17 julho 2016

LIVRO - EM NOME DO PAI

Ainda menino, espelhava em tudo que meu pai fazia. Também tinha vontade de acordar bem cedo e sair para trabalhar como ele, mas eu tinha que atingir outros objetivos, como por exemplo, estudar.  Com apenas sete anos, muito novo para entender a vida na parte de ser um pai de família, como meu pai dizia que era. Costumava deixar alguns bilhetes debaixo do travesseiro do meu pai, pedindo para ele me acordar às quatro horas da manhã e me levar para a feira. Eu sei que ele lia os bilhetes, mas não tinha coragem de me acordar tão cedo, mesmo nos finais de semana ou nas férias escolares. 
       Num determinado domingo, depois de muitas tentativas, consegui acordar às quatro horas da manhã, no momento em que meu pai estava se preparando para sair. Estava muito frio naquela madrugada. Enquanto meu pai preparava o café, me arrumava, colocando todas as blusas que tinha, pois fazia muito, muito frio. 
       No rádio que funcionava à válvulas e ficava na cozinha, o Zé Bétio disse naquele dia que estava fazendo sete graus e que a temperatura iria cair ainda mais. Pensei em pegar uma blusa do meu irmão para garantir, mas na hora certa, desisti. 
        Nunca fui de tomar café, mas naquela ocasião achei que era uma boa ideia. 
O que você está fazendo acordado a essa hora moleque? 
       - Eu vou com você pai! 
       - Volta pra cama rapaz. Tá muito frio! 
       - Mas eu quero ir com você! 
       - Hoje não. Outro dia eu te levo! 
O frio foi uma boa desculpa e meu pai acabou me convencendo. Será que todas as madrugadas eram geladas como aquela? 
        - O que você está fazendo acordado há essa hora menino? 
       Era minha mãe.  Acabei levando a maior bronca enquanto pela janela via meu pai subindo as escadas em direção à rua. 
       Daquela vez eu quase fui com ele, mas eu não iria desistir. Quem sabe no próximo verão! Pensei. 
       Sempre tive medo de ir mal na escola, tirar notas baixas, pois assim, além de ser repreendido pelos meus pais, ficaria muito difícil fazer minhas reinvidicações. Percebia que com sete anos não tinha direito a nada, e na verdade não tinha mesmo. Meus pais estavam certos: Minha maior preocupação deveria ser os estudos para que no futuro pudesse me especializar em alguma profissão e prosperar. 
       Mas, o meu espelho foi sempre meu pai e queria ser como ele. O tempo passou e continuei bem na escola. Com dez anos, resolvi fazer mais uma tentativa. 
       Meu pai queria que eu fosse jogador de futebol e eu queria ser o meu pai. Até que fui um bom jogador. Jogava bem com os meninos da minha idade, mas não tinha como me inscrever em algum clube, pois exigiam a presença do pai ou da mãe, e meus pais não tinham como me acompanhar. 
       Quando chegou o natal, havia completado onze anos de idade. Na véspera, por volta da hora do almoço, estava jogando futebol na rua com alguns amigos quando estacionou um caminhão na porta de casa. Em meio a muitas buzinas, vi meu pai acenando. 
       Finalmente ele havia conseguido comprar um caminhão de carroceria para poder trabalhar na feira.  Até então ela pagava aluguel para um amigo transportar as mercadorias. 
Ele estava muito contente e todos ficaram também.  
        - Vamos dar uma volta! Chamou! 
Meu pai não sabia a dor de cabeça que estava arrumando, pois tanto eu como meu irmão queríamos guiar o caminhão. 
       - Pai! Agora você pode me levar na feira! Eu posso ficar na carroceria e se estiver frio eu me enrolo na lona! 
Meu pai prometeu que passando o natal ele me levaria na feira, e meu irmão também! 
       As festas de final de ano se passaram. 
       - E viva o verão! 
       Janeiro chegou e comecei a cobra-lo.
      Certa vez ele me chamou por volta das cinco e meia da manhã.  Acordei e escutei-o dizendo: 
       - Vamos moleque! 
O problema foi que meu pai chamava só uma vez. Se conseguisse acordar tudo bem, senão... Assim, muitas vezes ele me chamou, mas não conseguia acordar. Não estava acostumado acordar cedo. Eu estudava no vespertino e acordar cego sempre foi um sacrifício. 
       Às vezes cinseguia acordar e ouvia ele me chamando, mas num piscar de olhos eu dormia de novo. 
      Tentei fazer com que minha mãe me chamasse, mas ela achava que nos éramos muito pequenos para acordar cedo e fazer o trabalho passado, pois trabalhar de feirante exigia muita disposição física. Mas existe um ditado que diz que os sonhos existem para virarem realidade. 
        - Acorda! Acorda! 
        - Humm... 
        - Acorda logo! O pai já vai sair! 
Era meu irmão. Ele conseguiu acordar às cinco da manhã e enquanto meu pai estava no banheiro fazendo a barba, meu irmão veio me acordar. 
          - Anda logo dorminhoco e não faz barulho senão a mãe vai acordar! 
O plano do meu irmão deu certo. Ele acordou no horário e me chamou. Trocamos de roupa rapidinho, não estava fazendo frio – graças a Deus, e corremos para o caminhão que ficava estacionado na porta de casa. 
       Meu pai nem percebeu que subimos na carroceria e nos escondemos no meio dos sacos de batatas e nos enrolamos na lona que as cobriam. Meu pai saiu de casa vinte minutos depois que nos escondemos na carroceria do caminhão. 
       Entrou assoviando as músicas caipiras que ele ouvia no programa do Zé Bétio, ligou o caminhão e partiu rumo à feira. 
         - Onde vai ser a feira hoje? 
         - Na estrada de Santos. Respondeu meu irmão. 
         - Como você sabe? 
         - Não enche o saco! 
       No trajeto eu e meu irmão acabamos pegando no sono, escondidos na carroceria. O caminhão balançava muito e acordamos depois que passou num buraco na estrada de Santos: 
        - Que é isso? 
       - É um carro de polícia, preto e branco! Disse meu irmão. 
       O carro de polícia fez um sinal para meu pai parar. 
         - Será que fomos descobertos? 
         - Cala a boca! Respondeu meu irmão, nervoso! 
Nos não conseguíamos ouvir o que os dois policiais pediram para meu pai. Ele mostrou os documentos, mas no final da conversa ouvimos um dos guardas dizendo que iriam multar, pois os pneus trazeiros estavam carecas. Meu pai tentou argumentar, dizendo que era trabalhador, etc. Mas o policial lavrou a multa e deixou meu pai seguir. 
         - Será que falta muito pra chegar? 
         - Como eu vou saber? Nos nunca viemos nesta feira. O pai quem disse que ficava na estrada de Santos. 
De repente meu pai fez uma curva e entramos num declive muito acentuado e perigoso.  Existia muita neblina no local e meu pai limpava o para brisas com uma flanela, pois o limpador não estava funcionando. Pela carroceria a gente podia ver meu pai no controle do caminhão, só que em determinado momento nos pareceu que o caminhão estava sem freio, pois meu pai estava fazendo as curvas tangenciando sem sucesso. 
       Nos tivemos a certeza que o caminhão estava sem freio quando ouvimos meu pai dizendo um baita palavrão em voz alta. 
          - Vamos pular? 
          - Cala a boca! Meu irmão estava nervoso. 
Meu pai estava procurando uma oportunidade para jogar o caminhão contra o matagal, mas estava sem controle da direção.  
         - Meu Deus! É melhor ele não saber que estamos na carroceria! 
         - Cala a boca! 
Meu irmão ameaçou entrar pela cabine a partir da carroceria, mas eu não deixei. Enquanto isso meu pai tentava de todas as maneiras parar o caminhão. Ainda bem que a estrada estava vazia, sem nenhum veículo nos dois sentidos. 
           - Será que a gente vai cair no mar? 
           - Cala a boca! 
Meu pai usou o freio de mão ao mesmo tempo em que derrapou o caminhão em direção a um matagal. O caminhão entrou mata adentro e foi perdendo a velocidade até parar. Enquanto isso, eu e meu irmão vibrávamos na carroceria. 
         - Ainda bem que ninguém morreu! 
         - Cala a boca! O pai vai ficar muito nervoso quando souber que a gente estava aqui, escondido. 
         - Ainda bem que a ideia foi sua! 
         - Cala a boca! 
E após o caminhão ter parado por completo, meu pai saiu da cabine, subiu na carroceria, desenrolou eu e meu irmão da lona e disse: 
        - Podem descer moleques! Está tudo sob controle! Graças a Deus! 
        - Valeu pai!

TRECHO DO LIVRO

LIVRO - PAI NOSSO

A casa estava toda revirada e bagunçada. Robert sempre foi atrapalhado e o segundo filho viria no momento de vida mais feliz do casal. Daquela vez não foi alarme falso. Sarah sabia que o segundo filho estava pedindo passagem para nascer:
       - Querido! Não precisa colocar tantas coisas na mala. Coloque somente o necessário para o primeiro dia.
       Robert e Sarah viviam numa pequena e pacata cidade no interior dos EUA. Robert sempre foi lavrador e cultivava frutas, verduras, raízes e madeira, que era o meio de sobrevivência da família. Sarah também o ajudava na terra. Se conheceram ainda adolescentes e se casaram no mesmo instante em que nasceu o primeiro filho, Nicholas. Robert saiu todo atrapalhado rumo á maternidade. Nicholas ficaria hospedado na casa de um vizinho enquanto Robert passaria a maior parte do tempo na maternidade com sua esposa Sarah. O Dr. Paul estava no hospital aguardando Sarah chegar para fazer o parto. Sarah iria dar à luz uma menina que seria batizada com o nome de Annie.
       Logo que chegou, Sarah foi conduzida para uma sala de preparos antes do parto. Enquanto isso, Robert ficou na recepção tomando um café atrás do outro. Eram vinte e três horas quando começou o procedimento de parto. Tudo tinha sido feito como o Dr. Paul havia recomendado e toda equipe médica iniciou os trabalhos para o parto. Sarah estava tranquila, sabia que Nicholas seria bem cuidado pelos amigos vizinhos e quanto a Robert, sabia que tomaria toda a garrafa de café da recepção, por tamanha ansiedade.
       Robert andava pra lá e pra cá, ansioso por notícias de Sarah, porém, aos poucos, foi sossegando e até deu uma cochilada na poltrona da recepção:
       - Enfermeira! Chamando enfermeira chefe! Setor C sala 217.
       O auto falante da emergência solicitava a presença da enfermeira para auxílio no parto de Sarah. Alguma coisa estava transcorrendo em desagrado e Robert ficou meio perdido, sem ter noticias de Sarah.
       - Estamos perdendo o pulso! A pressão está muito alta e os batimentos cardíacos estão lentos!
       Esse foi o diagnóstico que a equipe de médicos detectou no decorrer do procedimento. Houve uma complicação no procedimento de parto e a equipe médica teria que tomar uma decisão de tamanha importância e responsabilidade e não tinham muito tempo para decidir.
       - Chamem o marido imediatamente. Ordenou o médico
       Quando Robert tomou pé da situação, ele sorriu. Em situações de tremenda pressão, sustos, tragédias... Pessoas reagem de várias maneiras e Robert sorriu. Mas por dentro, estava desesperado. Não se soube de foi erro médico ou complicações generalizadas do parto, mas os médicos pediram para Robert optar em ficar com o bebê ou com Sarah e ele tinha que decidir rápido senão perderia ambos. Robert continuou sorrindo, dando murros em todas as paredes que via pela frente.
       - Doutor, precisamos ressuscita-la. Disse outro médico.
       A situação estava terrível e a equipe médica acelerou os procedimentos quando aos gritos Robert entrou na sala de emergência:
       - Salvem o bebê! Salvem o bebê!
       Annie nasceu com sérias complicações e ficou na incubadora e depois sobre cuidados médicos por mais de sessenta dias. Robert ficou por um bom tempo perdido. Não tinha forças para cuidar da terra de onde tirava o sustento da família e ainda com a responsabilidade de duas crianças para cuidar. O tempo passou e com muito custo Robert foi se reerguendo. Annie completou cinco anos e Nicholas, sete. O grande problema foi que Robert adquiriu o vício do álcool. Nos momentos de profunda tristeza e agonia, Robert fugia para os fundões de terra para chorar escondido das crianças e levava consigo a bebida alcoólica como companhia. Contudo, a vida de Robert, Nicholas e Annie mudaria radicalmente a partir daquele dia. Robert sumiu, desapareceu. Saberiam mais tarde que desmaiou de tanta bebida e desilusão. Enquanto Robert afogava suas mágoas na bebida, Nicholas e Annie se viravam em casa. Estavam com muitos problemas na escola e viraram crianças rebeldes. Naquele dia as crianças após prepararem o jantar, deixaram algumas lascas de carvão acesas e uma delas caiu no chão de madeira e acabou provocando um incêndio. Antes disso, as crianças foram dormir e Robert ficou perdido na bebida. Os vizinhos socorreram, chamaram a polícia, conseguiram dominar as chamas, mas a cozinha da casa ficou totalmente destruída.
       Com as crianças não aconteceu nada, mas a situação de Robert ficou muito complicada. Robert foi encontrado somente na manhã seguinte pela polícia, ainda embriagado e no meio de uma plantação de eucaliptos. Assim, quando soube do ocorrido ficou desesperado e somente se tranquilizou quando encontrou e abraçou Nicholas e Annie.
       Enfim, por uma decisão do juiz, Robert se livrou da prisão, mas o juiz determinou a perda da guarda das crianças, o que para Robert significaria o fim. As crianças já eram rebeldes e revoltadas pela perda da mãe e pelo estado do pai, não se davam bem com ninguém, principalmente na escola, mas, de todo modo, amavam o pai, amavam Robert sob todas as formas.
       Nicholas foi encaminhado para o orfanato ao leste do estado, numa distância de quatrocentos quilômetros de seu pai e Annie foi para o oeste, a duzentos quilômetros de distância. No início Robert foi impedido de visitar os filhos, daí se perdeu ainda mais na bebida, no álcool. Na procura de ajuda conheceu Marie. Marie foi a assistente social que ajudou Robert no processo de recuperação da guarda dos filhos. Seria uma batalha árdua. As leis no estado onde Robert e as crianças viviam eram muito rigorosas. Foi daí que Marie ajudou Robert e assim contrataram um advogado para iniciarem o processo de recuperação da guarda. Marie também ajudou Robert a se livrar do álcool.
       - Foi um anjo que apareceu na minha vida.
       Foi sempre assim que Robert terminava seus depoimentos nas sessões do Grupo dos Alcoólatras Anônimos, se referindo a Marie.
       Robert arrendou seu rancho, pois não tinha forças para o trabalho pesado. Ficou com sessenta por cento como administrador e arrendou quarenta por cento para Richard, um amigo de infância que reapareceu após saber da triste realidade da vida de Robert. Assim, Robert, Marie e o Dr. Simpson poderiam trabalhar no processo da recuperação da guarda das crianças.
       Quando uma carta chegou pelos correios na casa de Robert, não poderia proporcionar alegria maior. O Juiz havia concedido a primeira visita de Robert aos filhos, depois de quase um ano, desde que foram para o orfanato. Foi a primeira vitória do Dr. Simpson no processo, com a ajuda da Assistente Social Marie.
       A visita aconteceria num domingo, três dias depois do recebimento da carta e Robert contava as horas e os minutos para chegar o momento de reencontrar os filhos.
       - Como será que eles vão me receber? Questionava Robert
       - Tenha calma, tudo vai dar certo! Incentivava Marie.
       O dia da visita chegou e Robert primeiro foi visitar Nicholas. Marie o acompanhou. Quando chegaram tiveram uma sensação horrível, pois o orfanato tinha aspecto de prisão, um isolamento. Robert sentou-se numa sala enquanto foram buscar Nicholas. Nicholas demorou a chegar. Parecia que estavam convencendo-o a ver o próprio pai. Pela porta aberta, que dava de frente para um corredor, Robert viu Nicholas se aproximar. Nicholas chegou caminhando com dificuldade e devagar. Tinha dificuldades em andar e mancava da perna direita. Robert não se conteve e saiu feito louco para abraçar o filho.        
       - Nike, meu filho!
Nicholas recebeu o pai friamente. Enquanto o pai chorava de saudade, Nicholas apenas o olhava com expressão fechada, de revolta, tristeza e solidão. Enquanto Robert ficou o tempo todo abraçado ao filho, Marie andou pelo orfanato e conversou muito com a diretora.
       - Pai, eu quero ir com você. Não quero mais apanhar.
       Nicholas estava com quase dez anos e por se rebelar, sofria muitos castigos no orfanato. Robert identificou marcas e cicatrizes no corpo do filho e numa atitude intempestiva, tentou "raptar" o próprio filho daquele lugar sombrio, obscuro, como se fosse uma prisão de segurança máxima.
       E na despedida, Nicholas chorou. Não queria largar do braço do pai que também desmontou em emoção.
       - Meu filho, tenho que ir embora, mas não vou demorar em vir te buscar.
       Robert foi embora arrasado. Pensou em cometer uma loucura tirando o filho do orfanato à força, mas só agravaria a situação. Ainda bem que Marie estava com ele. Enquanto Robert ficou com a emoção e tristeza aflorada, Marie, ponderada, colheu informações importantes que seriam fundamentais para o processo de recuperação da guarda dos filhos de Robert, e que o Dr. Simpson usaria da melhor forma possível.
       Marie tomou a direção do carro e iniciaram a viagem para o orfanato onde estava Annie. Não seria possível visita-la no mesmo dia e assim resolveram pernoitar num hotel de beira de estrada.
       - Acalme-se Robert. Tenho informações importantes que vão ajudar o Dr. Simpson a resolver de uma vez essa situação. Disse Marie a Robert, que logo pegou no sono.
       No dia seguinte Robert e Marie seguiram rumo à visita a Annie. Robert estava muito preocupado, pensando receber Annie num mesmo cenário sombrio ao de Nicholas. Quando chegaram, diferentemente do que haviam visto no orfanato onde estava Nicholas, viram um cenário menos carregado. E então foram surpreendidos com Annie que veio correndo ao encontro do pai:
       - Papai! Papai! Você veio me buscar?
Robert não respondeu... abraçou e beijou Annie, enquanto Marie foi conhecer melhor o orfanato e conversar com o diretor.
       - Papai, quem é ela? Ela é sua namorada? Ela vai ser minha mãe?  
       Robert disse a Annie que Marie era uma assistente social do estado onde vivia e que junto com o advogado Dr. Simpson, estavam ajudando- o retira-lá daquele lugar e voltar para casa.
       - Cadê meu irmão?
Robert desabou com os questionamentos de Annie e foi Marie que consolou a menina que havia recentemente completado oito anos de idade.
       - Seu pai vai embora agora, mas logo voltará para busca-la.
Annie chorou muito na despedida e aos gritos Robert disse que em breve viria busca -la e a levaria de volta para casa. Durante a viagem de volta, Marie ligou para o Dr. Simpson e lhe adiantou o que havia se passado nas visitas e marcaram uma reunião para assim que chegassem de viagem.
       No dia seguinte Robert e Marie se dirigiram ao escritório do Dr. Simpson e Marie fez uma explanação de como estava a situação das crianças no orfanato e quais as medidas que deveriam tomar a partir de então:
       - A situação do Nicholas é desesperadora. O orfanato não obedece as regras determinadas pelo governo. Apurei que abrigam menores infratores no mesmo ambiente dos considerados órfãos, o que é ilegal perante as leis do nosso estado e ainda agridem os meninos rebeldes. Nicholas se envolveu em várias brigas que causou um ferimento na perna direita que o faz mancar. Mas as brigas não foram porque Nicholas tenha tido comportamentos em desacordo e sim porque teve que se defender dos delinquentes. A diretora do orfanato me confidenciou esses detalhes e está disposta a depor a nosso favor se tiver uma proteção da justiça ou uma delação premiada.
       - A situação de Annie é mais tranquila. O orfanato onde Annie se encontra obedece as regras governamentais. As meninas até estudam, são assistidas por psicólogos e fazem atividades físicas e sociais. A diretora prometeu que pode nos ajudar na recuperação da guarda com um relatório de bons comportamentos de Annie.
       Com as informações trazidas por Marie, o Dr. Simpson iniciou o processo para protocolar junto ao juízo da comarca para solicitar a recuperação da guarda das crianças.
       Na primeira decisão o juiz deu a sentença como favorável a Robert, mas fez três exigências que deveriam ser comprovadas em noventa dias. A primeira exigência foi que Robert tinha que provar que estava totalmente curado do vício do álcool. A segunda, que tivesse um trabalho fixo que pudesse oferecer condições de sustentar seus filhos. A terceira, a que mais constrangeu Robert, ele deveria Sr um homem casado em até noventa dias antes da recuperação da aguarda das crianças. 
       A primeira exigência do juiz foi totalmente comprovada através dos relatórios dos Alcoólatras Anônimos e os exames médicos recentes que Robert juntou ao processo, além dos depoimentos dos vizinhos.
       A segunda exigência também foi comprovada. Robert tinha arrendado o rancho em quarenta por cento ao amigo Richard. Com isso o rancho prosperou novamente e as terras voltaram a ser produtivas, garantindo o sustento de todos. Robert havia se esquecido da terceira exigência quando Marie o convidou para um jantar em sua casa. Há muito tempo Marie gostava de Robert. Conheceu sua história, a forma em que perdeu sua esposa, conheceu a agonia de seus filhos e a luta de um pai para recuperar sua dignidade. Com todas essas tribulações, Robert não conseguiu enxergar a mulher maravilhosa que estava em sua volta, em sua companhia, e que foi fundamental para que conseguisse recuperar a guarda dos filhos, prestes a acontecer.
       Aquela noite foi maravilhosa para Robert e Marie. Parecia até que ambos estavam aproveitando aquela chance, aquela conveniência para poder juntar uma prova no processo para ter os filhos de Robert de volta. Marie prometeu a Robert dois compromissos: Primeiro ajudá-lo definitivamente a recuperar seus filhos e segundo, provar seu amor a Robert.
       E assim foi feito. Robert e Marie se casaram e após cem dias Nicholas e Annie estavam em casa novamente. Robert se sentia completo novamente: Tinha novamente uma família.
       Annie e Marie desde o início se deram muito bem. Nicholas a olhava com desconfiança. Não a tratava mal, porém, não aceitava o carinho da mesma forma que Annie aceitava. Nicholas gostava de ficar na terra, junto com Richard e Robert. Se sentia bem trabalhando. No início fez um trabalho de fisioterapia com o médico da cidade e não mancava mais como na época do orfanato. Quando todos estavam sentados à mesa para fazer as refeições, Nicholas ignorava Marie:
       - Esse lugar é da minha mãe. Ela não é a minha mãe.
       Os negócios prosperaram e Robert estava numa situação financeira muito privilegiada, tanto que Annie e Nicholas foram estudar numa excelente escola numa cidade vizinha. Somente aos finais de semana e nas férias os filhos estavam com Robert que não ficava triste com aquela situação:
       - Estou investindo no futuro dos meus filhos.
Quando as férias de verão chegaram no ano de mil novecentos e sessenta e sete, Nicolas estava com treze anos e Annie onze. A família estava muito feliz. Robert estava ensinando Nicholas andar a cavalo e Marie ensinando Annie a fazer bolos e tortas. Nicholas era vidrado em colher frutos e numa tarde estava em cima de uma árvore quando ocorreu um acidente:
       Nicholas se desequilibrou e caiu de cima da árvore. Antes de chegar ao solo tentou se proteger segurando em um galho, mas o galho quebrou-se e por infelicidade, ao cair, perfurou seu abdômen. Nicholas sangrou muito e foi imediatamente levado ao hospital. Precisou fazer uma cirurgia de emergência e precisou de doadores de sangue do tipo B positivo. Richard se dispôs a doar, mas seu sangue não foi compatível. Robert e Annie também. Robert comentou, decepcionado que Sarah era quem tinha o tipo de sangue adequado.
       - Eu vou doar. Disse Marie.
Marie tinha o sangue compatível com o de Nicholas, além de alguns vizinhos de Robert. O volume de sangue necessário foi doado e a operação foi um sucesso. Depois de cinco dias, Nicholas estava em casa novamente em repouso pela cirurgia. 
       E para comemorar, Annie fez um bolo de morango que Nicholas adorava:
       - Para quem será o primeiro pedaço!
Nicholas cortou, colocou o pedaço de bolo num prato e o direcionou a Marie:
       - O primeiro pedaço é pra você! Obrigado, mãe!

Com o sucesso produtivo do rancho, Robert e o amigo Richard compraram uma fazenda bem maior e expandiram a produção justamente quando Nicholas se formou em engenheiro agrônomo. Annie estava no último ano da faculdade de gastronomia quando Marie deu à luz aos gêmeos Sarah e Robert Junior. E assim, Robert, Marie e todos viveram felizes para sempre!
SINOPSE DO LIVRO

16 julho 2016

LIVRO - ALGUMAS CARTAS - ANTOLOGIA III

AS ROSAS SOBRE A MESA NÃO VIVEM MAIS:
A porta estava entreaberta e do meu lado eu podia a ver olhando para uma imagem de Jesus Cristo no alto da parede. Seria bom se tivéssemos a bênção de Deus, tentamos várias vezes, mas caminhamos, infelizmente, em lados opostos, não compartilhamos do mesmo pensamento e nossas atitudes intempestivas contribuíram para tantas brigas e em cada briga uma desilusão, rancor, fazendo com que as mágoas habitassem de vez nossos corações. Para que vamos lutar para nos unir novamente se a cada manhã ou ate mesmo antes do sol nascer estamos em discórdia novamente? Vamos terminar por aqui para que a mágoa não vire definitivamente rancor. Muitas vezes parei para pensar porque chegamos numa situação como a que estamos vivenciando neste cenário de guerra, onde a discórdia prevalece sobre a compreensão e não existe razão em nossas atitudes e pensamos. Tentei voltar no tempo e retomar do momento em que fomos felizes, mas a máquina do tempo enguiçou e eu não consegui chegar, talvez por tantas pedras que encontrei no caminho, umas atiradas por você, outras por mim... Talvez porque você não estivesse lá quando eu chegasse e eu ficaria na dúvida se seria bom ou ruim. A minha vida nunca foi um mar de rosas, mas naveguei na felicidade quando te busquei no fundo do mar e te ergui como um troféu, quando submergi e fui até os céus de alegrias e contentamento. Apesar dos espinhos, não me sangrei, pois existia amor em nossas atitudes – Existia. E os nossos corações eram metade amor, metade paixão, que nenhuma força, mesmo as sobrenaturais, podia destruir. Era isso que se podia ler nos olhos de um casal, pronto a irem cada um para seu lado, cada um para seu destino incerto, pois de tantas voltas, agora sabiam que o amor não é eterno. Olhando para os discos, os livros sobre a estante empoeirada, vinha em minha mente momentos em que consegui entender e sentir o que é um amor de verdade. Talvez fosse melhor não termos declarado juras de amor, talvez não devesse ter nos amado tanto, tanto... Talvez, pois ao percebermos que nos enganamos, que fomos enganados por um mal súbito de nossos corações, a dor se tornou maior, como um punhal de toledo fincado em nossas costas largas, mesmo depois de uma longa noite de amor.
       Assim como o amor veio, se foi. Se foi muito mais rápido, deixando rastros, deixando uma porta entreaberta entre nós, dividindo o certo e o errado, o justo e o injusto... A dor. Já pensamos uma vez achar que tudo foi um sonho, uma fantasia, mas que tivesse um final feliz, como nos filmes de amor que assistimos tanto, nos despedindo com um sorriso ou um aperto de mão, ao invés de ficarmos cada um em seu mundo, separados por uma porta a bater a qualquer momento de um lado ou de outro, de tanta ira que irradiava nosso ambiente. Quando te conheci estava vivendo o melhor momento da minha vida. Você chegou como uma luz a iluminar ainda mais o meu caminho. Foi amor à primeira vista, como nos filmes das matinês quando éramos crianças. Perguntei a mim mesmo o que era o amor que estava sentindo naquele momento e a resposta eu obtive no teu olhar, na tua boca e no gosto do beijo que você me deu, de repente, sem eu esperar, fazendo com que minhas pernas tremessem, sem ser de medo, pela primeira vez.
       Foi então que passei a entender verdadeiramente o que significava a saudade, quando você estava longe de mim. Ficar sem sentir teu cheiro e imaginá-lo, não era a mesma coisa e foi por isso que nossos encontros e reencontros foram sempre apimentados, calientes... E tínhamos a necessidade de nos abraçarmos como se cada abraço fosse o ultimo, como se cada beijo fosse o ultimo e como se nunca mais fossemos nos encontrar. Tudo aconteceu como se fosse um conto de fadas, como se a vida fosse perfeita, como se não existisse tristezas, apenas felicidades, mas chegou uma hora que a história teve que terminar. Eu fiz de tudo para que fosse um final feliz, mas também errei, também cometi os meus pecados e se estamos separados e incomunicáveis dentro de nossa própria casa, eu e você temos culpas. Eu acredito que nos precipitamos quando resolvemos viver juntos antecipadamente, tínhamos que conhecer melhor a vida. Não tínhamos como aproveitar a vida plenamente e isso aguçou o nosso sentido de liberdade. Olhar para você além da porta entreaberta pode significar o meu desespero da separação, mas assim pode ser melhor. Não podíamos continuar como se fossemos estranhos num mesmo ambiente em que as rosas sobre a mesa sempre foram o sinal de afeto e ternura, que não existe mais entre nós. Quem sabe, até resolvermos nossa situação você possa fazer a sua mea culpa. Eu já fiz a minha e já lhe disse que errei bastante, mas se formos realmente remoer o passado, fazer nosso próprio julgamento, seremos condenados e nossos corações ficarão presos, amarrados, sangrando por raiva e descontentamento e é por isso que devemos terminar a jornada neste momento, para que as feridas não se tornem gangrenas e definitivamente parem de sangrar. As rosas sobre a mesa sempre estiveram vivas, montadas e arranjadas num jarro com água na sala de estar sobre a mesa de jantar. Suas cores simbolizaram os momentos em que vivemos e a paixão vermelho que se aflorou num longo tempo em que convivemos.
       Olhando-te nesta pequena distância que agora nos separa, posso até dizer que os momentos por nós vividos poderiam ser um combustível para a reconciliação, mas, na boa... Não dá. As brigas provocaram feridas que machucaram nossos corações e as cicatrizes não formaram eficazes para curarem os buracos deixados em nossas almas. Queria me despedir de você de uma maneira menos cruel, mais suave, sem rastros de desavenças nem olhares de rancor, mas não dá, pois temos as mesmas armas, as mesmas pedras nas mãos que depois de lançadas, não voltaram mais e ficaram sem efeito os pedidos de perdão. Aprendi que quando se tem uma desavença, o melhor que temos a fazer e deixar a tempestade passar, para depois recolher os cacos, reparar os estragos que provocou. Não adianta tentar hipnotizar as mágoas com os olhos vermelhos, cheios de ódio que o amor provocou. Não devemos tentar novamente. Temos que terminar e que possamos fazer com que a raiva passe mais depressa e possamos seguir caminhos de vias contrárias, para que não possamos mais nos trombar na estrada da desilusão, ainda mais que, em todas as tempestades, a maior disputa sempre foi para ver quem vai segurar o timão do navio que já estava a muito tempo naufragado.
       Então, o melhor a fazer agora é ignorar os insultos, pois o oposto do amor não é o ódio e sim a indiferença... Portanto, os discos e os livros você não levará com você.
       - Não vão lhe fazer falta.
Pra onde você for não leve nenhum objeto que possa fazer lembrar algum momento vivido entre nós, pois a situação exige que se apague qualquer sinal que um dia nos uniu.
       Da cabeceira da cama pode tirar o teu retrato, não vou querer recordar é não vai me fazer falta. Ao passar pela ultima vez no jardim que um dia brotaram rosas coloridas, não deixe rastros sem saídas, não pise fundo nas terras negras, pois vem de lá toda a inspiração para meus versos e minha vida. Tome muito cuidado com os buracos que você mesma deixou para que eu pudesse cair em suas armadilhas. Ao sair de casa, não derrube o que estiver pela frente, não destrua o que já está destruído e nem bata a porta com a força da sua indignação, pois eu não quero ver a tua ira. Passando pela sala de estar junto à mesa de jantar, não se esqueça de recolher as rosas sobre a mesa... Elas não vivem mais... Ficaram murchas, [cresceram-se em espinhos], secaram com o tempo, morreram como o amor que um dia eu e você pensamos ter existido.
TRECHO DO LIVRO

08 julho 2016

LIVRO - BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS



CAPÍTULO 03: QUANDO EU NÃO ESTIVER MAIS AQUI


A morte sempre vem sem avisar. Até mesmo os doentes terminais não esperam morrer hoje. Talvez em uma semana, um mês, um ano, mas não agora. Não hoje. José me confidenciou que a morte de seu pai foi inesperada. Ele se foi aos trinta e seis anos. O câncer não escolhe as suas vítimas. Ele morreu quando José tinha apenas sete anos, o suficiente para que sentisse saudade por toda sua vida. Se ele tivesse morrido antes, talvez José não tivesse lembranças e não sentiria nenhuma dor, mas, ao mesmo tempo, talvez José não pudesse dizer que teve um pai. Se ele não tivesse morrido, teria feito José rir com as suas piadas e teria beijado-o no rosto antes de dormir. Talvez tivesse obrigado a ser fanático pelo seu time de futebol, e teria explicado algumas coisas de um jeito que nem sua mãe conseguiu.

       O pai de José nunca lhe disse que morreria tão cedo. Até mesmo quando estava na cama do hospital, cheio de tubos enfiados no corpo, ele não disse uma palavra sequer. Continuava fazendo planos para o próximo ano, mesmo sabendo que ele já não estaria entre nós no próximo mês. No ano seguinte, dizia que iria pescar com José, viajar e conhecer lugares novos. O próximo ano seria maravilhoso. Esse era o sonho do pai de José.

       Acho que ele pensava que tudo isso lhe daria sorte. Fazer planos para o futuro era a sua forma de manter a esperança, esquecer-se da doença. O pai de José sabia muito bem o que lhe aconteceria, mas, mesmo assim, nunca me disse nada. Ele não queria ver José chorando.

       Um dia a mãe de José foi buscá-lo na escola e foram direto para o hospital. O médico deu a notícia com toda a delicadeza do mundo. A mãe de José começou a chorar porque ela ainda tinha uma pequena, uma remota esperança. José ficou em choque:

       - O que isso queria dizer? Os médicos não curam tudo? Fui traído. José gritou de raiva. Até que entendeu que seu pai não estava mais entre nós. E começou a chorar novamente.

Mas aí, uma coisa aconteceu. Uma enfermeira veio até José com uma caixa debaixo do braço. A caixa estava cheia de envelopes com frases, ao invés de endereços. A enfermeira entregou apenas uma das cartas para José.

       - Seu pai pediu para eu te dar essa caixa. Disse a enfermeira para José.

       - Meu pai? Questionou José.

       - Ele ficou a semana inteira escrevendo estas cartas e queria que, hoje, você lesse a primeira delas. Seja forte.

       No envelope estava escrito:

       “Quando eu não estiver mais aqui”:

       Filho, se você está lendo esta carta, significa que eu estou morto. Sinto muito, eu sabia que isso iria acontecer. Não queria te falar, não queria que você chorasse. A decisão de não contar foi minha. Acho que a pessoa que está perto da morte tem o direito de ser um pouco egoísta. Eu ainda tenho muito para te ensinar. Você ainda não sabe quase nada. Por isso que eu escrevi estas cartas. Não abra até que chegue o momento indicado, certo? Esse é o nosso acordo. Te amo. Cuida da mamãe. Agora você é o homem da casa. Com amor, papai. Não escrevi cartas para a mamãe, para ela eu deixei o carro.

       A carta tranquilizou José e o fez sorrir. Seu pai conseguiu fazer uma coisa super original. Essa pequena caixa se transformou no objeto mais importante do mundo para José.

       José disse a sua mãe que ela não poderia abrir a caixa. As cartas eram para o filho e ninguém mais deveria ler. José decorou tudo que estava escrito nos envelopes. A única coisa que tinha que fazer era esperar o momento de cada uma das cartas, até que José se esqueceu delas.

       Sete anos depois José e sua mãe se mudaram para outra casa e José não tinha ideia de onde havia deixado a caixa com as cartas.

       - Esqueci.

       Até que uma coisa aconteceu. A mãe de José não se casou de novo. Não sei por que, talvez ela quisesse pensar que o marido foi o amor da sua vida. Durante um período ela teve um namorado que não prestava. Para José, ela se rebaixava ao sair com alguém como ele. Ele não a respeitava. Ela merecia coisa melhor que um homem que conheceu num bar.

       José nunca se esqueceu do tapa que sua mãe lhe deu quando disse a palavra “bar”. Mas reconheceu:

       - Eu mereci.

       Ainda com a pele do rosto ardendo do tapa, José lembrou-se da caixa com as cartas e de um envelope em especial, onde estava escrito:

       “Quando você tiver a briga mais feia com a sua mãe”.

José entrou procurou em cada canto do seu quarto e encontrou a caixa dentro de uma mala que estava no alto do armário. Viu os envelopes e percebeu que se esqueceu de abrir a carta que dizia: “Quando você der seu primeiro beijo”. Se odiou por isso e decidiu abri-la depois. Ao final, encontrou a carta que procurava e que no envelope estava escrito: “Quando você tiver a briga mais feia com a sua mãe”:



       - Vá até ela e peça desculpas.

       Não sei qual a razão da briga, e não sei quem tem razão, mas eu conheço muito bem a sua mãe. Vá até ela, é o melhor que você pode fazer. Ela é sua mãe, te ama mais do que qualquer coisa no mundo. Você sabia que você nasceu de parto normal porque alguém disse que isso seria melhor para você? Você alguma vez viu como uma mulher dá a luz? Você precisa de outra prova de amor? Peça perdão. Ela vai te perdoar. Te amo, teu pai.

       O pai de José não era um grande escritor, era um simples funcionário de um banco, mas as suas palavras sempre lhe influenciaram muito. Eram palavras sábias, ainda mais para um adolescente de quatorze, como José. José, chorando muito, se dirigiu rapidamente ao quarto de sua mãe. A mãe se virou e olhou para José. Ela lhe abraçou e ficaram ali parados, em silêncio. Fizeram as pazes e conversaram um pouco sobre o assunto. Era como se o pai de José estivesse ali, sentado com eles. A mãe, José e uma parte de seu pai, uma parte que ele tinha deixado a eles numa folha de papel.

       Passou algum tempo até a próxima carta:

       “Quando você perder a virgindade”:

       - Parabéns, filho! Não se preocupe, com o tempo sempre melhora. A primeira vez dá medo. Minha primeira vez foi com uma mulher muito feia e que, além disso, era uma prostituta. Meu maior medo era que você perguntasse para a sua mãe o que é a virgindade ao ler essa palavra sobre este envelope.

Com amor, papai.

       José me dizia que seu pai esteve com ele durante toda sua vida. Não importava que tivesse morrido há muito tempo. Suas palavras fizeram o que ninguém mais conseguiu: Deram a José força para superar as muitas dificuldades da vida. Ele sempre soube como fazer José sorrir quando, em volta, tudo parecia um pesadelo. Ele lhe trouxe paz em momentos de raiva.

       A carta “Quando você se casar” intrigou muito a José. Mas não tanto como a que dizia: “Quando você for pai”.

       - Agora você entende o que é o amor verdadeiro, filho.

O amor verdadeiro é isso que você sente por essa pequena criatura que está ao seu lado. Não sei se é um menino ou uma menina. Então... Aproveite! O tempo começa a passar cada vez mais rápido. Acompanhe tudo de perto.

       Não deixe passar os momentos importantes porque eles não voltam. Troque fraldas, dê banhos, seja um exemplo a seguir. Acho que você tem tudo para ser um bom pai, como eu fui.

       Essa foi a carta mais difícil que José leu em toda sua vida e também a mais curta, foi do seu pai. José teve certeza que, quando seu pai escreveu essas quatro palavras, ele estava sofrendo o mesmo que José. Demorou, mas finalmente José abriu o envelope:

       “Quando a sua mãe morrer”:

       - Agora ela é minha. Que curioso!... Foi a única carta que não me fez sorrir. Sempre cumpri a minha promessa, por isso nunca li as cartas antes do tempo. Bom, a exceção foi com a carta ’Se você perceber que é gay’. O que eu posso te falar? Ainda bem que estou morto! Brincadeiras à parte, um pouco antes de morrer eu entendi que nos preocupamos com coisas que não têm importância. Você acha que isso muda alguma coisa, filho? Não seja bobo. Seja feliz!

       - José sempre esperou com ansiedade o momento seguinte, a próxima carta, outra lição de seu pai. É incrível o que um homem de trinta e seis anos pode ensinar a um velho como eu, de oitenta e cinco:

       - Agora, deitado numa cama de hospital, com tubos no nariz e na garganta por causa deste maldito câncer, toco suavemente com os dedos o papel descolorido da última carta que ainda não foi aberta. Na minha frente, a frase:

       “Quando chegar a sua hora”.

       - Não quero abrir. Tenho medo. Não quero pensar que a minha hora está próxima. Ninguém pensa que vai morrer um dia.

Respiro fundo e abro o envelope:

       - Oi, meu filho. Espero que você esteja bem velho.

Sabia que essa foi a primeira carta que eu escrevi? Foi a mais difícil de todas. É uma carta que me livrou da dor que foi te perder. Acho que a nossa mente acorda quando sente que o fim está perto. Estes últimos dias pensei muito na minha vida. Foi curta, mas muito feliz. Fui o seu pai e o marido da sua mãe. O que mais eu poderia pedir? Isso me traz uma paz enorme. Agora, faça você o mesmo. Meu único conselho: Não tenha medo.

P.S: Tenho muita saudade...

02 julho 2016

LIVRO - O JARDIM SECRETO



O JARDIM SECRETO
       Ao acordar naquela manhã me vi diante do espelho com a barba por fazer. Num flash, fui e voltei ao me ver no reflexo do espero:
       - Era meu pai!
       Eu estava com a cara do meu pai.
       Até as pintas no rosto, o olhar…
       - Era meu pai!
       Meu pai havia falecido fazia mais de vinte anos, mas para sempre estará na minha mente e no meu coração. De barba feita, cara lavada, terno engomado, me dirigi para a garagem do prédio onde morava. O próximo passo seria encarar o trânsito até o escritório, onde me aguardavam os muitos problemas a resolver. O dia estava muito quente e me senti com uma dor de cabeça no mesmo momento em que lembrei-me que não tinha tomado o remédio. Talvez a dor de cabeça fosse pelo fato de não ter comido nem bebido nada no café da manhã, ou eu poderia estar com a pressão arterial alta, por não ter tomado o remédio.
       De qualquer forma, existia um problema que se tornaria maior quando alguém bateu na traseira do meu carro. Desci afoito e nervoso, o que naquele momento só iria me prejudicar. No carro detrás, tinha uma linda mulher, mas cego de raiva, não a enxerguei e soltei um palavrão. Logo, percebi que não seria possível arrumar a solução para um erro cometendo outro, e pedi desculpas para a linda mulher, mesmo estando errada. Resolvido aquele problema, cheguei no escritório e os outros “problemas” estavam exaltados, tanto que nem foi possível entrar em minha sala, pois os problemas estavam logo na recepção.
      Aquele dia foi tenso. Nem saí para almoçar. Na parte da tarde a dor de cabeça aumentou de intensidade aliada a dor de estomago. Eu havia associado às dores pela falta do remédio que deixei de tomar pela manhã e pelo fato de não poder ter ido almoçar. Estava sem apetite, com a boca seca e bebendo muita água.
      O problema pareceu ter sido agravado, pois comecei a sentir dores no peito, como se alguém estivesse espetando agulhas no meu peito.
      - O Senhor está se sentindo bem, Doutor Marques?
      - Sim Senhorita Débora! Acredito que sim!
A Senhorita Débora, recepcionista do escritório, foi a única pessoa que me viu fazendo caretas em função das dores.      Achei que voltando para casa, poderia tomar o remédio, me alimentar e descansar daquele dia tenso e por conseguinte, me curar das dores.
      Na volta para casa, no final da tarde, o trânsito estava igualmente intenso, como pela manhã. Lembrei-me que sempre deixava alguns comprimidos no porta luvas, mas da ultima vez que o carro tinha passado pelo lava rápido, alguém tirou e não recolocou. Eu tinha que voltar para casa logo, pois as dores estavam mais forte e o trânsito estava intenso, quando comecei a me desesperar. Parei num posto para comprar água, pois a minha sede estava excessiva. Havia um carro de polícia estacionado no posto quando pensei em pedir socorro.
       Até cheguei a fazer um sinal, de longe, mas depois que bebi a água me pareceu haver uma melhora e resolvi seguir para casa. Num relance, olhando para o retrovisor interno do carro, pareceu-me ver meu pai. Minha visão estava prejudicada e meu ângulo de visão estava diferente, torto, embaçado. Eu deveria mesmo estar muito parecido com meu pai, pois a imagem que vi no retrovisor interno era muito parecida com ele, ou comigo... O problema é que percebi um sorriso e eu estava na eminência de um choro, pois as dores voltaram a ser muito forte. Nunca imaginei que demoraria tanto para chegar em casa:
       - Não chego nunca em casa! Comentei com uma pessoa, num carro ao meu lado, parados no trânsito.
       - Essa cidade está cada vez mais tumultuada em função desse trânsito maluco!  Respondeu a pessoa ao lado.
       O jeito foi rezar. Sem socorro, sem remédio, só me restou rezar. Chamei pelo meu pai numa oração que acabara de fazer e novamente o vi no reflexo do espelho retrovisor interno do carro, e foi como se o meu pai estivesse me dizendo:
       - Vá logo a um hospital! Não venha agora ao “Jardim Secreto
Jardim Secreto! De onde minha imaginação tirou isso?
Se eu pegasse a próxima rua à direita, estaria bem próximo de um hospital, ou, se eu continuasse em frente, estaria bem próximo de minha casa.
       - Resolvi seguir para minha casa.
Olhei para o retrovisor interno e foi como se meu pai estivesse me repreendendo, dizendo:
       - Moleque teimoso!
E quando estava a poucos metros da minha casa, a dor no peito foi mais intensa e associei às dores de cabeça, de estomago, sede, estresse, a uma única palavra, ou melhor, a um fato que estava acontecendo naquele instante:
       - Infarto.
       Eu poderia estar tendo um infarto ao volante. Chamei por meu pai num grito e não o achei no retrovisor interno do carro, mas virei minha visão ao banco detrás do carro e vi lado a lado meu pai e minha mãe.
       Eles estavam com cara de poucos amigos, como se estivessem me dando a maior bronca. Eu gritei, por eles e pedi ajuda:
       - Pai, Mãe, eu não quero morrer!
       Eles viravam a cabeça e entendi que pediram que eu fizesse o retorno e fosse para o hospital:
       -Pai, Mãe, me ajudem! Peçam a Nossa Senhora para interceder!
       Minha mãe era muito religiosa. Lembro que quando eu e meus irmãos éramos pequenos, ela sempre rezada e a gente melhorava.
       A dor estava muito forte, minha visão prejudicada, mas eu consegui ver meu pai e minha mãe no banco detrás do carro, pedindo para que eu fosse para o hospital:
       - Não vai dar tempo mãe, não estou aguentando!
       Mãe, ô mãe, Pai! Me ajudem por favor! Eu não quero morrer.
       Um silêncio absurdo se identificou.
       Eu não ouvia mais nada, nem o barulho das buzinas dos carros pedindo para eu sair da frente, pois estava dirigindo bem devagar. E ao passar por um túnel, tudo se apagou, até, momentaneamente, minha memória. Olhei pela ultima vez no retrovisor interno e vi minha mãe chorando e meu pai com cara de muito bravo:
       - Vamos levá-lo para o Jardim Secreto. Alguém disse.
Foi a ultima coisa que minha consciência pode identificar até que tudo ficasse no escuro, como se todas as luzes do mundo tivessem se apagado. Eu fiquei inconsciente, mas podia sonhar, podia ver pessoas em pensamento. Tentava mover meu corpo, mas era como se eu não tivesse mais corpo, só pensamentos. Ouvi várias pessoas conversando, mas não podia identificar ninguém, e seja lá onde eu estava, sentia proteção, mesmo sem entender nada. Tinha a sensação de que estavam fazendo alguma coisa para o meu bem melhor. Eu me sentia tranquilo.
       Existia um jardim. Eu podia vê-lo. Era imenso, com pássaros coloridos voando próximo a um rio de águas cristalinas e azuis. Eu podia estar no jardim, sentir o jardim, rolar na grana e sentir que o mato tinha gosto de framboesa e que o dia parecia nunca terminar – Não existia noite.
       - Você está no Jardim Secreto!
       - Mãe? Cadê meu pai?
Eu não estava sentido mais dor alguma e alguém me indicava um lado de luzes amarelas e outro de luzes azuis. Minha mãe estava do lado amarelo e do lado azul eu vi alguém numa maca, ligado a um monte de fios e as pessoas que estavam em sua volta balançavam a cabeça em sinal negativo, de desistência
       - As sequelas são grandes doutor. A falta de oxigênio no cérebro o tornará uma pessoa vegetativa.      
Alguém acabará de receber um diagnóstico definitivo e não era muito bom. A silhueta daquele corpo me era familiar.
       Ao lado da maca existia um bilhete, ou uma receita médica, num papel timbrado onde no alto, na margem esquerda, se lia “Jardim Secreto”, como se Jardim Secreto fosse um hospital, onde mesmo com as letras muito distorcidas eu conseguia ler a “receita” que dizia:
       - Você pode escolher em vir para a luz azul, voltar para seu mundo e viver com várias sequelas ou seguir a luz amarela, onde você pode ver que sua mãe e seu pai estão te chamando, acenando, onde viverás de novo, como se estivesse num jardim, do qual você pode sentir e descrever.   
       Então foi me dado duas opções e a sensação, mesmo que momentânea, de saber onde eu estava:
       - Eu estava morto.
       O infarto tinha sido fulminante, pois mesmo os médicos do céu não puderam interceder, reverter, curar. Porém, naquele instante de minha consciência, ou inconsciência, eu estava mais vivo do que nunca. Senti que, o que pensamos ser a morte, pudesse ser realmente a nossa Vida Real.
       - Onde já se viu o mato ter gosto de framboesa, não existir noite... Eu estava no céu!   
       Eu poderia ter a chance de viver novamente, sem sequelas, do lado amarelo da luz, ainda mais, poderia rever e conviver com meu pai e minha mãe:
       - Vem logo menino!
       - Vem logo moleque!
       - Já vou pai! Já vou mãe!

UM DOS CAPÍTULOS DO LIVRO "JARDIM SECRETO"
LANÇAMENTO AGOSTO 2016
AUTOR: ANTONIO AUGGUSTO JOÃO