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8 de julho de 2016

LIVRO - BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS



CAPÍTULO 03: QUANDO EU NÃO ESTIVER MAIS AQUI


A morte sempre vem sem avisar. Até mesmo os doentes terminais não esperam morrer hoje. Talvez em uma semana, um mês, um ano, mas não agora. Não hoje. José me confidenciou que a morte de seu pai foi inesperada. Ele se foi aos trinta e seis anos. O câncer não escolhe as suas vítimas. Ele morreu quando José tinha apenas sete anos, o suficiente para que sentisse saudade por toda sua vida. Se ele tivesse morrido antes, talvez José não tivesse lembranças e não sentiria nenhuma dor, mas, ao mesmo tempo, talvez José não pudesse dizer que teve um pai. Se ele não tivesse morrido, teria feito José rir com as suas piadas e teria beijado-o no rosto antes de dormir. Talvez tivesse obrigado a ser fanático pelo seu time de futebol, e teria explicado algumas coisas de um jeito que nem sua mãe conseguiu.

       O pai de José nunca lhe disse que morreria tão cedo. Até mesmo quando estava na cama do hospital, cheio de tubos enfiados no corpo, ele não disse uma palavra sequer. Continuava fazendo planos para o próximo ano, mesmo sabendo que ele já não estaria entre nós no próximo mês. No ano seguinte, dizia que iria pescar com José, viajar e conhecer lugares novos. O próximo ano seria maravilhoso. Esse era o sonho do pai de José.

       Acho que ele pensava que tudo isso lhe daria sorte. Fazer planos para o futuro era a sua forma de manter a esperança, esquecer-se da doença. O pai de José sabia muito bem o que lhe aconteceria, mas, mesmo assim, nunca me disse nada. Ele não queria ver José chorando.

       Um dia a mãe de José foi buscá-lo na escola e foram direto para o hospital. O médico deu a notícia com toda a delicadeza do mundo. A mãe de José começou a chorar porque ela ainda tinha uma pequena, uma remota esperança. José ficou em choque:

       - O que isso queria dizer? Os médicos não curam tudo? Fui traído. José gritou de raiva. Até que entendeu que seu pai não estava mais entre nós. E começou a chorar novamente.

Mas aí, uma coisa aconteceu. Uma enfermeira veio até José com uma caixa debaixo do braço. A caixa estava cheia de envelopes com frases, ao invés de endereços. A enfermeira entregou apenas uma das cartas para José.

       - Seu pai pediu para eu te dar essa caixa. Disse a enfermeira para José.

       - Meu pai? Questionou José.

       - Ele ficou a semana inteira escrevendo estas cartas e queria que, hoje, você lesse a primeira delas. Seja forte.

       No envelope estava escrito:

       “Quando eu não estiver mais aqui”:

       Filho, se você está lendo esta carta, significa que eu estou morto. Sinto muito, eu sabia que isso iria acontecer. Não queria te falar, não queria que você chorasse. A decisão de não contar foi minha. Acho que a pessoa que está perto da morte tem o direito de ser um pouco egoísta. Eu ainda tenho muito para te ensinar. Você ainda não sabe quase nada. Por isso que eu escrevi estas cartas. Não abra até que chegue o momento indicado, certo? Esse é o nosso acordo. Te amo. Cuida da mamãe. Agora você é o homem da casa. Com amor, papai. Não escrevi cartas para a mamãe, para ela eu deixei o carro.

       A carta tranquilizou José e o fez sorrir. Seu pai conseguiu fazer uma coisa super original. Essa pequena caixa se transformou no objeto mais importante do mundo para José.

       José disse a sua mãe que ela não poderia abrir a caixa. As cartas eram para o filho e ninguém mais deveria ler. José decorou tudo que estava escrito nos envelopes. A única coisa que tinha que fazer era esperar o momento de cada uma das cartas, até que José se esqueceu delas.

       Sete anos depois José e sua mãe se mudaram para outra casa e José não tinha ideia de onde havia deixado a caixa com as cartas.

       - Esqueci.

       Até que uma coisa aconteceu. A mãe de José não se casou de novo. Não sei por que, talvez ela quisesse pensar que o marido foi o amor da sua vida. Durante um período ela teve um namorado que não prestava. Para José, ela se rebaixava ao sair com alguém como ele. Ele não a respeitava. Ela merecia coisa melhor que um homem que conheceu num bar.

       José nunca se esqueceu do tapa que sua mãe lhe deu quando disse a palavra “bar”. Mas reconheceu:

       - Eu mereci.

       Ainda com a pele do rosto ardendo do tapa, José lembrou-se da caixa com as cartas e de um envelope em especial, onde estava escrito:

       “Quando você tiver a briga mais feia com a sua mãe”.

José entrou procurou em cada canto do seu quarto e encontrou a caixa dentro de uma mala que estava no alto do armário. Viu os envelopes e percebeu que se esqueceu de abrir a carta que dizia: “Quando você der seu primeiro beijo”. Se odiou por isso e decidiu abri-la depois. Ao final, encontrou a carta que procurava e que no envelope estava escrito: “Quando você tiver a briga mais feia com a sua mãe”:



       - Vá até ela e peça desculpas.

       Não sei qual a razão da briga, e não sei quem tem razão, mas eu conheço muito bem a sua mãe. Vá até ela, é o melhor que você pode fazer. Ela é sua mãe, te ama mais do que qualquer coisa no mundo. Você sabia que você nasceu de parto normal porque alguém disse que isso seria melhor para você? Você alguma vez viu como uma mulher dá a luz? Você precisa de outra prova de amor? Peça perdão. Ela vai te perdoar. Te amo, teu pai.

       O pai de José não era um grande escritor, era um simples funcionário de um banco, mas as suas palavras sempre lhe influenciaram muito. Eram palavras sábias, ainda mais para um adolescente de quatorze, como José. José, chorando muito, se dirigiu rapidamente ao quarto de sua mãe. A mãe se virou e olhou para José. Ela lhe abraçou e ficaram ali parados, em silêncio. Fizeram as pazes e conversaram um pouco sobre o assunto. Era como se o pai de José estivesse ali, sentado com eles. A mãe, José e uma parte de seu pai, uma parte que ele tinha deixado a eles numa folha de papel.

       Passou algum tempo até a próxima carta:

       “Quando você perder a virgindade”:

       - Parabéns, filho! Não se preocupe, com o tempo sempre melhora. A primeira vez dá medo. Minha primeira vez foi com uma mulher muito feia e que, além disso, era uma prostituta. Meu maior medo era que você perguntasse para a sua mãe o que é a virgindade ao ler essa palavra sobre este envelope.

Com amor, papai.

       José me dizia que seu pai esteve com ele durante toda sua vida. Não importava que tivesse morrido há muito tempo. Suas palavras fizeram o que ninguém mais conseguiu: Deram a José força para superar as muitas dificuldades da vida. Ele sempre soube como fazer José sorrir quando, em volta, tudo parecia um pesadelo. Ele lhe trouxe paz em momentos de raiva.

       A carta “Quando você se casar” intrigou muito a José. Mas não tanto como a que dizia: “Quando você for pai”.

       - Agora você entende o que é o amor verdadeiro, filho.

O amor verdadeiro é isso que você sente por essa pequena criatura que está ao seu lado. Não sei se é um menino ou uma menina. Então... Aproveite! O tempo começa a passar cada vez mais rápido. Acompanhe tudo de perto.

       Não deixe passar os momentos importantes porque eles não voltam. Troque fraldas, dê banhos, seja um exemplo a seguir. Acho que você tem tudo para ser um bom pai, como eu fui.

       Essa foi a carta mais difícil que José leu em toda sua vida e também a mais curta, foi do seu pai. José teve certeza que, quando seu pai escreveu essas quatro palavras, ele estava sofrendo o mesmo que José. Demorou, mas finalmente José abriu o envelope:

       “Quando a sua mãe morrer”:

       - Agora ela é minha. Que curioso!... Foi a única carta que não me fez sorrir. Sempre cumpri a minha promessa, por isso nunca li as cartas antes do tempo. Bom, a exceção foi com a carta ’Se você perceber que é gay’. O que eu posso te falar? Ainda bem que estou morto! Brincadeiras à parte, um pouco antes de morrer eu entendi que nos preocupamos com coisas que não têm importância. Você acha que isso muda alguma coisa, filho? Não seja bobo. Seja feliz!

       - José sempre esperou com ansiedade o momento seguinte, a próxima carta, outra lição de seu pai. É incrível o que um homem de trinta e seis anos pode ensinar a um velho como eu, de oitenta e cinco:

       - Agora, deitado numa cama de hospital, com tubos no nariz e na garganta por causa deste maldito câncer, toco suavemente com os dedos o papel descolorido da última carta que ainda não foi aberta. Na minha frente, a frase:

       “Quando chegar a sua hora”.

       - Não quero abrir. Tenho medo. Não quero pensar que a minha hora está próxima. Ninguém pensa que vai morrer um dia.

Respiro fundo e abro o envelope:

       - Oi, meu filho. Espero que você esteja bem velho.

Sabia que essa foi a primeira carta que eu escrevi? Foi a mais difícil de todas. É uma carta que me livrou da dor que foi te perder. Acho que a nossa mente acorda quando sente que o fim está perto. Estes últimos dias pensei muito na minha vida. Foi curta, mas muito feliz. Fui o seu pai e o marido da sua mãe. O que mais eu poderia pedir? Isso me traz uma paz enorme. Agora, faça você o mesmo. Meu único conselho: Não tenha medo.

P.S: Tenho muita saudade...

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