Fiquei com medo de voltar ao hospital e ainda levar uma tremenda bronca do médico por não seguir a risca as suas determinações. Pensei em procurar a enfermeira que havia me entregado o resultado dos exames e a receita, e assim me dirigi novamente ao pronto atendimento. No caminho, resolvi antes passar na primeira farmácia em que na noite anterior eu havia procurado os remédios. Na certa, se o mesmo farmacêutico estivesse lá, ele iria lembrar dos medicamentos que eu precisava.
- Ei você!
Alguém me chamou na rua.
Virei-me para o mesmo beco da noite anterior e me deparei com o mesmo senhor, mendigo, de cabelos brancos, vestindo meu ex-paletó de lã e bebendo um líquido branco que pela expressão facial que ele fazia, não parecia ser água:
- Toma aqui a sua "carta"! Estava no bolso do paletó de lã que você me deu ontem a noite!
Imediatamente comprei o remédio e recebi a aplicação da injeção, que me aliviou as dores e que depois de três dias fiquei totalmente curado. Quando sai da farmácia tive a disposição de questionar o mendigo do porque ele não havia ficado no abrigo, afinal, no abrigo ele dormiria numa cama, poderia tomar banho, cortar o cabelo, fazer a barba, ganharia roupas novas e remédios se necessário. Mas por que os indigentes não ficam nos abrigos mesmo no inverno? Mas, ao passar por ele, percebi que estava dormindo, vestido com meu paletó de lã e enrolado na mesma manta suja e surrada da noite anterior. Ao seu lado, dormia um cachorrinho, encolhido e enrolado num pedaço da manta surrada. Cheguei bem perto deles e pude perceber que dormiam sorrindo ele e o cachorro, isso mesmo, como se fossem pai e filho, irmãos ou amigos, juntos com o mesmo propósito de se livrarem do frio. Naquele instante eu também sorri.
Talvez no abrigo o homem não pudesse ter a mesma liberdade que tanto procurava, talvez não pudesse dormir ao lado de seu grande amigo... Talvez não pudesse sorrir da mesma maneira que eu estava sorrindo por ter me livrado da dor.
Nas semanas seguintes passei diariamente no local onde o homem e seu cachorro ficavam e sempre deixava algo que pudesse fazer com que se alimentassem, até que um dia não os vi mais naquele local, nunca mais.
TRECHO DE UM DOS CAPÍTULOS DO LIVRO

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