02 julho 2016

LIVRO - O JARDIM SECRETO



O JARDIM SECRETO
       Ao acordar naquela manhã me vi diante do espelho com a barba por fazer. Num flash, fui e voltei ao me ver no reflexo do espero:
       - Era meu pai!
       Eu estava com a cara do meu pai.
       Até as pintas no rosto, o olhar…
       - Era meu pai!
       Meu pai havia falecido fazia mais de vinte anos, mas para sempre estará na minha mente e no meu coração. De barba feita, cara lavada, terno engomado, me dirigi para a garagem do prédio onde morava. O próximo passo seria encarar o trânsito até o escritório, onde me aguardavam os muitos problemas a resolver. O dia estava muito quente e me senti com uma dor de cabeça no mesmo momento em que lembrei-me que não tinha tomado o remédio. Talvez a dor de cabeça fosse pelo fato de não ter comido nem bebido nada no café da manhã, ou eu poderia estar com a pressão arterial alta, por não ter tomado o remédio.
       De qualquer forma, existia um problema que se tornaria maior quando alguém bateu na traseira do meu carro. Desci afoito e nervoso, o que naquele momento só iria me prejudicar. No carro detrás, tinha uma linda mulher, mas cego de raiva, não a enxerguei e soltei um palavrão. Logo, percebi que não seria possível arrumar a solução para um erro cometendo outro, e pedi desculpas para a linda mulher, mesmo estando errada. Resolvido aquele problema, cheguei no escritório e os outros “problemas” estavam exaltados, tanto que nem foi possível entrar em minha sala, pois os problemas estavam logo na recepção.
      Aquele dia foi tenso. Nem saí para almoçar. Na parte da tarde a dor de cabeça aumentou de intensidade aliada a dor de estomago. Eu havia associado às dores pela falta do remédio que deixei de tomar pela manhã e pelo fato de não poder ter ido almoçar. Estava sem apetite, com a boca seca e bebendo muita água.
      O problema pareceu ter sido agravado, pois comecei a sentir dores no peito, como se alguém estivesse espetando agulhas no meu peito.
      - O Senhor está se sentindo bem, Doutor Marques?
      - Sim Senhorita Débora! Acredito que sim!
A Senhorita Débora, recepcionista do escritório, foi a única pessoa que me viu fazendo caretas em função das dores.      Achei que voltando para casa, poderia tomar o remédio, me alimentar e descansar daquele dia tenso e por conseguinte, me curar das dores.
      Na volta para casa, no final da tarde, o trânsito estava igualmente intenso, como pela manhã. Lembrei-me que sempre deixava alguns comprimidos no porta luvas, mas da ultima vez que o carro tinha passado pelo lava rápido, alguém tirou e não recolocou. Eu tinha que voltar para casa logo, pois as dores estavam mais forte e o trânsito estava intenso, quando comecei a me desesperar. Parei num posto para comprar água, pois a minha sede estava excessiva. Havia um carro de polícia estacionado no posto quando pensei em pedir socorro.
       Até cheguei a fazer um sinal, de longe, mas depois que bebi a água me pareceu haver uma melhora e resolvi seguir para casa. Num relance, olhando para o retrovisor interno do carro, pareceu-me ver meu pai. Minha visão estava prejudicada e meu ângulo de visão estava diferente, torto, embaçado. Eu deveria mesmo estar muito parecido com meu pai, pois a imagem que vi no retrovisor interno era muito parecida com ele, ou comigo... O problema é que percebi um sorriso e eu estava na eminência de um choro, pois as dores voltaram a ser muito forte. Nunca imaginei que demoraria tanto para chegar em casa:
       - Não chego nunca em casa! Comentei com uma pessoa, num carro ao meu lado, parados no trânsito.
       - Essa cidade está cada vez mais tumultuada em função desse trânsito maluco!  Respondeu a pessoa ao lado.
       O jeito foi rezar. Sem socorro, sem remédio, só me restou rezar. Chamei pelo meu pai numa oração que acabara de fazer e novamente o vi no reflexo do espelho retrovisor interno do carro, e foi como se o meu pai estivesse me dizendo:
       - Vá logo a um hospital! Não venha agora ao “Jardim Secreto
Jardim Secreto! De onde minha imaginação tirou isso?
Se eu pegasse a próxima rua à direita, estaria bem próximo de um hospital, ou, se eu continuasse em frente, estaria bem próximo de minha casa.
       - Resolvi seguir para minha casa.
Olhei para o retrovisor interno e foi como se meu pai estivesse me repreendendo, dizendo:
       - Moleque teimoso!
E quando estava a poucos metros da minha casa, a dor no peito foi mais intensa e associei às dores de cabeça, de estomago, sede, estresse, a uma única palavra, ou melhor, a um fato que estava acontecendo naquele instante:
       - Infarto.
       Eu poderia estar tendo um infarto ao volante. Chamei por meu pai num grito e não o achei no retrovisor interno do carro, mas virei minha visão ao banco detrás do carro e vi lado a lado meu pai e minha mãe.
       Eles estavam com cara de poucos amigos, como se estivessem me dando a maior bronca. Eu gritei, por eles e pedi ajuda:
       - Pai, Mãe, eu não quero morrer!
       Eles viravam a cabeça e entendi que pediram que eu fizesse o retorno e fosse para o hospital:
       -Pai, Mãe, me ajudem! Peçam a Nossa Senhora para interceder!
       Minha mãe era muito religiosa. Lembro que quando eu e meus irmãos éramos pequenos, ela sempre rezada e a gente melhorava.
       A dor estava muito forte, minha visão prejudicada, mas eu consegui ver meu pai e minha mãe no banco detrás do carro, pedindo para que eu fosse para o hospital:
       - Não vai dar tempo mãe, não estou aguentando!
       Mãe, ô mãe, Pai! Me ajudem por favor! Eu não quero morrer.
       Um silêncio absurdo se identificou.
       Eu não ouvia mais nada, nem o barulho das buzinas dos carros pedindo para eu sair da frente, pois estava dirigindo bem devagar. E ao passar por um túnel, tudo se apagou, até, momentaneamente, minha memória. Olhei pela ultima vez no retrovisor interno e vi minha mãe chorando e meu pai com cara de muito bravo:
       - Vamos levá-lo para o Jardim Secreto. Alguém disse.
Foi a ultima coisa que minha consciência pode identificar até que tudo ficasse no escuro, como se todas as luzes do mundo tivessem se apagado. Eu fiquei inconsciente, mas podia sonhar, podia ver pessoas em pensamento. Tentava mover meu corpo, mas era como se eu não tivesse mais corpo, só pensamentos. Ouvi várias pessoas conversando, mas não podia identificar ninguém, e seja lá onde eu estava, sentia proteção, mesmo sem entender nada. Tinha a sensação de que estavam fazendo alguma coisa para o meu bem melhor. Eu me sentia tranquilo.
       Existia um jardim. Eu podia vê-lo. Era imenso, com pássaros coloridos voando próximo a um rio de águas cristalinas e azuis. Eu podia estar no jardim, sentir o jardim, rolar na grana e sentir que o mato tinha gosto de framboesa e que o dia parecia nunca terminar – Não existia noite.
       - Você está no Jardim Secreto!
       - Mãe? Cadê meu pai?
Eu não estava sentido mais dor alguma e alguém me indicava um lado de luzes amarelas e outro de luzes azuis. Minha mãe estava do lado amarelo e do lado azul eu vi alguém numa maca, ligado a um monte de fios e as pessoas que estavam em sua volta balançavam a cabeça em sinal negativo, de desistência
       - As sequelas são grandes doutor. A falta de oxigênio no cérebro o tornará uma pessoa vegetativa.      
Alguém acabará de receber um diagnóstico definitivo e não era muito bom. A silhueta daquele corpo me era familiar.
       Ao lado da maca existia um bilhete, ou uma receita médica, num papel timbrado onde no alto, na margem esquerda, se lia “Jardim Secreto”, como se Jardim Secreto fosse um hospital, onde mesmo com as letras muito distorcidas eu conseguia ler a “receita” que dizia:
       - Você pode escolher em vir para a luz azul, voltar para seu mundo e viver com várias sequelas ou seguir a luz amarela, onde você pode ver que sua mãe e seu pai estão te chamando, acenando, onde viverás de novo, como se estivesse num jardim, do qual você pode sentir e descrever.   
       Então foi me dado duas opções e a sensação, mesmo que momentânea, de saber onde eu estava:
       - Eu estava morto.
       O infarto tinha sido fulminante, pois mesmo os médicos do céu não puderam interceder, reverter, curar. Porém, naquele instante de minha consciência, ou inconsciência, eu estava mais vivo do que nunca. Senti que, o que pensamos ser a morte, pudesse ser realmente a nossa Vida Real.
       - Onde já se viu o mato ter gosto de framboesa, não existir noite... Eu estava no céu!   
       Eu poderia ter a chance de viver novamente, sem sequelas, do lado amarelo da luz, ainda mais, poderia rever e conviver com meu pai e minha mãe:
       - Vem logo menino!
       - Vem logo moleque!
       - Já vou pai! Já vou mãe!

UM DOS CAPÍTULOS DO LIVRO "JARDIM SECRETO"
LANÇAMENTO AGOSTO 2016
AUTOR: ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

LIVRO - BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS



FELIZ ANIVERSÁRIO!


       Maria era uma mulher guerreira. Mãe solteira, fazia de tudo pela educação e sucesso de seu filho Rafael, à época com quatorze anos. Maria não media seus esforços e trabalhava em três empregos para sustentar o filho, depois que o companheiro a abandonou quando Rafael ainda era um bebê. Rafael por sua vez, reconhecia o esforço de sua mãe e sempre foi um garoto muito esforçado nos estudos.

       Além do ensino médio, Rafael se dedicava em aprender inglês e ainda fazia curso de informática e nas aulas de educação física sempre foi um dos melhores. Muito elogiado pelos mestres que o assistia, era um orgulho para Maria.

       Das poucas vezes em que Maria e Rafael pudessem conviver com outras pessoas da família, esses tinham em Maria uma “Mama África”, aquela guerreira de todos os dias, e nas brincadeiras em família sempre cantavam uma música que identificava em muito Maria:

       - “Mama África / a minha mãe é mãe solteira / e tem que fazer mamadeira / todo dia / além de trabalhar como empacotadeira nas Casas Bahia!”

       Maria trabalhava pela manhã numa empresa fazendo a faxina, depois ia direto para a casa da Dona Zilá onde fazia o almoço, levara as crianças para a escola e na volta vendia balas e doces na porta da escola onde o filho Rafael estudava. Todos os dias Maria acordava às cinco horas da manhã. Deixava tudo pronto para Rafael: A comida, suas roupas bem passadas e um dinheirinho para possíveis emergências que Rafael poderia ter. Rafael aprendeu a se virar sozinho logo cedo. Sem um Pai ou outro alguém da família por perto, Rafael reconhecia o esforço da Mãe e procurava fazer as coisas de acordo com as recomendações de Maria:

       - É uma maneira de retribuir e compensar todo o esforço que minha mãe tem comigo. Dizia sempre Rafael.

       Numa determinada ocasião, a crise no país fez com que as empresas demitissem muitos empregados. Apesar de trabalhar em três empregos, Maria precisa da remuneração que provinham desses empregos, pois pagava aluguel da pequena casa, sustentava sozinha seu filho, pagava-lhe cursos de especialização e tinha outras contas a pagar.

       Maria não atribuiu aquele acontecimento como uma felicidade: A empresa onde trabalhava e que lhe provia a maior renda, mandou muitos funcionários embora, mas mantiveram Maria. Apesar de não perder o emprego, foram lhe atribuído muito mais trabalhos, o que tornava sua vida uma correria maior ainda. Sempre que Maria saía de casa para o trabalho o sol ainda não tinha nascido e quando voltava, o sol já havia se apagado. Toda vez que Maria chegava em casa, à noite, Rafael estava mergulhado nos livros. Esperava sua mãe descansar um pouco, tomar um banho até que pudessem jantar juntos. durante o jantar, Rafael fazia questão de perguntar como havia sido o dia de sua Mãe. Maria sempre retratava os pontos positivos do seu dia a dia e deixava os problemas vinculados a uma única frase: - A vida é uma luta!

       Maria sentiu que Rafael queria lhe dizer algo naquela noite, mas cansada, deixou para questionar Rafael ao amanhecer.

       - Boa noite mãe, durma com Deus!

Essa frase era uma prece de Rafael para Maria e fazia com que ela pudesse ir dormir em paz. Rafael esperava a mãe se deitar e depois se deitava um pouco abraçado à Maria até que pegasse no sono, quando depois, ia para seu quarto.

       - Boa noite mãe, durma com Deus!

A prece era repetida e Rafael ia para seu quarto, se deitava até dormir. No dia seguinte quando saia de casa, Maria percebeu que Rafael tinha lhe deixado um bilhete. Colocou-o na bolsa e pensou em lê-lo durante a viagem de ônibus até o trabalho. Quando Maria leu o bilhete se emocionou:       

       - Mãe, amanhã é o dia do meu aniversário! Você pode fazer um bolo?

       Rafael estaria completando quinze anos de idade.

       - Como o tempo passa! Meu menino com quinze anos!

       Orgulhava-se Maria.

       Maria começou a articular uma maneira de providenciar o bolo. Durante o dia seria impossível, pois não existia tempo hábil. Pensou em fazer o bolo à noite, entretanto, contava com o recebimento de seu salário na empresa para providenciar o bolo e um presente para Rafael.

       Naquele dia, véspera do aniversário de Rafael, houve uma greve na empresa. Poucas pessoas conseguiram entrar para trabalhar. Dentre essas pessoas, Maria conseguira. Como haviam poucos funcionários para o trabalho, Maria teria de fazer um turno de doze horas para compensar a falta de vários funcionários devido à greve. Maria não poderia recusar. Precisava do emprego, mesmo sabendo que não iria receber seu salário naquele dia, pois a empresa estava com dificuldades financeira, por isso a greve. Maria tinha que trabalhar. Ligou para Dona Zilá dizendo que não poderia, naquele dia, executar os serviços. Dona Zilá compreendeu e ainda lhe desejou sorte. Maria se tranquilizou. Entretanto, durante o trabalho pesado daquele dia, lembrou-se do bilhete de Rafael: - Como vou fazer o bolo? Maria tentou de todas as maneiras possíveis: Ligou para alguns parentes, conversou com poucos amigos, mas ninguém lhe ofereceu vantagem em fazer o bolo. Maria então resolveu que, de alguma maneira, faria o bolo à noite em sua casa. Naquela noite Maria chegou muito tarde em casa. Além do turno puxado, teve ainda que fazer horas extras e quando chegou Rafael estava dormindo.

       Maria abriu a dispensa e verificou que lhe faltava vários ingredientes para que pudesse fazer o bolo. Cansada, pensou, pensou e acabou dormindo. No dia seguinte acordaria e explicaria a Rafael, mas quando acordou, Rafael já havia saído. Não era comum Rafael dormir antes de sua mãe chegar e nem sair de manhã, antes de abraçar sua mãe, mas Maria entendeu que por ser seu aniversário, teria alguma comemoração por parte dos amigos. Maria acordou se preparou e ao sair sentiu uma pontada no coração. Por alguns segundos sentiu uma falta de ar, mas logo passou e Maria se dirigiu ao trabalho. O dia estava corrido, muito trabalho, a greve ainda persistia e quando foi por volta das onze horas da manhã um carro de polícia estacionou na empresa em que Maria trabalhava:

       - Bom dia, estamos procurando por Maria da Conceição Santos, ela trabalha aqui?

       Indagou o soldado militar.

       Maria foi chamada numa sala, onde o soldado militar lhe comunicou, secamente:

       - Minha senhora, aconteceu um acidente. Houve um atropelamento na avenida principal e pelo que me consta, seu filho Rafael Miguel Santos foi atingido mortalmente por um carro de passeio, que se evadiu do local. Sinto muito.

       Maria não reagiu imediatamente. Ficou parada, de olhos arregalados, hipnotizada, esperando que as lágrimas caíssem de seu rosto. Alguns amigos do trabalho chegaram para poder consola-la.

       - Maria se desesperou quando lhe contaram.

       Estava segurando o bilhete. O bilhete do bolo de Rafael.

       - Meu Deus! Deve ter havido algum engano. Hoje é o aniversário de quinze anos do meu filho Rafael. Eu estou correndo pra lá e pra cá para fazer o bolo que ele me pediu. Olhem aqui o bilhete! Não me digam isso! Não pode ser!

       Foi difícil fazer acreditar Maria sobre o acontecido.

       - Meu filho! Eu quero meu filho!

       Maria chorou muito, se desesperou muito, e todos sentiram. Levaram-na até o hospital, mas no percurso até o necrotério se perderam de Maria. Todos pensaram que Maria poderia cometer uma loucura. Ficaram desesperados.

       De repente Maria adentrou no necrotério segurando um bolo em suas mãos e aos berros, dizia:

       - Meu filho, desculpe-me, perdão, eu só consegui o bolo agora, não partas antes de provar o seu bolo, a mãe trouxe com carinho, não vá embora meu filho, tome aqui o seu bolo!

       Foi difícil controlar Maria até o sepultamento do seu filho Rafael. Os dias se passaram. Maria foi acolhida na Fraternidade Cristo Redentor onde Rafael fazia cursos e ajudava a cuidar de crianças carentes. Ficou algum tempo sem trabalhar e aos cuidados da Fraternidade. Quando se recuperou não tinha mais os empregos que a sustentava. Os parentes sumiram e então Maria se fixou na Fraternidade Cristo redentor, onde cuidava de várias crianças. As crianças amavam a Tia Maria!

       Depois de alguns anos trabalhando na Fraternidade, cuidando de crianças abandonadas, durante um almoço, um menino bem pequenino cujo era chamado carinhosamente de “Tampinha” puxou o avental de Maria e disse-lhe:

       - Tia Maria, amanhã é o meu aniversário, você faz um bolo pra mim? Faz Tia Maria?

Maria ajoelhou-se e abraçou o pequenino Tampinha. Deu-lhe um longo beijo, chorou muito e viu as lagrimas também caindo do rosto de Tampinha:

       - Faço sim meu filho! A Tia vai lhe fazer um bolo bem bonito e gostoso e todos vamos cantar parabéns para você!

       E a festa de Tampinha foi muito bonita. No momento em que todas as crianças estavam cantando parabéns a você, Maria, ou Tia Maria foi apanhada num misto de tristeza e alegria e se surpreendeu ainda mais quando Tampinha lhe abraçou e beijou dizendo:


       -Tia Maria, eu te amo!

       A senhora é a minha Mãe!

TRECHO DO LIVRO:
BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS
TEXTO: FELIZ ANIVERSÁRIO!
AUTOR: ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

21 junho 2016

LIVRO - ANTES QUE TERMINE O DIA

Quando acordei naquela manhã a chuva fina caía e embaçava a janela lateral do quarto de dormir. As folhagens das árvores tremulavam com o vento e a sensação de frio intenso fazia com que me precavesse e me agasalhasse bem antes de sair de casa. A cólica forte persistia e eu tinha acabado de resolver ir ao pronto atendimento do hospital que ficava bem próximo de casa. À medida que eu movimentava meu corpo as cólicas aumentavam e era com se estivessem espetando meu abdômen. Eu estava com medo, pois todas as tentativas de remédios que eu havia ingerido nos últimos três dias não havia feito efeito nenhum.
Quando descia pelo elevador até chegar à garagem, pensei em retornar para a minha cama, pois meu corpo não conseguia ficar em pé. Minha boca estava seca e eu não tinha apetite algum, só bebia água, muita água e com isso a todo o momento sentia vontade de urinar.
Os vizinhos que viram meu estado no elevador sentiram-me estranho, mas percebia que ficaram receosos de perguntarem se eu estava bem. Na verdade a minha vontade era de gritar, pedir socorro, dizer que eu estava passando muito mal e até chorar, se fosse preciso, mas o meu orgulho impedia isso.
O dia estava apenas começando e antes que terminasse o dia, sentia que viriam muitas consequências graves em função do meu estado de saúde. Coração não é, pressão arterial também não, os níveis de glicose estavam sob controle... Todas essas certezas me aliviavam, pois eu tinha como medi-las com os equipamentos que eu tinha na minha casa.
Quando entrei no carro e comecei a dirigir rumo ao pronto atendimento, a dor cessou.
Pensei em voltar para casa, mas eu já estava no meio do caminho e resolvi continuar. Ao chegar no pronto atendimento a fila para passar pela recepção estava imensa e já existiam muitas pessoas aguardando os médicos começarem as consultas. Pelo semblante das pessoas, todos estavam com dores e alguns gemiam. Eu estava realmente me sentindo muito mal, porém, não me senti no direito de pedir para passar na frente de todas aquelas pessoas e lembrei-me que eu tinha ainda um último remédio que até então eu não tinha usado: A oração.
Pedi a Deus que me livrasse daquela dor insuportável, que me mantivesse em pé para conseguir agendar a minha consulta, que não me fizesse desistir e voltar para casa sem ser atendido.
Pela fisionomia das pessoas e pelo tempo que eu podia ver pela janela da sala de recepção do hospital, estava fazendo muito frio. Ouvia alguém na fila atrás de mim dizendo que estava fazendo dois graus centígrados. Mesmo assim, eu não parava constantemente de passar a mão em meu rosto para enxugar o suor, provocado pela dor.
Após conseguir passar pela recepção, consegui a senha 204, e que significava, realmente, que existiam 203 pessoas na minha frente para serem atendidas. Não havia lugar para se sentar. Encostei meu corpo numa coluna da parede da sala para poder me escorar e evitar uma queda, que por duas vezes pareceu inevitável. Quando finalmente consegui um lugar para me sentar, senti uma vontade imensa de ir ao banheiro.
Pensei que talvez fosse um problema intestinal que indo no banheiro eu melhoraria. Quando voltei, percebi que meu lugar ainda estava reservado, mesmo tendo várias pessoas ainda em pé. Foi então, vendo uma senhora com expressão de dor, fiz com que ela pudesse sentar-se no meu lugar. Ao sentar-se, aquela senhora olhou em meus olhos e percebi e até senti que fez uma força enorme para sorrir, para agradecer, mas não consegui em função do seu estado de saúde e naquele momento eu até esqueci da minha própria dor.
As horas foram se passando e eu acabei me acostumando com a dor. Acreditei que Deus havia atendido as minhas preces e finalmente eu tinha um remédio que fizesse efeito.
Depois de um tempo consegui me sentar bem ao fundo da sala e pude comparar o meu sofrimento com o sofrimento das outras pessoas. Na verdade, não existe sofrimento menor ou maior entre as pessoas. Existe o sofrimento. Ao sofrer, as pessoas precisam ter um alívio. Esse alívio, algumas vezes pode ser até mesmo a morte.
- Obrigado senhor!
Uma jovem menina veio me agradecer e eu, aparentemente não havia percebido o motivo.
- Obrigado por ceder o seu lugar para a minha avó! Ela ainda está em estado grave e acabou de ser internada.
Em minhas orações, não havia pedido a Deus o "remédio" só para mim. Pedia a todos enfermos que se encontravam naquela sala de emergências médicas.
- Vou continuar rezando para que sua avó logo melhore! Disse eu a menina que se encaminhava para a saída da sala de emergências. Existiam ainda cerca de dez pessoas na minha frente. Meu suor havia cessado, eu passei a sentir muito frio, principalmente dos pés e nas mãos.
A dor havia amenizado ou então, definitivamente, eu havia me acostumado com ela, mas me sentia fraco, principalmente se tivesse que ficar em pé ou tivesse que me deslocar andando. Finalmente chegaria a minha vez de ser atendido. Quando contei o meu histórico de dor para o médico ele logo fez um pedido de exame ao laboratório do hospital. Na primeira impressão ele constatou, apertando meu abdômen, que não existia uma lesão ou que houvesse algum rompimento, mas eu insistia na dor que estava sentindo haviam três dias. Imediatamente ele prescreveu para que uma enfermeira aplicasse uma injeção para aliviar a dor. Depois de alguns minutos eu não estava mais sentindo dor e aguardava pelos resultados dos exames, antes que terminasse o dia. Só pelo fato de não estar mais sentindo dor alguma, mudei até meu estado de espírito, mas ainda fiquei preocupado e ansioso pelo resultado do exame.
Fui transferido para uma sala de repouso, olhei pela janela lateral e o dia já estava começando a escurecer. O frio intenso fazia com que eu me encolhesse na poltrona confortável na qual haviam me colocado. Quando o relógio da sala de repouso cravava dezenove horas, chegou uma enfermeira segurando um envelope com o resultado do meu exame:
- O senhor contraiu uma virose muito intensa e que o seu organismo não conseguiu dissipá-la com os remédios tradicionais que foram ministrados. A injeção que o senhor tomou serviu apenas para aliviar as fortes dores que vinha sentindo e que as mesmas devem ser repetidas as doses por mais setenta e duas horas. Além disso, o senhor deve seguir a receita indicada pelo médico e tomar esse remédio a partir de hoje às vinte e três horas, seguindo as doses de oito em oito horas.
Sai do pronto atendimento mais aliviado e sem dor. Já se passavam das vinte horas e eu tinha que encontrar uma farmácia para tomar uma nova injeção para a dor não voltar e comprar o remédio que teria de tomar de oito em oito horas.
O frio parecia que tinha tirado todas as pessoas das ruas e o meu bairro estava mais parecendo uma cidade fantasma. Encostei o carro numa grande farmácia e por minha infelicidade não encontrei os remédios que tinha de comprar. Foi me sugerido então que caminhasse até outra farmácia que ficava a três quadras de onde eu estava. Resolvi deixar o carro onde estava e seguir a pé. No trajeto, passei em várias ruas em que não havia luz adequada. Eram lugares ermos. Num determinado recuo, mas bem próximo da calçada, ouvi um gemido. Virei-me na direção de onde vinha a queixa.
Era um homem enrolado num cobertor rasgado e sujo. Aproximei-me do homem de cabelos brancos, bem magro e todo sujo. Perguntei se ele estava com fome e ele me respondeu imediatamente que havia muito tempo que não sentia mais fome, mas que estava congelando de tanto frio.
Naquele instante fiquei sem reação momentânea, pois as situações estavam acontecendo muito rapidamente. Mas num ato em que não precisei raciocinar muito, tirei o paletó de lã que eu estava vestindo e cobri o homem. Mesmo assim, achei que não seria suficiente para que se aquecesse adequadamente, quando resolvi chamar a polícia para que aquele homem fosse encaminhado a um abrigo e fosse adequadamente atendido. A polícia não demorou a chegar. O tenente me comentou que já haviam recolhido várias vezes aquele homem ao abrigo, mas que sempre, no dia seguinte, ele como tantos outros voltavam para a rua novamente e que as autoridades não podiam obriga-los a ficar no abrigo. Mas, de qualquer forma, para a minha consciência, aquele homem não iria morrer de frio naquela noite. Ao voltar, a farmácia em que eu iria comprar meus remédios, como todas as outras, estavam fechadas. Voltei ao carro e retornei para minha casa. Pensei que no dia seguinte, bem cedo, eu poderia me levantar e comprar os remédios.
Quando cheguei em casa, tomei um banho bem quente, me agasalhei adequadamente e me deitei. O dia estava terminando quando me lembrei que o médico havia pedido para eu tomar a injeção e o remédio às vinte e três horas. Mas, já passavam das vinte e três horas, as farmácias estavam fechadas, eu já havia decidido que iria esperar amanhecer o dia para voltar à farmácia, mas eu não estava contando naquele momento que as dores iriam voltar como realmente voltaram e para piorar ainda mais a situação, lembrei-me que a receita com o nome genérico tanto do remédio, como da injeção, tinham ficado no bolso do paletó que havia doado ao mendigo.
Vivi mais uma noite de intensas dores. Fiquei com medo de voltar ao hospital e ainda levar uma tremenda bronca do médico por não seguir a risca as suas determinações. Pensei em procurar a enfermeira que havia me entregado o resultado dos exames e a receita, e assim me dirigi novamente ao pronto atendimento. No caminho, resolvi antes passar na primeira farmácia em que na noite anterior eu havia procurado os remédios. Na certa, se o mesmo farmacêutico estivesse lá, ele iria lembrar dos medicamentos que eu precisava.
- Ei você!
Alguém me chamou na rua.
Virei-me para o mesmo beco da noite anterior e me deparei com o mesmo senhor, mendigo, de cabelos brancos, vestindo meu ex-paletó de lã e bebendo um líquido branco que pela expressão facial que ele fazia, não parecia ser água:
- Toma aqui a sua "carta"! Estava no bolso do paletó de lã que você me deu ontem a noite!
Imediatamente comprei o remédio e recebi a aplicação da injeção, que me aliviou as dores e que depois de três dias fiquei totalmente curado. Quando sai da farmácia tive a disposição de questionar o mendigo do porque ele não havia ficado no abrigo, afinal, no abrigo ele dormiria numa cama, poderia tomar banho, cortar o cabelo, fazer a barba, ganharia roupas novas e remédios se necessário. Mas por que os indigentes não ficam nos abrigos mesmo no inverno? Mas, ao passar por ele, percebi que estava dormindo, vestido com meu paletó de lã e enrolado na mesma manta suja e surrada da noite anterior. Ao seu lado, dormia um cachorrinho, encolhido e enrolado num pedaço da manta surrada. Cheguei bem perto deles e pude perceber que dormiam sorrindo ele e o cachorro, isso mesmo, como se fossem pai e filho, irmãos ou amigos, juntos com o mesmo propósito de se livrarem do frio. Naquele instante eu também sorri.
Talvez no abrigo o homem não pudesse ter a mesma liberdade que tanto procurava, talvez não pudesse dormir ao lado de seu grande amigo... Talvez não pudesse sorrir da mesma maneira que eu estava sorrindo por ter me livrado da dor.
Nas semanas seguintes passei diariamente no local onde o homem e seu cachorro ficavam e sempre deixava algo que pudesse fazer com que se alimentassem, até que um dia não os vi mais naquele local, nunca mais.
TRECHO DE UM DOS CAPÍTULOS DO LIVRO

12 junho 2016

LIVRO - CANTARES E SALMOS

A Sulamita de Cânticos dos Cânticos é a personagem principal do livro. A referência a sua origem aparece em Ct 7,1. Segundo alguns estudiosos sua referência em Ct pode ser uma alusão à jovem sunamita escolhida para aquecer o Rei Davi em sua velhice, que é descrita como mulher jovem e formosa. A Sulamita de Ct é chamada de amada e é descrita como a mais formosa entre todas as mulheres, ou a mais bela das mulheres. Nas palavras da Sulamita, ela mesma se descreve como uma mulher morena e formosa. A alusão a sua cor morena foi fruto do trabalho, que seus irmãos a obrigaram fazer, ao guardar suas vinhas.  Mas o que importa no livro de Cânticos dos Cânticos não é apenas o físico, embora em Ct a descrição física da Sulamita seja uma das mais belas comparações feitas com alguns dos elementos mais bonitos encontrados na natureza. O importante que é preciso ressaltar é sua coragem e a fidelidade ao amado. Ela não se deixa aprisionar pelas convenções da época e sai em busca do amado, e o procura incessantemente. A sua fidelidade ao amado faz dessa mulher um modelo de esposa companheira, que dá livremente seu amor ao amado. Amor esse que é recíproco.>>>>> PREFÁCIO DO LIVRO

11 junho 2016

LIVRO - PECADO ORIGINAL

Pecado Original” refere-se ao pecado de Adão em comer da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e seus efeitos sobre o resto da raça humana desde então, principalmente seus efeitos em nossa natureza e nosso relacionamento com Deus, até mesmo antes de termos idade suficiente para cometer pecado conscientemente. Veja a seguir as três opiniões diferentes que tentam explicam seu efeito: Pelagianismo: O pecado de Adão não teve nenhuma influência sobre as almas de seus descendentes além de, através de seu exemplo pecaminoso, encorajar outras pessoas a também pecar. De acordo com essa opinião, o homem tem a habilidade de parar de pecar se ele quisesse. Esse ensino vai de encontro a várias passagens que ensinam que o homem é um escravo do pecado (quando longe da intervenção de Deus) e que suas boas obras são “mortas”, quer dizer, sem nenhum valor para ganhar o favor de Deus (Efésios 2:1-2; Mateus 15:18-19; Romanos 7:23; Hebreus 6:1; 9:14). Arminianismo: Os arminianos acreditam que o pecado de Adão resultou no resto da humanidade herdando uma tendência a pecar chamada de “natureza pecaminosa”. Essa natureza pecaminosa nos leva a pecar da mesma forma que a natureza de um gato o leva a miar – ocorre naturalmente. De acordo com essa opinião, o homem não pode parar de pecar sozinho, por isso Deus dá uma graça universal, a qual o capacita a parar. Essa graça é chamada de graça preveniente. Também de acordo com essa opinião, não somos responsáveis pelo pecado de Adão, apenas os nossos. Esse ensinamento vai de encontro ao tempo verbal escolhido para “...todos pecaram” em Romanos 5:12 e também ignora o fato de que todos sofrem a punição do pecado (morte) mesmo quando não pecaram de uma forma semelhante à de Adão (1 Coríntios 15:22; Romanos 5:14-15,18). Além disso, a Bíblia não ensina em lugar nenhum a doutrina de graça preveniente. Calvinismo: O pecado de Adão resultou não só na nossa natureza pecaminosa, mas também em culpa diante de Deus, pelas quais merecemos punição. Ser concebido com o pecado original sobre nós (Salmos 51:5) resulta em nós herdando uma natureza pecaminosa tão perversa que Jeremias 17:9 descreve o coração humano como “enganoso ... mais do que todas as coisas, e perverso”. Adão foi não só culpado por causa do seu pecado, mas sua culpa e punição (morte) pertencem a nós também (Romanos 5:12,19). Há duas opiniões sobre por que Deus deve enxergar a culpa de Adão como pertencente a nós também. A primeira afirma que a raça humana fazia parte de Adão em forma de semente; portanto, quando Adão pecou, pecamos nele. Isso é semelhante ao ensino Bíblico de que Levi (um descendente de Abraão) pagou dízimos a Melquisedeque em Abraão (Gênesis 14:20; Hebreus 7:4-9), apesar de que Levi não nasceu até centenas de anos mais tarde. A outra opinião é de que Adão serviu como nosso representante e como tal, quando ele pecou, tornamo-nos culpados também. A opinião Calvinista enxerga o homem como incapaz de ter vitória sobre o seu pecado, exceto sob o poder do Espírito Santo. Esse poder só é possuído quando alguém arrepende-se do seu pecado e vira-se para Cristo em total dependência dEle e Seu sacrifício expiatório na cruz. Um problema com essa opinião é como explicar como bebês e aqueles que são incapazes de cometer pecado de forma consciente são salvos (2 Samuel 12:23; Mateus 18:3; 19:14), já que eles também são responsáveis pelo pecado de Adão. Millard Erickson, autor de Teologia Cristã, acha que essa dificuldade é resolvida da seguinte maneira: “Há uma posição (opinião) que….preserva o paralelismo entre nós aceitando o trabalho de Cristo e o de Adão (Romanos 5:12-21), e ao mesmo tempo destaca de forma mais clara nossa responsabilidade pelo primeiro pecado. Somos responsáveis e culpados quando aceitamos ou aprovamos a nossa natureza corrupta. Há um momento na vida de cada um de nós quando nos tornamos cientes de nossa própria tendência a pecar. Naquele ponto, podemos abominar a natureza pecaminosa que tem estado presente todo aquele tempo.... e arrepender-nos dela. Pelo menos haveria uma rejeição do nosso pecado. Mas se submeter-nos à natureza pecaminosa, estamos na verdade dizendo que ela é boa. Ao estabelecer nossa aprovação de uma forma tácita da corrupção, estamos também aprovando ou concordando com a ação no Jardim do Edén de tanto tempo atrás. Tornamo-nos culpados daquele pecado sem termos ainda cometido um pecado próprio”. A opinião Calvinista do pecado original é a mais consistente com o que a Bíblia ensina e “pecado original” pode ser definido como “aquele pecado e sua culpa que todos nós possuímos aos olhos de Deus como resultado direto do pecado de Adão no Jardim do Éden”.
PREFÁCIO DO LIVRO

LIVRO - A ESCOLHA

A reencarnação, um dos princípios básicos do Espiritismo, é, ao mesmo tempo, fator explicativo para as diferenças que atingem as pessoas no contexto social, bem como esperança diante dos desafios que a vida terrena oferece. Tem por finalidade desenvolver a inteligência e é uma oportunidade de prova, expiação ou missão. Sobretudo, ela leva ao progresso espiritual e à participação na obra da criação. Tudo começa com um estado de transição, em que o espírito passa por um momento de e perturbação e perda gradativa da consciência de si mesmo. Este é um estágio preparatório para o nascimento. A infância, que vai do nascimento à puberdade, é um período de repouso do espírito, que nessa fase está mais acessível às impressões que recebe. Para os pais esse é o momento de imprimir conceitos e orientações capazes de auxiliarem o adiantamento deste que se lhe apresenta como filho ou filha. O diálogo é insubstituível no processo educativo. E a par da educação do corpo é fundamental educar a alma. Esse período exige muito dos pais diante do compromisso aceito na espiritualidade de receber filhos na Terra. Embora a criança apresente, geralmente, um estado de inocência e de fragilidade, é um espírito necessitado de orientação e amparo. Não se veem crianças dotadas dos piores instintos? Donde provirão instintos tão diversos em crianças da mesma idade, educadas em condições idênticas e sujeitas às mesmas influências? A infância representa um período acessível aos conselhos. A delicadeza da idade infantil torna a criança branda e receptiva aos conselhos da experiência dos pais. É um período em que se pode reformar e reprimir os maus pendores. Tal o dever que Deus impôs aos pais, missão sagrada de que terão de prestar contas. A reencarnação atesta a justiça divina oferecendo oportunidade de encontros e reencontros educativos através dos quais se cumpre a lei de causa e efeito e, sobretudo, é o caminho que leva a Deus.
PREFÁCIO DO LIVRO

LIVRO - VIVER DE NOVO - REENCARNAR



A Doutrina Espírita trabalha atualmente com a hipótese de que o processo reencarnatório envolve conceitos de missão, provação, expiação e karma. 
Vale ressaltar que no entendimento atual da Doutrina, os processos reencarnatórios apresentam facetas desses quatro conceitos, mas que algumas reencarnações podem apresentar o predomínio de algumas dessas características. Eles não são consequência de uma interferência ou controle externo ao espírito reencarnante, descartando-se portanto qualquer ideia de castigo, punição ou recompensa. Eles são decorrentes da lei de causa e efeito e das condições de equilíbrio e harmonia do espírito. Missão é a situação na qual o espírito reencarnante aplica conhecimentos internalizados a favor de uma pessoa ou do grupo de sua convivência. Provação é a situação na qual o conhecimento em processo de acomodação e internalização deve ser vivenciado; é a situação na qual o espírito é desafiado ao limite de seu conhecimento. Expiação não se refere à aplicação de conhecimento, mas, sim, a uma consequência de um conhecimento aplicado, que provocou consequências difíceis, desagradáveis, muitas vezes dolorosas, que o seu responsável deverá enfrentar. Carma ainda é um conceito útil dentro da concepção da Doutrina, desde que se esteja atento para o seu significado, diverso do de outras Doutrinas. Para o Espiritismo, carma caracteriza a situação na qual o espírito está enfrentando as consequências de atos seus que lhe provocaram um desequilíbrio muito intenso, tanto em qualidade como em quantidade, e que, pela sua intensidade, o espírito poderá levar toda uma encarnação, ou mais de uma, para recuperar seu equilíbrio. A pessoa em desequilíbrio estará sempre em recuperação tanto pela sua reação própria como pela ajuda de outras pessoas (curar, aliviar, consolar; conhecimento técnico, moral e afetivo). O que varia é apenas o tempo necessário para que o equilíbrio seja novamente retomado. É importante frisar que as dificuldades que o espírito encarnado encontra em seu cotidiano muitas vezes não são explicadas pela reencarnação. Reencarnação não explica tudo. Há muitas situações de desequilíbrio causadas em sua encarnação atual.
TRECHO DO LIVRO