16 julho 2016

LIVRO - ALGUMAS CARTAS - ANTOLOGIA III

AS ROSAS SOBRE A MESA NÃO VIVEM MAIS:
A porta estava entreaberta e do meu lado eu podia a ver olhando para uma imagem de Jesus Cristo no alto da parede. Seria bom se tivéssemos a bênção de Deus, tentamos várias vezes, mas caminhamos, infelizmente, em lados opostos, não compartilhamos do mesmo pensamento e nossas atitudes intempestivas contribuíram para tantas brigas e em cada briga uma desilusão, rancor, fazendo com que as mágoas habitassem de vez nossos corações. Para que vamos lutar para nos unir novamente se a cada manhã ou ate mesmo antes do sol nascer estamos em discórdia novamente? Vamos terminar por aqui para que a mágoa não vire definitivamente rancor. Muitas vezes parei para pensar porque chegamos numa situação como a que estamos vivenciando neste cenário de guerra, onde a discórdia prevalece sobre a compreensão e não existe razão em nossas atitudes e pensamos. Tentei voltar no tempo e retomar do momento em que fomos felizes, mas a máquina do tempo enguiçou e eu não consegui chegar, talvez por tantas pedras que encontrei no caminho, umas atiradas por você, outras por mim... Talvez porque você não estivesse lá quando eu chegasse e eu ficaria na dúvida se seria bom ou ruim. A minha vida nunca foi um mar de rosas, mas naveguei na felicidade quando te busquei no fundo do mar e te ergui como um troféu, quando submergi e fui até os céus de alegrias e contentamento. Apesar dos espinhos, não me sangrei, pois existia amor em nossas atitudes – Existia. E os nossos corações eram metade amor, metade paixão, que nenhuma força, mesmo as sobrenaturais, podia destruir. Era isso que se podia ler nos olhos de um casal, pronto a irem cada um para seu lado, cada um para seu destino incerto, pois de tantas voltas, agora sabiam que o amor não é eterno. Olhando para os discos, os livros sobre a estante empoeirada, vinha em minha mente momentos em que consegui entender e sentir o que é um amor de verdade. Talvez fosse melhor não termos declarado juras de amor, talvez não devesse ter nos amado tanto, tanto... Talvez, pois ao percebermos que nos enganamos, que fomos enganados por um mal súbito de nossos corações, a dor se tornou maior, como um punhal de toledo fincado em nossas costas largas, mesmo depois de uma longa noite de amor.
       Assim como o amor veio, se foi. Se foi muito mais rápido, deixando rastros, deixando uma porta entreaberta entre nós, dividindo o certo e o errado, o justo e o injusto... A dor. Já pensamos uma vez achar que tudo foi um sonho, uma fantasia, mas que tivesse um final feliz, como nos filmes de amor que assistimos tanto, nos despedindo com um sorriso ou um aperto de mão, ao invés de ficarmos cada um em seu mundo, separados por uma porta a bater a qualquer momento de um lado ou de outro, de tanta ira que irradiava nosso ambiente. Quando te conheci estava vivendo o melhor momento da minha vida. Você chegou como uma luz a iluminar ainda mais o meu caminho. Foi amor à primeira vista, como nos filmes das matinês quando éramos crianças. Perguntei a mim mesmo o que era o amor que estava sentindo naquele momento e a resposta eu obtive no teu olhar, na tua boca e no gosto do beijo que você me deu, de repente, sem eu esperar, fazendo com que minhas pernas tremessem, sem ser de medo, pela primeira vez.
       Foi então que passei a entender verdadeiramente o que significava a saudade, quando você estava longe de mim. Ficar sem sentir teu cheiro e imaginá-lo, não era a mesma coisa e foi por isso que nossos encontros e reencontros foram sempre apimentados, calientes... E tínhamos a necessidade de nos abraçarmos como se cada abraço fosse o ultimo, como se cada beijo fosse o ultimo e como se nunca mais fossemos nos encontrar. Tudo aconteceu como se fosse um conto de fadas, como se a vida fosse perfeita, como se não existisse tristezas, apenas felicidades, mas chegou uma hora que a história teve que terminar. Eu fiz de tudo para que fosse um final feliz, mas também errei, também cometi os meus pecados e se estamos separados e incomunicáveis dentro de nossa própria casa, eu e você temos culpas. Eu acredito que nos precipitamos quando resolvemos viver juntos antecipadamente, tínhamos que conhecer melhor a vida. Não tínhamos como aproveitar a vida plenamente e isso aguçou o nosso sentido de liberdade. Olhar para você além da porta entreaberta pode significar o meu desespero da separação, mas assim pode ser melhor. Não podíamos continuar como se fossemos estranhos num mesmo ambiente em que as rosas sobre a mesa sempre foram o sinal de afeto e ternura, que não existe mais entre nós. Quem sabe, até resolvermos nossa situação você possa fazer a sua mea culpa. Eu já fiz a minha e já lhe disse que errei bastante, mas se formos realmente remoer o passado, fazer nosso próprio julgamento, seremos condenados e nossos corações ficarão presos, amarrados, sangrando por raiva e descontentamento e é por isso que devemos terminar a jornada neste momento, para que as feridas não se tornem gangrenas e definitivamente parem de sangrar. As rosas sobre a mesa sempre estiveram vivas, montadas e arranjadas num jarro com água na sala de estar sobre a mesa de jantar. Suas cores simbolizaram os momentos em que vivemos e a paixão vermelho que se aflorou num longo tempo em que convivemos.
       Olhando-te nesta pequena distância que agora nos separa, posso até dizer que os momentos por nós vividos poderiam ser um combustível para a reconciliação, mas, na boa... Não dá. As brigas provocaram feridas que machucaram nossos corações e as cicatrizes não formaram eficazes para curarem os buracos deixados em nossas almas. Queria me despedir de você de uma maneira menos cruel, mais suave, sem rastros de desavenças nem olhares de rancor, mas não dá, pois temos as mesmas armas, as mesmas pedras nas mãos que depois de lançadas, não voltaram mais e ficaram sem efeito os pedidos de perdão. Aprendi que quando se tem uma desavença, o melhor que temos a fazer e deixar a tempestade passar, para depois recolher os cacos, reparar os estragos que provocou. Não adianta tentar hipnotizar as mágoas com os olhos vermelhos, cheios de ódio que o amor provocou. Não devemos tentar novamente. Temos que terminar e que possamos fazer com que a raiva passe mais depressa e possamos seguir caminhos de vias contrárias, para que não possamos mais nos trombar na estrada da desilusão, ainda mais que, em todas as tempestades, a maior disputa sempre foi para ver quem vai segurar o timão do navio que já estava a muito tempo naufragado.
       Então, o melhor a fazer agora é ignorar os insultos, pois o oposto do amor não é o ódio e sim a indiferença... Portanto, os discos e os livros você não levará com você.
       - Não vão lhe fazer falta.
Pra onde você for não leve nenhum objeto que possa fazer lembrar algum momento vivido entre nós, pois a situação exige que se apague qualquer sinal que um dia nos uniu.
       Da cabeceira da cama pode tirar o teu retrato, não vou querer recordar é não vai me fazer falta. Ao passar pela ultima vez no jardim que um dia brotaram rosas coloridas, não deixe rastros sem saídas, não pise fundo nas terras negras, pois vem de lá toda a inspiração para meus versos e minha vida. Tome muito cuidado com os buracos que você mesma deixou para que eu pudesse cair em suas armadilhas. Ao sair de casa, não derrube o que estiver pela frente, não destrua o que já está destruído e nem bata a porta com a força da sua indignação, pois eu não quero ver a tua ira. Passando pela sala de estar junto à mesa de jantar, não se esqueça de recolher as rosas sobre a mesa... Elas não vivem mais... Ficaram murchas, [cresceram-se em espinhos], secaram com o tempo, morreram como o amor que um dia eu e você pensamos ter existido.
TRECHO DO LIVRO

08 julho 2016

LIVRO - BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS



CAPÍTULO 03: QUANDO EU NÃO ESTIVER MAIS AQUI


A morte sempre vem sem avisar. Até mesmo os doentes terminais não esperam morrer hoje. Talvez em uma semana, um mês, um ano, mas não agora. Não hoje. José me confidenciou que a morte de seu pai foi inesperada. Ele se foi aos trinta e seis anos. O câncer não escolhe as suas vítimas. Ele morreu quando José tinha apenas sete anos, o suficiente para que sentisse saudade por toda sua vida. Se ele tivesse morrido antes, talvez José não tivesse lembranças e não sentiria nenhuma dor, mas, ao mesmo tempo, talvez José não pudesse dizer que teve um pai. Se ele não tivesse morrido, teria feito José rir com as suas piadas e teria beijado-o no rosto antes de dormir. Talvez tivesse obrigado a ser fanático pelo seu time de futebol, e teria explicado algumas coisas de um jeito que nem sua mãe conseguiu.

       O pai de José nunca lhe disse que morreria tão cedo. Até mesmo quando estava na cama do hospital, cheio de tubos enfiados no corpo, ele não disse uma palavra sequer. Continuava fazendo planos para o próximo ano, mesmo sabendo que ele já não estaria entre nós no próximo mês. No ano seguinte, dizia que iria pescar com José, viajar e conhecer lugares novos. O próximo ano seria maravilhoso. Esse era o sonho do pai de José.

       Acho que ele pensava que tudo isso lhe daria sorte. Fazer planos para o futuro era a sua forma de manter a esperança, esquecer-se da doença. O pai de José sabia muito bem o que lhe aconteceria, mas, mesmo assim, nunca me disse nada. Ele não queria ver José chorando.

       Um dia a mãe de José foi buscá-lo na escola e foram direto para o hospital. O médico deu a notícia com toda a delicadeza do mundo. A mãe de José começou a chorar porque ela ainda tinha uma pequena, uma remota esperança. José ficou em choque:

       - O que isso queria dizer? Os médicos não curam tudo? Fui traído. José gritou de raiva. Até que entendeu que seu pai não estava mais entre nós. E começou a chorar novamente.

Mas aí, uma coisa aconteceu. Uma enfermeira veio até José com uma caixa debaixo do braço. A caixa estava cheia de envelopes com frases, ao invés de endereços. A enfermeira entregou apenas uma das cartas para José.

       - Seu pai pediu para eu te dar essa caixa. Disse a enfermeira para José.

       - Meu pai? Questionou José.

       - Ele ficou a semana inteira escrevendo estas cartas e queria que, hoje, você lesse a primeira delas. Seja forte.

       No envelope estava escrito:

       “Quando eu não estiver mais aqui”:

       Filho, se você está lendo esta carta, significa que eu estou morto. Sinto muito, eu sabia que isso iria acontecer. Não queria te falar, não queria que você chorasse. A decisão de não contar foi minha. Acho que a pessoa que está perto da morte tem o direito de ser um pouco egoísta. Eu ainda tenho muito para te ensinar. Você ainda não sabe quase nada. Por isso que eu escrevi estas cartas. Não abra até que chegue o momento indicado, certo? Esse é o nosso acordo. Te amo. Cuida da mamãe. Agora você é o homem da casa. Com amor, papai. Não escrevi cartas para a mamãe, para ela eu deixei o carro.

       A carta tranquilizou José e o fez sorrir. Seu pai conseguiu fazer uma coisa super original. Essa pequena caixa se transformou no objeto mais importante do mundo para José.

       José disse a sua mãe que ela não poderia abrir a caixa. As cartas eram para o filho e ninguém mais deveria ler. José decorou tudo que estava escrito nos envelopes. A única coisa que tinha que fazer era esperar o momento de cada uma das cartas, até que José se esqueceu delas.

       Sete anos depois José e sua mãe se mudaram para outra casa e José não tinha ideia de onde havia deixado a caixa com as cartas.

       - Esqueci.

       Até que uma coisa aconteceu. A mãe de José não se casou de novo. Não sei por que, talvez ela quisesse pensar que o marido foi o amor da sua vida. Durante um período ela teve um namorado que não prestava. Para José, ela se rebaixava ao sair com alguém como ele. Ele não a respeitava. Ela merecia coisa melhor que um homem que conheceu num bar.

       José nunca se esqueceu do tapa que sua mãe lhe deu quando disse a palavra “bar”. Mas reconheceu:

       - Eu mereci.

       Ainda com a pele do rosto ardendo do tapa, José lembrou-se da caixa com as cartas e de um envelope em especial, onde estava escrito:

       “Quando você tiver a briga mais feia com a sua mãe”.

José entrou procurou em cada canto do seu quarto e encontrou a caixa dentro de uma mala que estava no alto do armário. Viu os envelopes e percebeu que se esqueceu de abrir a carta que dizia: “Quando você der seu primeiro beijo”. Se odiou por isso e decidiu abri-la depois. Ao final, encontrou a carta que procurava e que no envelope estava escrito: “Quando você tiver a briga mais feia com a sua mãe”:



       - Vá até ela e peça desculpas.

       Não sei qual a razão da briga, e não sei quem tem razão, mas eu conheço muito bem a sua mãe. Vá até ela, é o melhor que você pode fazer. Ela é sua mãe, te ama mais do que qualquer coisa no mundo. Você sabia que você nasceu de parto normal porque alguém disse que isso seria melhor para você? Você alguma vez viu como uma mulher dá a luz? Você precisa de outra prova de amor? Peça perdão. Ela vai te perdoar. Te amo, teu pai.

       O pai de José não era um grande escritor, era um simples funcionário de um banco, mas as suas palavras sempre lhe influenciaram muito. Eram palavras sábias, ainda mais para um adolescente de quatorze, como José. José, chorando muito, se dirigiu rapidamente ao quarto de sua mãe. A mãe se virou e olhou para José. Ela lhe abraçou e ficaram ali parados, em silêncio. Fizeram as pazes e conversaram um pouco sobre o assunto. Era como se o pai de José estivesse ali, sentado com eles. A mãe, José e uma parte de seu pai, uma parte que ele tinha deixado a eles numa folha de papel.

       Passou algum tempo até a próxima carta:

       “Quando você perder a virgindade”:

       - Parabéns, filho! Não se preocupe, com o tempo sempre melhora. A primeira vez dá medo. Minha primeira vez foi com uma mulher muito feia e que, além disso, era uma prostituta. Meu maior medo era que você perguntasse para a sua mãe o que é a virgindade ao ler essa palavra sobre este envelope.

Com amor, papai.

       José me dizia que seu pai esteve com ele durante toda sua vida. Não importava que tivesse morrido há muito tempo. Suas palavras fizeram o que ninguém mais conseguiu: Deram a José força para superar as muitas dificuldades da vida. Ele sempre soube como fazer José sorrir quando, em volta, tudo parecia um pesadelo. Ele lhe trouxe paz em momentos de raiva.

       A carta “Quando você se casar” intrigou muito a José. Mas não tanto como a que dizia: “Quando você for pai”.

       - Agora você entende o que é o amor verdadeiro, filho.

O amor verdadeiro é isso que você sente por essa pequena criatura que está ao seu lado. Não sei se é um menino ou uma menina. Então... Aproveite! O tempo começa a passar cada vez mais rápido. Acompanhe tudo de perto.

       Não deixe passar os momentos importantes porque eles não voltam. Troque fraldas, dê banhos, seja um exemplo a seguir. Acho que você tem tudo para ser um bom pai, como eu fui.

       Essa foi a carta mais difícil que José leu em toda sua vida e também a mais curta, foi do seu pai. José teve certeza que, quando seu pai escreveu essas quatro palavras, ele estava sofrendo o mesmo que José. Demorou, mas finalmente José abriu o envelope:

       “Quando a sua mãe morrer”:

       - Agora ela é minha. Que curioso!... Foi a única carta que não me fez sorrir. Sempre cumpri a minha promessa, por isso nunca li as cartas antes do tempo. Bom, a exceção foi com a carta ’Se você perceber que é gay’. O que eu posso te falar? Ainda bem que estou morto! Brincadeiras à parte, um pouco antes de morrer eu entendi que nos preocupamos com coisas que não têm importância. Você acha que isso muda alguma coisa, filho? Não seja bobo. Seja feliz!

       - José sempre esperou com ansiedade o momento seguinte, a próxima carta, outra lição de seu pai. É incrível o que um homem de trinta e seis anos pode ensinar a um velho como eu, de oitenta e cinco:

       - Agora, deitado numa cama de hospital, com tubos no nariz e na garganta por causa deste maldito câncer, toco suavemente com os dedos o papel descolorido da última carta que ainda não foi aberta. Na minha frente, a frase:

       “Quando chegar a sua hora”.

       - Não quero abrir. Tenho medo. Não quero pensar que a minha hora está próxima. Ninguém pensa que vai morrer um dia.

Respiro fundo e abro o envelope:

       - Oi, meu filho. Espero que você esteja bem velho.

Sabia que essa foi a primeira carta que eu escrevi? Foi a mais difícil de todas. É uma carta que me livrou da dor que foi te perder. Acho que a nossa mente acorda quando sente que o fim está perto. Estes últimos dias pensei muito na minha vida. Foi curta, mas muito feliz. Fui o seu pai e o marido da sua mãe. O que mais eu poderia pedir? Isso me traz uma paz enorme. Agora, faça você o mesmo. Meu único conselho: Não tenha medo.

P.S: Tenho muita saudade...

02 julho 2016

LIVRO - O JARDIM SECRETO



O JARDIM SECRETO
       Ao acordar naquela manhã me vi diante do espelho com a barba por fazer. Num flash, fui e voltei ao me ver no reflexo do espero:
       - Era meu pai!
       Eu estava com a cara do meu pai.
       Até as pintas no rosto, o olhar…
       - Era meu pai!
       Meu pai havia falecido fazia mais de vinte anos, mas para sempre estará na minha mente e no meu coração. De barba feita, cara lavada, terno engomado, me dirigi para a garagem do prédio onde morava. O próximo passo seria encarar o trânsito até o escritório, onde me aguardavam os muitos problemas a resolver. O dia estava muito quente e me senti com uma dor de cabeça no mesmo momento em que lembrei-me que não tinha tomado o remédio. Talvez a dor de cabeça fosse pelo fato de não ter comido nem bebido nada no café da manhã, ou eu poderia estar com a pressão arterial alta, por não ter tomado o remédio.
       De qualquer forma, existia um problema que se tornaria maior quando alguém bateu na traseira do meu carro. Desci afoito e nervoso, o que naquele momento só iria me prejudicar. No carro detrás, tinha uma linda mulher, mas cego de raiva, não a enxerguei e soltei um palavrão. Logo, percebi que não seria possível arrumar a solução para um erro cometendo outro, e pedi desculpas para a linda mulher, mesmo estando errada. Resolvido aquele problema, cheguei no escritório e os outros “problemas” estavam exaltados, tanto que nem foi possível entrar em minha sala, pois os problemas estavam logo na recepção.
      Aquele dia foi tenso. Nem saí para almoçar. Na parte da tarde a dor de cabeça aumentou de intensidade aliada a dor de estomago. Eu havia associado às dores pela falta do remédio que deixei de tomar pela manhã e pelo fato de não poder ter ido almoçar. Estava sem apetite, com a boca seca e bebendo muita água.
      O problema pareceu ter sido agravado, pois comecei a sentir dores no peito, como se alguém estivesse espetando agulhas no meu peito.
      - O Senhor está se sentindo bem, Doutor Marques?
      - Sim Senhorita Débora! Acredito que sim!
A Senhorita Débora, recepcionista do escritório, foi a única pessoa que me viu fazendo caretas em função das dores.      Achei que voltando para casa, poderia tomar o remédio, me alimentar e descansar daquele dia tenso e por conseguinte, me curar das dores.
      Na volta para casa, no final da tarde, o trânsito estava igualmente intenso, como pela manhã. Lembrei-me que sempre deixava alguns comprimidos no porta luvas, mas da ultima vez que o carro tinha passado pelo lava rápido, alguém tirou e não recolocou. Eu tinha que voltar para casa logo, pois as dores estavam mais forte e o trânsito estava intenso, quando comecei a me desesperar. Parei num posto para comprar água, pois a minha sede estava excessiva. Havia um carro de polícia estacionado no posto quando pensei em pedir socorro.
       Até cheguei a fazer um sinal, de longe, mas depois que bebi a água me pareceu haver uma melhora e resolvi seguir para casa. Num relance, olhando para o retrovisor interno do carro, pareceu-me ver meu pai. Minha visão estava prejudicada e meu ângulo de visão estava diferente, torto, embaçado. Eu deveria mesmo estar muito parecido com meu pai, pois a imagem que vi no retrovisor interno era muito parecida com ele, ou comigo... O problema é que percebi um sorriso e eu estava na eminência de um choro, pois as dores voltaram a ser muito forte. Nunca imaginei que demoraria tanto para chegar em casa:
       - Não chego nunca em casa! Comentei com uma pessoa, num carro ao meu lado, parados no trânsito.
       - Essa cidade está cada vez mais tumultuada em função desse trânsito maluco!  Respondeu a pessoa ao lado.
       O jeito foi rezar. Sem socorro, sem remédio, só me restou rezar. Chamei pelo meu pai numa oração que acabara de fazer e novamente o vi no reflexo do espelho retrovisor interno do carro, e foi como se o meu pai estivesse me dizendo:
       - Vá logo a um hospital! Não venha agora ao “Jardim Secreto
Jardim Secreto! De onde minha imaginação tirou isso?
Se eu pegasse a próxima rua à direita, estaria bem próximo de um hospital, ou, se eu continuasse em frente, estaria bem próximo de minha casa.
       - Resolvi seguir para minha casa.
Olhei para o retrovisor interno e foi como se meu pai estivesse me repreendendo, dizendo:
       - Moleque teimoso!
E quando estava a poucos metros da minha casa, a dor no peito foi mais intensa e associei às dores de cabeça, de estomago, sede, estresse, a uma única palavra, ou melhor, a um fato que estava acontecendo naquele instante:
       - Infarto.
       Eu poderia estar tendo um infarto ao volante. Chamei por meu pai num grito e não o achei no retrovisor interno do carro, mas virei minha visão ao banco detrás do carro e vi lado a lado meu pai e minha mãe.
       Eles estavam com cara de poucos amigos, como se estivessem me dando a maior bronca. Eu gritei, por eles e pedi ajuda:
       - Pai, Mãe, eu não quero morrer!
       Eles viravam a cabeça e entendi que pediram que eu fizesse o retorno e fosse para o hospital:
       -Pai, Mãe, me ajudem! Peçam a Nossa Senhora para interceder!
       Minha mãe era muito religiosa. Lembro que quando eu e meus irmãos éramos pequenos, ela sempre rezada e a gente melhorava.
       A dor estava muito forte, minha visão prejudicada, mas eu consegui ver meu pai e minha mãe no banco detrás do carro, pedindo para que eu fosse para o hospital:
       - Não vai dar tempo mãe, não estou aguentando!
       Mãe, ô mãe, Pai! Me ajudem por favor! Eu não quero morrer.
       Um silêncio absurdo se identificou.
       Eu não ouvia mais nada, nem o barulho das buzinas dos carros pedindo para eu sair da frente, pois estava dirigindo bem devagar. E ao passar por um túnel, tudo se apagou, até, momentaneamente, minha memória. Olhei pela ultima vez no retrovisor interno e vi minha mãe chorando e meu pai com cara de muito bravo:
       - Vamos levá-lo para o Jardim Secreto. Alguém disse.
Foi a ultima coisa que minha consciência pode identificar até que tudo ficasse no escuro, como se todas as luzes do mundo tivessem se apagado. Eu fiquei inconsciente, mas podia sonhar, podia ver pessoas em pensamento. Tentava mover meu corpo, mas era como se eu não tivesse mais corpo, só pensamentos. Ouvi várias pessoas conversando, mas não podia identificar ninguém, e seja lá onde eu estava, sentia proteção, mesmo sem entender nada. Tinha a sensação de que estavam fazendo alguma coisa para o meu bem melhor. Eu me sentia tranquilo.
       Existia um jardim. Eu podia vê-lo. Era imenso, com pássaros coloridos voando próximo a um rio de águas cristalinas e azuis. Eu podia estar no jardim, sentir o jardim, rolar na grana e sentir que o mato tinha gosto de framboesa e que o dia parecia nunca terminar – Não existia noite.
       - Você está no Jardim Secreto!
       - Mãe? Cadê meu pai?
Eu não estava sentido mais dor alguma e alguém me indicava um lado de luzes amarelas e outro de luzes azuis. Minha mãe estava do lado amarelo e do lado azul eu vi alguém numa maca, ligado a um monte de fios e as pessoas que estavam em sua volta balançavam a cabeça em sinal negativo, de desistência
       - As sequelas são grandes doutor. A falta de oxigênio no cérebro o tornará uma pessoa vegetativa.      
Alguém acabará de receber um diagnóstico definitivo e não era muito bom. A silhueta daquele corpo me era familiar.
       Ao lado da maca existia um bilhete, ou uma receita médica, num papel timbrado onde no alto, na margem esquerda, se lia “Jardim Secreto”, como se Jardim Secreto fosse um hospital, onde mesmo com as letras muito distorcidas eu conseguia ler a “receita” que dizia:
       - Você pode escolher em vir para a luz azul, voltar para seu mundo e viver com várias sequelas ou seguir a luz amarela, onde você pode ver que sua mãe e seu pai estão te chamando, acenando, onde viverás de novo, como se estivesse num jardim, do qual você pode sentir e descrever.   
       Então foi me dado duas opções e a sensação, mesmo que momentânea, de saber onde eu estava:
       - Eu estava morto.
       O infarto tinha sido fulminante, pois mesmo os médicos do céu não puderam interceder, reverter, curar. Porém, naquele instante de minha consciência, ou inconsciência, eu estava mais vivo do que nunca. Senti que, o que pensamos ser a morte, pudesse ser realmente a nossa Vida Real.
       - Onde já se viu o mato ter gosto de framboesa, não existir noite... Eu estava no céu!   
       Eu poderia ter a chance de viver novamente, sem sequelas, do lado amarelo da luz, ainda mais, poderia rever e conviver com meu pai e minha mãe:
       - Vem logo menino!
       - Vem logo moleque!
       - Já vou pai! Já vou mãe!

UM DOS CAPÍTULOS DO LIVRO "JARDIM SECRETO"
LANÇAMENTO AGOSTO 2016
AUTOR: ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

LIVRO - BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS



FELIZ ANIVERSÁRIO!


       Maria era uma mulher guerreira. Mãe solteira, fazia de tudo pela educação e sucesso de seu filho Rafael, à época com quatorze anos. Maria não media seus esforços e trabalhava em três empregos para sustentar o filho, depois que o companheiro a abandonou quando Rafael ainda era um bebê. Rafael por sua vez, reconhecia o esforço de sua mãe e sempre foi um garoto muito esforçado nos estudos.

       Além do ensino médio, Rafael se dedicava em aprender inglês e ainda fazia curso de informática e nas aulas de educação física sempre foi um dos melhores. Muito elogiado pelos mestres que o assistia, era um orgulho para Maria.

       Das poucas vezes em que Maria e Rafael pudessem conviver com outras pessoas da família, esses tinham em Maria uma “Mama África”, aquela guerreira de todos os dias, e nas brincadeiras em família sempre cantavam uma música que identificava em muito Maria:

       - “Mama África / a minha mãe é mãe solteira / e tem que fazer mamadeira / todo dia / além de trabalhar como empacotadeira nas Casas Bahia!”

       Maria trabalhava pela manhã numa empresa fazendo a faxina, depois ia direto para a casa da Dona Zilá onde fazia o almoço, levara as crianças para a escola e na volta vendia balas e doces na porta da escola onde o filho Rafael estudava. Todos os dias Maria acordava às cinco horas da manhã. Deixava tudo pronto para Rafael: A comida, suas roupas bem passadas e um dinheirinho para possíveis emergências que Rafael poderia ter. Rafael aprendeu a se virar sozinho logo cedo. Sem um Pai ou outro alguém da família por perto, Rafael reconhecia o esforço da Mãe e procurava fazer as coisas de acordo com as recomendações de Maria:

       - É uma maneira de retribuir e compensar todo o esforço que minha mãe tem comigo. Dizia sempre Rafael.

       Numa determinada ocasião, a crise no país fez com que as empresas demitissem muitos empregados. Apesar de trabalhar em três empregos, Maria precisa da remuneração que provinham desses empregos, pois pagava aluguel da pequena casa, sustentava sozinha seu filho, pagava-lhe cursos de especialização e tinha outras contas a pagar.

       Maria não atribuiu aquele acontecimento como uma felicidade: A empresa onde trabalhava e que lhe provia a maior renda, mandou muitos funcionários embora, mas mantiveram Maria. Apesar de não perder o emprego, foram lhe atribuído muito mais trabalhos, o que tornava sua vida uma correria maior ainda. Sempre que Maria saía de casa para o trabalho o sol ainda não tinha nascido e quando voltava, o sol já havia se apagado. Toda vez que Maria chegava em casa, à noite, Rafael estava mergulhado nos livros. Esperava sua mãe descansar um pouco, tomar um banho até que pudessem jantar juntos. durante o jantar, Rafael fazia questão de perguntar como havia sido o dia de sua Mãe. Maria sempre retratava os pontos positivos do seu dia a dia e deixava os problemas vinculados a uma única frase: - A vida é uma luta!

       Maria sentiu que Rafael queria lhe dizer algo naquela noite, mas cansada, deixou para questionar Rafael ao amanhecer.

       - Boa noite mãe, durma com Deus!

Essa frase era uma prece de Rafael para Maria e fazia com que ela pudesse ir dormir em paz. Rafael esperava a mãe se deitar e depois se deitava um pouco abraçado à Maria até que pegasse no sono, quando depois, ia para seu quarto.

       - Boa noite mãe, durma com Deus!

A prece era repetida e Rafael ia para seu quarto, se deitava até dormir. No dia seguinte quando saia de casa, Maria percebeu que Rafael tinha lhe deixado um bilhete. Colocou-o na bolsa e pensou em lê-lo durante a viagem de ônibus até o trabalho. Quando Maria leu o bilhete se emocionou:       

       - Mãe, amanhã é o dia do meu aniversário! Você pode fazer um bolo?

       Rafael estaria completando quinze anos de idade.

       - Como o tempo passa! Meu menino com quinze anos!

       Orgulhava-se Maria.

       Maria começou a articular uma maneira de providenciar o bolo. Durante o dia seria impossível, pois não existia tempo hábil. Pensou em fazer o bolo à noite, entretanto, contava com o recebimento de seu salário na empresa para providenciar o bolo e um presente para Rafael.

       Naquele dia, véspera do aniversário de Rafael, houve uma greve na empresa. Poucas pessoas conseguiram entrar para trabalhar. Dentre essas pessoas, Maria conseguira. Como haviam poucos funcionários para o trabalho, Maria teria de fazer um turno de doze horas para compensar a falta de vários funcionários devido à greve. Maria não poderia recusar. Precisava do emprego, mesmo sabendo que não iria receber seu salário naquele dia, pois a empresa estava com dificuldades financeira, por isso a greve. Maria tinha que trabalhar. Ligou para Dona Zilá dizendo que não poderia, naquele dia, executar os serviços. Dona Zilá compreendeu e ainda lhe desejou sorte. Maria se tranquilizou. Entretanto, durante o trabalho pesado daquele dia, lembrou-se do bilhete de Rafael: - Como vou fazer o bolo? Maria tentou de todas as maneiras possíveis: Ligou para alguns parentes, conversou com poucos amigos, mas ninguém lhe ofereceu vantagem em fazer o bolo. Maria então resolveu que, de alguma maneira, faria o bolo à noite em sua casa. Naquela noite Maria chegou muito tarde em casa. Além do turno puxado, teve ainda que fazer horas extras e quando chegou Rafael estava dormindo.

       Maria abriu a dispensa e verificou que lhe faltava vários ingredientes para que pudesse fazer o bolo. Cansada, pensou, pensou e acabou dormindo. No dia seguinte acordaria e explicaria a Rafael, mas quando acordou, Rafael já havia saído. Não era comum Rafael dormir antes de sua mãe chegar e nem sair de manhã, antes de abraçar sua mãe, mas Maria entendeu que por ser seu aniversário, teria alguma comemoração por parte dos amigos. Maria acordou se preparou e ao sair sentiu uma pontada no coração. Por alguns segundos sentiu uma falta de ar, mas logo passou e Maria se dirigiu ao trabalho. O dia estava corrido, muito trabalho, a greve ainda persistia e quando foi por volta das onze horas da manhã um carro de polícia estacionou na empresa em que Maria trabalhava:

       - Bom dia, estamos procurando por Maria da Conceição Santos, ela trabalha aqui?

       Indagou o soldado militar.

       Maria foi chamada numa sala, onde o soldado militar lhe comunicou, secamente:

       - Minha senhora, aconteceu um acidente. Houve um atropelamento na avenida principal e pelo que me consta, seu filho Rafael Miguel Santos foi atingido mortalmente por um carro de passeio, que se evadiu do local. Sinto muito.

       Maria não reagiu imediatamente. Ficou parada, de olhos arregalados, hipnotizada, esperando que as lágrimas caíssem de seu rosto. Alguns amigos do trabalho chegaram para poder consola-la.

       - Maria se desesperou quando lhe contaram.

       Estava segurando o bilhete. O bilhete do bolo de Rafael.

       - Meu Deus! Deve ter havido algum engano. Hoje é o aniversário de quinze anos do meu filho Rafael. Eu estou correndo pra lá e pra cá para fazer o bolo que ele me pediu. Olhem aqui o bilhete! Não me digam isso! Não pode ser!

       Foi difícil fazer acreditar Maria sobre o acontecido.

       - Meu filho! Eu quero meu filho!

       Maria chorou muito, se desesperou muito, e todos sentiram. Levaram-na até o hospital, mas no percurso até o necrotério se perderam de Maria. Todos pensaram que Maria poderia cometer uma loucura. Ficaram desesperados.

       De repente Maria adentrou no necrotério segurando um bolo em suas mãos e aos berros, dizia:

       - Meu filho, desculpe-me, perdão, eu só consegui o bolo agora, não partas antes de provar o seu bolo, a mãe trouxe com carinho, não vá embora meu filho, tome aqui o seu bolo!

       Foi difícil controlar Maria até o sepultamento do seu filho Rafael. Os dias se passaram. Maria foi acolhida na Fraternidade Cristo Redentor onde Rafael fazia cursos e ajudava a cuidar de crianças carentes. Ficou algum tempo sem trabalhar e aos cuidados da Fraternidade. Quando se recuperou não tinha mais os empregos que a sustentava. Os parentes sumiram e então Maria se fixou na Fraternidade Cristo redentor, onde cuidava de várias crianças. As crianças amavam a Tia Maria!

       Depois de alguns anos trabalhando na Fraternidade, cuidando de crianças abandonadas, durante um almoço, um menino bem pequenino cujo era chamado carinhosamente de “Tampinha” puxou o avental de Maria e disse-lhe:

       - Tia Maria, amanhã é o meu aniversário, você faz um bolo pra mim? Faz Tia Maria?

Maria ajoelhou-se e abraçou o pequenino Tampinha. Deu-lhe um longo beijo, chorou muito e viu as lagrimas também caindo do rosto de Tampinha:

       - Faço sim meu filho! A Tia vai lhe fazer um bolo bem bonito e gostoso e todos vamos cantar parabéns para você!

       E a festa de Tampinha foi muito bonita. No momento em que todas as crianças estavam cantando parabéns a você, Maria, ou Tia Maria foi apanhada num misto de tristeza e alegria e se surpreendeu ainda mais quando Tampinha lhe abraçou e beijou dizendo:


       -Tia Maria, eu te amo!

       A senhora é a minha Mãe!

TRECHO DO LIVRO:
BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS
TEXTO: FELIZ ANIVERSÁRIO!
AUTOR: ANTONIO AUGGUSTO JOÃO