03 setembro 2016

ALGUMAS CRÔNICAS - VOL. II

Miguel, um adolescente que ficava fazendo malabarismo no cruzamento de duas importantes avenidas da cidade. Usava latas de leite e laranjas e ganhava uns trocados para que pudesse almoçar e jantar, matar sua fome, pois não tinha casa, vivia na rua depois que o pai morreu assassinado e a mãe ele nem sabia dizer, mas que estava perdida no mundo das drogas. Quando chegava o inverno, o menino se refugiava nos abrigos para não morrer de frio na rua. Miguel era um rapaz de fisionomia triste e além disso enfrentava o preconceito de ser um morador de rua, mas acreditou que sua vida poderia melhorar quando aquele circo se instalou perto das avenidas onde ele ficava. Miguel acompanhou toda a montagem do circo: Da armação até lançarem a lona e um painel luminoso com o nome do circo. Ficou assustado quando viu os animais, sendo alguns só ter visto na televisão. Quando tudo ficou pronto, Miguel se imaginou trabalhando no circo, fazendo seus malabarismos e entretendo o público!    - Respeitável público! Com vocês o malabarista Miguel!
    Miguel chegou a sonhar com isso, a ser anunciado para um espetáculo circense, onde pudesse mostrar o seu trabalho. Naquela tarde de feriado, Miguel não havia conseguido os trocados necessários se alimentar. Resolveu que iria pedir a alguém que pudesse ajudá-lo a matar sua fome. À sua frente um enorme painel com letreiros luminosos chamando o público para o espetáculo circense da sessão das oito. Com os poucos trocados que havia conseguido, não dava para comprar o ingresso. O público começou a chegar para o espetáculo e as arquibancadas do circo começaram a lotar. Miguel ficou próximo à bilheteria com alguns trocados na mão, imaginado como conseguiria comprar seu ticket. Inesperadamente, surgiu ao seu lado uma linda garota. Miguel ficou sem jeito. Pensou que mais uma vez seria discriminado e abaixou a cabeça:
    - Por que ages assim meu rapaz?
    Miguel não respondeu. Ficou envergonhado.
    - Queres assistir ao espetáculo?
    Miguel respondeu que sim e ameaçou um sorriso.
    - Venha como!
    A garota pegou na mão de Miguel e juntos passaram pela bilheteria e entraram sem pagar. A garota, de nome Serena, era trabalhava no circo como trapezista e naquela noite não participaria do espetáculo, pois estava se curando de uma lesão na perna. Serena ficou ao lado de Miguel durante todo o tempo do espetáculo. Comeram cachorro quente juntos, se divertiram com o espetáculo é no final, mesmo gaguejando, Miguel agradeceu timidamente, até escorrer uma lágrima dos olhos ainda vibrantes pelo espetáculo que acabara de ter assistido.
    - Qual o seu sonho? Perguntou Serena a Miguel.
    - Eu sou malabarista. Moro na rua, fico fazendo meus números no cruzamento e ganho alguns trocados para sobreviver.
Serena se sensibilizou com a sinceridade de Miguel e pediu que no dia seguinte ele viesse bem cedo ao circo, pois tentaria encaixa-lo num número de malabarista! Miguel agradeceu mais uma vez a Serena e saiu correndo, pulando de alegria pela oportunidade de trabalho que poderia surgir em sua vida. Naquela noite nem dormiu. Tentou uma vaga do abrigo, pois estava frio. Como não conseguiu, ficou vagando pelas ruas, treinando com seus malabares para que ao amanhecer pudesse voltar ao circo preparado para demonstrar suas habilidades. E quando a manhã chegou, Serena o esperava no circo. Miguel estava faminto e Serena percebeu. Antes da entrevista com o gerente, Serena serviu-lhe leite com café e pão com manteiga. Emprestou-lhe um agasalho e assim Miguel se deparou com o gerente:
    - O que você sabe fazer meu rapaz?
    - Eu faço malabarismo!
    Miguel demonstrou suas habilidades para convencer o gerente a contratá-lo. Enquanto fazia sua demonstração, via Serena em cima do trapézio, ensaiando seu número para o espetáculo da noite, quando foi surpreendido com um pedido do gerente: - Meu rapaz, vejo que você tem boas habilidades, mas queria lhe fazer uma contra proposta: Você aceitaria ensaiar um número para participar do espetáculo como palhaço?
    Miguel não pensou duas vezes. Miguel nunca tinha trabalhado como palhaço, mas não importava. O que ele precisava era de uma chance, nem que fosse para colocar a cabeça dentro da boca do leão.
    Serena viu de longe a felicidade de Miguel:
    - Quando você pode começar a ensaiar?
    Miguel respondeu que podia começar imediatamente e assim foi feito. Por ironia do destino, existia outros dois palhaços no circo, mas não faziam as pessoas rirem e Miguel percebeu que teria que ser criativo, mostrar algo novo e principalmente fazer as pessoas rirem.
    E chegou o grande dia!
    - Respeitável público!  Com vocês o palhaço carequinha!
    Miguel entrou em cena. Logo de início tropeçou e caiu fazendo o público rir, ainda mais com a ilustração de uma explosão de bomba e suas calças caindo, mostrando a ceroula de bolinhas. Fazia uma voz característica de criança, imitava animais e fazia brincadeiras com a plateia. O público morreu de rir, principalmente as crianças que tinham medo dos outros palhaços. Em cada olhar que Miguel via na plateia, lembrava-se daqueles que o questionavam na vida e foi como se Miguel estivesse dando uma resposta: Eu sou capaz! O espetáculo foi um sucesso! Miguel começou a trabalhar efetivamente no circo: Tinha um lugar para morar, um quarto para dormir, refeição quando quisesse e ainda tinha um salário. Viajou o mundo com o circo, casou-se com Serena e viveram felizes para sempre! - Às vezes, o que precisamos na vida é só uma oportunidade, mesmo que essa oportunidade seja completamente diferente daquilo que você está acostumado a fazer. Temos que ser sempre criativos! A vida é criativa! "Ainda que eu andasse só e desencorajado da minha vida em descompasso, não pagarei de Palhaço, mesmo caído no chão. Fugiu de mim toda alegria, sobraram tristezas, mágoas – Agonia. Não vou ficar na tua mira – Bala de Canhão. Estive sorrindo de desgosto, veja as marcas do meu rosto, pintadas de solidão. E quando a minha mágoa passar [vai passar],  mudarei o meu semblante e nada mais será como antes. Vida de desgosto, eu te mandarei um terno abraço, agora sim - Eu sou Palhaço! Eu voltei a sorrir.”
TRECHO DO LIVRO

29 agosto 2016

LIVRO - O QUE É O AMOR?

RAIN

    Da janela do meu quarto conseguia avistar a rua e a varanda da casa de Olivia. Sempre me arrumava com antecedência, vestia o uniforme para ir à escola e ficava esperando o momento certo de sair de casa para poder dar de cara com Olivia. Olivia Rain era muito orgulhosa. Sabia quem eu era, estudávamos na mesma classe, os nossos pais se conheciam e se davam bem, mas era difícil conseguir tirar um sorriso ou um boa tarde de Olivia.  Talvez porque seu pai não gostava que a gente jogava futebol na rua, em frente sua casa, e que às vezes tinham a desagradável surpresa de ver nossa bola de futebol cair em seu jardim. Quando eu chegava na rua, Olivia saía de casa e eu a acompanhava - ela de um lado e eu de outro. Ela sabia que eu estava ali, praticamente seguindo-a, como se eu fosse seu guarda costa. No meio do caminho encontrávamos outros amigos e conhecidos, uniformizados, que também caminhavam em direção ao colégio e daí, me perdia de Olivia e só íamos nos encontrar dentro da sala de aula. A Sra. Rain dizia a minha mãe que era para eu ficar de olho em Olivia, principalmente na volta do colégio, quando as ruas ficavam na penumbra. Eu obedecia, mas, apesar de tentar puxar conversa, para Olivia era como se eu não existisse. Olivia sempre foi linda! Sem uniforme, quando soltava os cabelos e vestia a calça rancheira apertada, deslumbrava e causava furor. Por ser filha única, sempre foi mimada pelos pais, Sr. e Sra. Rain. Melhor aluna da classe, tinha o apelido de nariz empinado, pois escolhia a dedo os amigos e não sentava no fundão da sala de aula. Mas, às vezes julgamos as pessoas sem conhecê-las direito e quando realmente conhecemos temos uma surpresa e foi essa surpresa que eu procurava encontrar em Olivia. Uma surpresa agradável! O inverno chegou e a chuva também. Teríamos aulas de reposição. Tínhamos que ir ao colégio todos os dias e praticamente não tivemos férias. Certo dia amanheceu chuvoso e frio, justamente no dia do exame de matemática. Naquele dia foi difícil pular da cama - avancei a madrugada estudando, pois precisa tirar uma boa nota no exame. Me atrasei ao me arrumar, olhei pela janela e não vi Olivia e pensei que talvez alguém havia levado-a ao colégio devido a chuva.
    - Tchau mãe!
    - Tchau filho!  Pegou o guarda chuva?
    - Sim, peguei o guarda chuva do papai!
    O guarda chuva do meu pai era bem grande e debaixo dele nunca iria me molhar. Tinha que chegar logo no colégio, pois o Seu Alcides, professor de matemática, não tolerava atrasos. Subi as escadas em direção à rua e me deparei com uma chuva forte. Abri o guarda chuva e para minha surpresa, avistei Olivia na varanda de sua casa, parada, olhando para o céu, esperando a chuva passar para poder sair. Percebi que estava aflita, pois não poderíamos chegar atrasados. Percebi que minha chance havia chegado. Olivia não tinha outra opção, somente a proteção do meu guarda chuva.
    - Vamos Olivia, senão chegaremos atrasados para o exame de matemática!
    Olivia saiu correndo da varanda, desceu as escadas em direção à rua e fiquei esperando ela chegar, como uma princesa que vem aos braços de seu príncipe encantado. Caminhamos em direção ao colégio quando a chuva apertou novamente.
    Apesar do guarda chuva gigante, a chuva molhava meu ombro, quando Olivia me disse:
    - Me abraça senão você vai se molhar!
Me senti nas nuvens abraçando Olivia, sentir seu corpo colado ao meu e seu perfume tinha o cheio das rosas do jardim da Sra. Rain. Fiquei tão emocionado de abraçar Olivia que nem sabia o que dizer. Ela sorria com a situação é aquilo foi bom, melhor ainda quando ela me chamou pelo nome e disse:
    - Não sei o que seria de mim se não fosse você.
Ela me agradecia muito, enquanto apertava meu corpo e eu concluía que ela não era tão orgulhosa.
    Olivia era um amor de garota! Chegamos ao colégio faltando poucos minutos para começar o exame. Sentamos um ao lado do outro. Tirei um lenço branco que minha mãe sempre colocava no bolso de trás da minha calça de uniforme e dei para Olivia se secar dos respingos da chuva.
    - Ela sorriu pra mim novamente e eu até deixei de lado o nervosismo que sempre tinha quando fazia o exame de matemática.
    Parecia um sonho! Um sonho real por assim dizer, mas eu tinha que me ater ao pesadelo do exame de matemática, que estava muito difícil e eu precisava tirar uma boa nota.
    Depois de uma hora, vi quando Olivia se levantou. Ela havia terminado o exame. Eu continuei quebrando a cabeça para resolver os exercícios de matemática.  Olhei para o céu pela janela da sala de aula e vi que ainda estava chovendo e o dia escurecendo. Naquele instante não poderia ficar pensando em Olivia e tratei de me concentrar no exame.
    - Faltam dez minutos!
O professor Alcides parecia um cientista maluco e sua voz sarcástica dizendo que o tempo do exame estava se esgotando serviu para todos se apressarem. O exame estava muito difícil, mas senti que poderia alcançar a nota que precisava. Eu tinha estudado muito e fiquei tranquilo.
    Ao sair do colégio, olhei para o céu e vi que a chuva caia ainda mais forte. - Onde estaria Olivia?
Talvez a Sra. Rain tenha vindo buscá-la ou teria ido de carona no guarda chuva de algum colega.
    Sai despreocupado e sozinho. Pulei algumas poças d´água que se acumulavam na rua, quando ouvi uma voz doce me chamando: - Posso ir com você?
    Era Olivia. Estava debaixo do toldo da papelaria que ficava próxima ao colégio: - Vamos Olivia!
    Novamente lá estava eu, abraçado à minha amada, sentindo seu corpo e seu cheiro, debaixo do guarda chuva que eu havia pegado emprestado do meu pai e que fazia com que pudesse proteger Olivia das águas da chuva que eu nunca imaginava que sentiria alegria por tanta enxurrada.
    - Eu não consigo pular!
    Existia uma grande poça d´água à nossa frente. Eu já estava com os pés todo molhado e meu sapato já tinha ido pro saco. Oliva nunca conseguiria pular aquela poça.
    Delicada, delicadíssima como uma pétala de rosa, Olivia não conseguiria pular. Pensei rapidamente numa solução, pois não poderíamos ficar ali parado, já era tarde e a chuva não cessava. Foi então que pedi para Olivia segurar o guarda chuva. Peguei-a no colo e passei por dentro da poça d´água, sem importar em me molhar, sem importar em perder o meu sapato... O importante foi que o meu amor estava no meu colo, doce como a suavidade de seu rosto colado junto ao meu e pelo brilho de seus olhos coloridos olhando aos meus.

    Transportamos a poça d´água, senti que não existiria mais nenhuma barreira entre os nossos corações e fomos premiados por um longo beijo que me fez sentir o gosto do mel da boca de Olivia, o grande amor da minha vida. E quando a chuva passou, as rosas do jardim da Sra. Rain brotaram novamente e emanadas pelos raios de sol, se confundiram com a beleza de Olivia, a rosa mais bela do meu jardim.
TRECHO DO LIVRO 

27 agosto 2016

LIVRO - AMÉM !



AMOR DE LUZ

    Quando o amor existe de verdade, existem ao menos dois corações e quando um dos corações para de bater, as lágrimas caem como se fossem correntezas sem fim e sem destino. Imagine só você estar hoje abraçado com quem ama, sentindo o calor do corpo e a sutileza da alma e amanhã, sem mais nem menos, o seu grande amor desaparece. Não falo apenas do amor sentimento, falo e digo sobre o amor caridade, bondade, amizade e felicidade.
     Disse a Deus que se você fosse embora eu iria te buscar seja onde fosse e não mediria esforços para te encontrar. Você se foi. Eu me desesperei. Senti vontade de ir embora para sempre, mas prometi a Deus que iria te encontrar e assim congelei meu coração, fiz as malas sem a minha felicidade e parti, sem rumo, mas sabia que se percorresse a escuridão, na hora certa, viria uma luz para iluminar meu caminho e te encontrar.
     Não é fácil vencer obstáculos, ainda mais quando não se tem amor para compensar a infelicidade da saudade, quando não se tem ninguém ao lado para ajudar quando a recaída chega, e chega impiedosamente que as lágrimas secam com a agonia e ao invés do corpo é a alma que se desconstrói, corrói, aniquila, até apagar da memória os momentos em que se podia sorrir, se podia amar sem se queixar, sem se preocupar que no dia seguinte tudo poderia se acabar. Valer a pena!
     Num dia tive um sonho terrível. Sonhei que as estrela, uma a uma, estavam se apagando. Neste sonho eu tinha a possibilidade de voar, mas estava sem rumo.
     - De que adianta ter asas, saber voar, se não consigo te encontrar para te levar, seja para algum lugar, onde podemos chegar?
     - Não posso seguir sozinho, preciso te encontrar, pois o meu coração não bate sem ter quem eu ame ao meu lado, sem poder beijar quem me faz falta.
     Perguntei a Deus se deveria esperar você chegar, Ele não respondeu... Rezei sem perder a fé até que tudo se apagou e desapareci.
     - Você tem que passar pelas pedras, pelos obstáculos que estarão em seu caminho!
     O caminho foi longo. Despedacei minhas asas e segui pela estrada somente com uma arma: A minha fé.
     - De que adianta eu saber voar se não existe um céu no meu olhar?
     Sabia que Deus nunca iria me abandonar, mas sentia que teria que ter a iniciativa, lutar sem me desesperar e foi então que encontrei o caminho, encontrei a estrada certa e segui sem olhar para trás.
     No inicio as pedras que estavam diante de mim eram pequenas, não me causavam dor e foi fácil transportá-las para o lado ruim, para nunca mais voltarem. Mas eu tinha que provar a Deus que a minha fé era mais forte e firme que a maior das pedras que pudesse encontrar.
     Eu sentia que existia uma luz dentro de mim e toda vez que orava a Deus ela brilhava e me indicava o caminho a percorrer. Mesmo em grandes distâncias ela iluminava o meu caminho.
     Entendi que mesmo quando a escuridão habitava em meu caminho, um farol se ergueria e a luz se faria em meu ser, como se fosse a sintonia maior entre eu e Deus, amor provido de proteção, fé, esperança e perseverança.
     Quando foi inevitável deixar de chorar, não consegui encontrar um antídoto para a saudade. Quando a saudade vem, o coração se comprime, bate descompassadamente e os obstáculos que encontramos no caminho são difíceis de transpor.
     - Se quiser desistir, você pode voltar de onde estiver. Você não será considerado um fraco ou desvalido, apenas não terá a oportunidade de saber até onde pode chegar seu amor.
     Prometi ao meu amor que só desistiria quando cessasse a minha vida e em minhas orações sempre pedi a Deus para não esgotar as minhas forças. Eu só sentiria vontade de morrer se fosse para te encontrar e de alguma maneira te abraçar e te beijar, como sempre em nossas vidas.
     - Deus, o meu amor está aflita para que eu chegue logo. Essa estrada nunca termina. Já venci muitos obstáculos, as pedras que me atingiram deixaram chagas em meu corpo, mas não feriram a minha alma.
     Estou em pé e preciso do meu amor. Deus meu, pai celestial, traga o meu amor de volta e faça a minha dor desaparecer!
     - Volte meu amor! Volte!
     A minha vida é como um rio e vou aproveita-la cada dia. Agora estou sozinho, sem rumo numa estrada sem fim, mas o tempo vai passar rápido demais e Deus vai trazer o meu amor de volta.
     - Oh meu Senhor! Meu Deus... Traga o meu amor de volta e a minha dor desaparecerá para sempre!
     Não espere mais Senhor, traga o meu amor de volta e faça a minha dor desaparecer... Meu amor, se eu pudesse fazer você voltar te diria uma só palavra: Eu te amo!
     Entre luzes que iluminam estradas e paisagens com cores de arco-íris, reviveremos todos os nossos sonhos e os momentos de ternura que a vida nos proporcionou e que ainda vai nos proporcionar para a eternidade. Não ficarei mais um só segundo sem abraçar você, sem segurar a sua mão quando você tiver medo, e vou te fazer dormir quando você estiver com medo dos trovões e das tempestades.
     Mar de risos e ouro dos céus: Ali viverei cada dia da minha vida! Quando o amor está longe, o tempo não faz planos e peço: Oh meu Senhor! Meu Deus! Traga o meu amor de volta e faça a minha dor desaparecer. Se pudesse te pedir o presente que quisesse, tenho certeza do que pediria e sei que isso ainda levaria um bom tempo para Deus me oferecer. Deus vai me oferecer! O meu presente, Deus ainda vai me oferecer.
    Entre estradas escuras e rastros sem saída, ainda tenho a luz e não vou ter medo da escuridão.
    - Quando a tempestade chegou, fechei os olhos para espantar o medo dos raios e trovoadas, mas lembrei-me que existia uma luz dentro de mim para conduzir os meus passos. Toda vez que oro a Deus, ela brilha, brilha, mais e mais... Mesmo quando há escuridão, Deus habitará na luz do meu ser e um farol se erguerá e a luz se fará dentro de mim...
    O farol vai me ajudar a te encontrar, e não há tão linda luz quanto poder ser salvo pelo Senhor meu Deus e não ter medo das chuvas, das tempestades, do rio de águas escusas, do mar de ondas gigantescas que invadem e inundam a estrada, pois estou muito perto de encontrar o meu amor.
    Se eu tiver que enfrentar as ondas ou correntezas sem ao menos ter como remar para fugir da bravura das águas, não vou desistir de te encontrar, não temerei mal nenhum e caso me afogue, Deus virá me buscar...
     Ele andará sobre as águas...
     Andará comigo sobre o mar.
     Amém!
TRECHO DO LIVRO

17 julho 2016

LIVRO - EM NOME DO PAI

Ainda menino, espelhava em tudo que meu pai fazia. Também tinha vontade de acordar bem cedo e sair para trabalhar como ele, mas eu tinha que atingir outros objetivos, como por exemplo, estudar.  Com apenas sete anos, muito novo para entender a vida na parte de ser um pai de família, como meu pai dizia que era. Costumava deixar alguns bilhetes debaixo do travesseiro do meu pai, pedindo para ele me acordar às quatro horas da manhã e me levar para a feira. Eu sei que ele lia os bilhetes, mas não tinha coragem de me acordar tão cedo, mesmo nos finais de semana ou nas férias escolares. 
       Num determinado domingo, depois de muitas tentativas, consegui acordar às quatro horas da manhã, no momento em que meu pai estava se preparando para sair. Estava muito frio naquela madrugada. Enquanto meu pai preparava o café, me arrumava, colocando todas as blusas que tinha, pois fazia muito, muito frio. 
       No rádio que funcionava à válvulas e ficava na cozinha, o Zé Bétio disse naquele dia que estava fazendo sete graus e que a temperatura iria cair ainda mais. Pensei em pegar uma blusa do meu irmão para garantir, mas na hora certa, desisti. 
        Nunca fui de tomar café, mas naquela ocasião achei que era uma boa ideia. 
O que você está fazendo acordado a essa hora moleque? 
       - Eu vou com você pai! 
       - Volta pra cama rapaz. Tá muito frio! 
       - Mas eu quero ir com você! 
       - Hoje não. Outro dia eu te levo! 
O frio foi uma boa desculpa e meu pai acabou me convencendo. Será que todas as madrugadas eram geladas como aquela? 
        - O que você está fazendo acordado há essa hora menino? 
       Era minha mãe.  Acabei levando a maior bronca enquanto pela janela via meu pai subindo as escadas em direção à rua. 
       Daquela vez eu quase fui com ele, mas eu não iria desistir. Quem sabe no próximo verão! Pensei. 
       Sempre tive medo de ir mal na escola, tirar notas baixas, pois assim, além de ser repreendido pelos meus pais, ficaria muito difícil fazer minhas reinvidicações. Percebia que com sete anos não tinha direito a nada, e na verdade não tinha mesmo. Meus pais estavam certos: Minha maior preocupação deveria ser os estudos para que no futuro pudesse me especializar em alguma profissão e prosperar. 
       Mas, o meu espelho foi sempre meu pai e queria ser como ele. O tempo passou e continuei bem na escola. Com dez anos, resolvi fazer mais uma tentativa. 
       Meu pai queria que eu fosse jogador de futebol e eu queria ser o meu pai. Até que fui um bom jogador. Jogava bem com os meninos da minha idade, mas não tinha como me inscrever em algum clube, pois exigiam a presença do pai ou da mãe, e meus pais não tinham como me acompanhar. 
       Quando chegou o natal, havia completado onze anos de idade. Na véspera, por volta da hora do almoço, estava jogando futebol na rua com alguns amigos quando estacionou um caminhão na porta de casa. Em meio a muitas buzinas, vi meu pai acenando. 
       Finalmente ele havia conseguido comprar um caminhão de carroceria para poder trabalhar na feira.  Até então ela pagava aluguel para um amigo transportar as mercadorias. 
Ele estava muito contente e todos ficaram também.  
        - Vamos dar uma volta! Chamou! 
Meu pai não sabia a dor de cabeça que estava arrumando, pois tanto eu como meu irmão queríamos guiar o caminhão. 
       - Pai! Agora você pode me levar na feira! Eu posso ficar na carroceria e se estiver frio eu me enrolo na lona! 
Meu pai prometeu que passando o natal ele me levaria na feira, e meu irmão também! 
       As festas de final de ano se passaram. 
       - E viva o verão! 
       Janeiro chegou e comecei a cobra-lo.
      Certa vez ele me chamou por volta das cinco e meia da manhã.  Acordei e escutei-o dizendo: 
       - Vamos moleque! 
O problema foi que meu pai chamava só uma vez. Se conseguisse acordar tudo bem, senão... Assim, muitas vezes ele me chamou, mas não conseguia acordar. Não estava acostumado acordar cedo. Eu estudava no vespertino e acordar cego sempre foi um sacrifício. 
       Às vezes cinseguia acordar e ouvia ele me chamando, mas num piscar de olhos eu dormia de novo. 
      Tentei fazer com que minha mãe me chamasse, mas ela achava que nos éramos muito pequenos para acordar cedo e fazer o trabalho passado, pois trabalhar de feirante exigia muita disposição física. Mas existe um ditado que diz que os sonhos existem para virarem realidade. 
        - Acorda! Acorda! 
        - Humm... 
        - Acorda logo! O pai já vai sair! 
Era meu irmão. Ele conseguiu acordar às cinco da manhã e enquanto meu pai estava no banheiro fazendo a barba, meu irmão veio me acordar. 
          - Anda logo dorminhoco e não faz barulho senão a mãe vai acordar! 
O plano do meu irmão deu certo. Ele acordou no horário e me chamou. Trocamos de roupa rapidinho, não estava fazendo frio – graças a Deus, e corremos para o caminhão que ficava estacionado na porta de casa. 
       Meu pai nem percebeu que subimos na carroceria e nos escondemos no meio dos sacos de batatas e nos enrolamos na lona que as cobriam. Meu pai saiu de casa vinte minutos depois que nos escondemos na carroceria do caminhão. 
       Entrou assoviando as músicas caipiras que ele ouvia no programa do Zé Bétio, ligou o caminhão e partiu rumo à feira. 
         - Onde vai ser a feira hoje? 
         - Na estrada de Santos. Respondeu meu irmão. 
         - Como você sabe? 
         - Não enche o saco! 
       No trajeto eu e meu irmão acabamos pegando no sono, escondidos na carroceria. O caminhão balançava muito e acordamos depois que passou num buraco na estrada de Santos: 
        - Que é isso? 
       - É um carro de polícia, preto e branco! Disse meu irmão. 
       O carro de polícia fez um sinal para meu pai parar. 
         - Será que fomos descobertos? 
         - Cala a boca! Respondeu meu irmão, nervoso! 
Nos não conseguíamos ouvir o que os dois policiais pediram para meu pai. Ele mostrou os documentos, mas no final da conversa ouvimos um dos guardas dizendo que iriam multar, pois os pneus trazeiros estavam carecas. Meu pai tentou argumentar, dizendo que era trabalhador, etc. Mas o policial lavrou a multa e deixou meu pai seguir. 
         - Será que falta muito pra chegar? 
         - Como eu vou saber? Nos nunca viemos nesta feira. O pai quem disse que ficava na estrada de Santos. 
De repente meu pai fez uma curva e entramos num declive muito acentuado e perigoso.  Existia muita neblina no local e meu pai limpava o para brisas com uma flanela, pois o limpador não estava funcionando. Pela carroceria a gente podia ver meu pai no controle do caminhão, só que em determinado momento nos pareceu que o caminhão estava sem freio, pois meu pai estava fazendo as curvas tangenciando sem sucesso. 
       Nos tivemos a certeza que o caminhão estava sem freio quando ouvimos meu pai dizendo um baita palavrão em voz alta. 
          - Vamos pular? 
          - Cala a boca! Meu irmão estava nervoso. 
Meu pai estava procurando uma oportunidade para jogar o caminhão contra o matagal, mas estava sem controle da direção.  
         - Meu Deus! É melhor ele não saber que estamos na carroceria! 
         - Cala a boca! 
Meu irmão ameaçou entrar pela cabine a partir da carroceria, mas eu não deixei. Enquanto isso meu pai tentava de todas as maneiras parar o caminhão. Ainda bem que a estrada estava vazia, sem nenhum veículo nos dois sentidos. 
           - Será que a gente vai cair no mar? 
           - Cala a boca! 
Meu pai usou o freio de mão ao mesmo tempo em que derrapou o caminhão em direção a um matagal. O caminhão entrou mata adentro e foi perdendo a velocidade até parar. Enquanto isso, eu e meu irmão vibrávamos na carroceria. 
         - Ainda bem que ninguém morreu! 
         - Cala a boca! O pai vai ficar muito nervoso quando souber que a gente estava aqui, escondido. 
         - Ainda bem que a ideia foi sua! 
         - Cala a boca! 
E após o caminhão ter parado por completo, meu pai saiu da cabine, subiu na carroceria, desenrolou eu e meu irmão da lona e disse: 
        - Podem descer moleques! Está tudo sob controle! Graças a Deus! 
        - Valeu pai!

TRECHO DO LIVRO

LIVRO - PAI NOSSO

A casa estava toda revirada e bagunçada. Robert sempre foi atrapalhado e o segundo filho viria no momento de vida mais feliz do casal. Daquela vez não foi alarme falso. Sarah sabia que o segundo filho estava pedindo passagem para nascer:
       - Querido! Não precisa colocar tantas coisas na mala. Coloque somente o necessário para o primeiro dia.
       Robert e Sarah viviam numa pequena e pacata cidade no interior dos EUA. Robert sempre foi lavrador e cultivava frutas, verduras, raízes e madeira, que era o meio de sobrevivência da família. Sarah também o ajudava na terra. Se conheceram ainda adolescentes e se casaram no mesmo instante em que nasceu o primeiro filho, Nicholas. Robert saiu todo atrapalhado rumo á maternidade. Nicholas ficaria hospedado na casa de um vizinho enquanto Robert passaria a maior parte do tempo na maternidade com sua esposa Sarah. O Dr. Paul estava no hospital aguardando Sarah chegar para fazer o parto. Sarah iria dar à luz uma menina que seria batizada com o nome de Annie.
       Logo que chegou, Sarah foi conduzida para uma sala de preparos antes do parto. Enquanto isso, Robert ficou na recepção tomando um café atrás do outro. Eram vinte e três horas quando começou o procedimento de parto. Tudo tinha sido feito como o Dr. Paul havia recomendado e toda equipe médica iniciou os trabalhos para o parto. Sarah estava tranquila, sabia que Nicholas seria bem cuidado pelos amigos vizinhos e quanto a Robert, sabia que tomaria toda a garrafa de café da recepção, por tamanha ansiedade.
       Robert andava pra lá e pra cá, ansioso por notícias de Sarah, porém, aos poucos, foi sossegando e até deu uma cochilada na poltrona da recepção:
       - Enfermeira! Chamando enfermeira chefe! Setor C sala 217.
       O auto falante da emergência solicitava a presença da enfermeira para auxílio no parto de Sarah. Alguma coisa estava transcorrendo em desagrado e Robert ficou meio perdido, sem ter noticias de Sarah.
       - Estamos perdendo o pulso! A pressão está muito alta e os batimentos cardíacos estão lentos!
       Esse foi o diagnóstico que a equipe de médicos detectou no decorrer do procedimento. Houve uma complicação no procedimento de parto e a equipe médica teria que tomar uma decisão de tamanha importância e responsabilidade e não tinham muito tempo para decidir.
       - Chamem o marido imediatamente. Ordenou o médico
       Quando Robert tomou pé da situação, ele sorriu. Em situações de tremenda pressão, sustos, tragédias... Pessoas reagem de várias maneiras e Robert sorriu. Mas por dentro, estava desesperado. Não se soube de foi erro médico ou complicações generalizadas do parto, mas os médicos pediram para Robert optar em ficar com o bebê ou com Sarah e ele tinha que decidir rápido senão perderia ambos. Robert continuou sorrindo, dando murros em todas as paredes que via pela frente.
       - Doutor, precisamos ressuscita-la. Disse outro médico.
       A situação estava terrível e a equipe médica acelerou os procedimentos quando aos gritos Robert entrou na sala de emergência:
       - Salvem o bebê! Salvem o bebê!
       Annie nasceu com sérias complicações e ficou na incubadora e depois sobre cuidados médicos por mais de sessenta dias. Robert ficou por um bom tempo perdido. Não tinha forças para cuidar da terra de onde tirava o sustento da família e ainda com a responsabilidade de duas crianças para cuidar. O tempo passou e com muito custo Robert foi se reerguendo. Annie completou cinco anos e Nicholas, sete. O grande problema foi que Robert adquiriu o vício do álcool. Nos momentos de profunda tristeza e agonia, Robert fugia para os fundões de terra para chorar escondido das crianças e levava consigo a bebida alcoólica como companhia. Contudo, a vida de Robert, Nicholas e Annie mudaria radicalmente a partir daquele dia. Robert sumiu, desapareceu. Saberiam mais tarde que desmaiou de tanta bebida e desilusão. Enquanto Robert afogava suas mágoas na bebida, Nicholas e Annie se viravam em casa. Estavam com muitos problemas na escola e viraram crianças rebeldes. Naquele dia as crianças após prepararem o jantar, deixaram algumas lascas de carvão acesas e uma delas caiu no chão de madeira e acabou provocando um incêndio. Antes disso, as crianças foram dormir e Robert ficou perdido na bebida. Os vizinhos socorreram, chamaram a polícia, conseguiram dominar as chamas, mas a cozinha da casa ficou totalmente destruída.
       Com as crianças não aconteceu nada, mas a situação de Robert ficou muito complicada. Robert foi encontrado somente na manhã seguinte pela polícia, ainda embriagado e no meio de uma plantação de eucaliptos. Assim, quando soube do ocorrido ficou desesperado e somente se tranquilizou quando encontrou e abraçou Nicholas e Annie.
       Enfim, por uma decisão do juiz, Robert se livrou da prisão, mas o juiz determinou a perda da guarda das crianças, o que para Robert significaria o fim. As crianças já eram rebeldes e revoltadas pela perda da mãe e pelo estado do pai, não se davam bem com ninguém, principalmente na escola, mas, de todo modo, amavam o pai, amavam Robert sob todas as formas.
       Nicholas foi encaminhado para o orfanato ao leste do estado, numa distância de quatrocentos quilômetros de seu pai e Annie foi para o oeste, a duzentos quilômetros de distância. No início Robert foi impedido de visitar os filhos, daí se perdeu ainda mais na bebida, no álcool. Na procura de ajuda conheceu Marie. Marie foi a assistente social que ajudou Robert no processo de recuperação da guarda dos filhos. Seria uma batalha árdua. As leis no estado onde Robert e as crianças viviam eram muito rigorosas. Foi daí que Marie ajudou Robert e assim contrataram um advogado para iniciarem o processo de recuperação da guarda. Marie também ajudou Robert a se livrar do álcool.
       - Foi um anjo que apareceu na minha vida.
       Foi sempre assim que Robert terminava seus depoimentos nas sessões do Grupo dos Alcoólatras Anônimos, se referindo a Marie.
       Robert arrendou seu rancho, pois não tinha forças para o trabalho pesado. Ficou com sessenta por cento como administrador e arrendou quarenta por cento para Richard, um amigo de infância que reapareceu após saber da triste realidade da vida de Robert. Assim, Robert, Marie e o Dr. Simpson poderiam trabalhar no processo da recuperação da guarda das crianças.
       Quando uma carta chegou pelos correios na casa de Robert, não poderia proporcionar alegria maior. O Juiz havia concedido a primeira visita de Robert aos filhos, depois de quase um ano, desde que foram para o orfanato. Foi a primeira vitória do Dr. Simpson no processo, com a ajuda da Assistente Social Marie.
       A visita aconteceria num domingo, três dias depois do recebimento da carta e Robert contava as horas e os minutos para chegar o momento de reencontrar os filhos.
       - Como será que eles vão me receber? Questionava Robert
       - Tenha calma, tudo vai dar certo! Incentivava Marie.
       O dia da visita chegou e Robert primeiro foi visitar Nicholas. Marie o acompanhou. Quando chegaram tiveram uma sensação horrível, pois o orfanato tinha aspecto de prisão, um isolamento. Robert sentou-se numa sala enquanto foram buscar Nicholas. Nicholas demorou a chegar. Parecia que estavam convencendo-o a ver o próprio pai. Pela porta aberta, que dava de frente para um corredor, Robert viu Nicholas se aproximar. Nicholas chegou caminhando com dificuldade e devagar. Tinha dificuldades em andar e mancava da perna direita. Robert não se conteve e saiu feito louco para abraçar o filho.        
       - Nike, meu filho!
Nicholas recebeu o pai friamente. Enquanto o pai chorava de saudade, Nicholas apenas o olhava com expressão fechada, de revolta, tristeza e solidão. Enquanto Robert ficou o tempo todo abraçado ao filho, Marie andou pelo orfanato e conversou muito com a diretora.
       - Pai, eu quero ir com você. Não quero mais apanhar.
       Nicholas estava com quase dez anos e por se rebelar, sofria muitos castigos no orfanato. Robert identificou marcas e cicatrizes no corpo do filho e numa atitude intempestiva, tentou "raptar" o próprio filho daquele lugar sombrio, obscuro, como se fosse uma prisão de segurança máxima.
       E na despedida, Nicholas chorou. Não queria largar do braço do pai que também desmontou em emoção.
       - Meu filho, tenho que ir embora, mas não vou demorar em vir te buscar.
       Robert foi embora arrasado. Pensou em cometer uma loucura tirando o filho do orfanato à força, mas só agravaria a situação. Ainda bem que Marie estava com ele. Enquanto Robert ficou com a emoção e tristeza aflorada, Marie, ponderada, colheu informações importantes que seriam fundamentais para o processo de recuperação da guarda dos filhos de Robert, e que o Dr. Simpson usaria da melhor forma possível.
       Marie tomou a direção do carro e iniciaram a viagem para o orfanato onde estava Annie. Não seria possível visita-la no mesmo dia e assim resolveram pernoitar num hotel de beira de estrada.
       - Acalme-se Robert. Tenho informações importantes que vão ajudar o Dr. Simpson a resolver de uma vez essa situação. Disse Marie a Robert, que logo pegou no sono.
       No dia seguinte Robert e Marie seguiram rumo à visita a Annie. Robert estava muito preocupado, pensando receber Annie num mesmo cenário sombrio ao de Nicholas. Quando chegaram, diferentemente do que haviam visto no orfanato onde estava Nicholas, viram um cenário menos carregado. E então foram surpreendidos com Annie que veio correndo ao encontro do pai:
       - Papai! Papai! Você veio me buscar?
Robert não respondeu... abraçou e beijou Annie, enquanto Marie foi conhecer melhor o orfanato e conversar com o diretor.
       - Papai, quem é ela? Ela é sua namorada? Ela vai ser minha mãe?  
       Robert disse a Annie que Marie era uma assistente social do estado onde vivia e que junto com o advogado Dr. Simpson, estavam ajudando- o retira-lá daquele lugar e voltar para casa.
       - Cadê meu irmão?
Robert desabou com os questionamentos de Annie e foi Marie que consolou a menina que havia recentemente completado oito anos de idade.
       - Seu pai vai embora agora, mas logo voltará para busca-la.
Annie chorou muito na despedida e aos gritos Robert disse que em breve viria busca -la e a levaria de volta para casa. Durante a viagem de volta, Marie ligou para o Dr. Simpson e lhe adiantou o que havia se passado nas visitas e marcaram uma reunião para assim que chegassem de viagem.
       No dia seguinte Robert e Marie se dirigiram ao escritório do Dr. Simpson e Marie fez uma explanação de como estava a situação das crianças no orfanato e quais as medidas que deveriam tomar a partir de então:
       - A situação do Nicholas é desesperadora. O orfanato não obedece as regras determinadas pelo governo. Apurei que abrigam menores infratores no mesmo ambiente dos considerados órfãos, o que é ilegal perante as leis do nosso estado e ainda agridem os meninos rebeldes. Nicholas se envolveu em várias brigas que causou um ferimento na perna direita que o faz mancar. Mas as brigas não foram porque Nicholas tenha tido comportamentos em desacordo e sim porque teve que se defender dos delinquentes. A diretora do orfanato me confidenciou esses detalhes e está disposta a depor a nosso favor se tiver uma proteção da justiça ou uma delação premiada.
       - A situação de Annie é mais tranquila. O orfanato onde Annie se encontra obedece as regras governamentais. As meninas até estudam, são assistidas por psicólogos e fazem atividades físicas e sociais. A diretora prometeu que pode nos ajudar na recuperação da guarda com um relatório de bons comportamentos de Annie.
       Com as informações trazidas por Marie, o Dr. Simpson iniciou o processo para protocolar junto ao juízo da comarca para solicitar a recuperação da guarda das crianças.
       Na primeira decisão o juiz deu a sentença como favorável a Robert, mas fez três exigências que deveriam ser comprovadas em noventa dias. A primeira exigência foi que Robert tinha que provar que estava totalmente curado do vício do álcool. A segunda, que tivesse um trabalho fixo que pudesse oferecer condições de sustentar seus filhos. A terceira, a que mais constrangeu Robert, ele deveria Sr um homem casado em até noventa dias antes da recuperação da aguarda das crianças. 
       A primeira exigência do juiz foi totalmente comprovada através dos relatórios dos Alcoólatras Anônimos e os exames médicos recentes que Robert juntou ao processo, além dos depoimentos dos vizinhos.
       A segunda exigência também foi comprovada. Robert tinha arrendado o rancho em quarenta por cento ao amigo Richard. Com isso o rancho prosperou novamente e as terras voltaram a ser produtivas, garantindo o sustento de todos. Robert havia se esquecido da terceira exigência quando Marie o convidou para um jantar em sua casa. Há muito tempo Marie gostava de Robert. Conheceu sua história, a forma em que perdeu sua esposa, conheceu a agonia de seus filhos e a luta de um pai para recuperar sua dignidade. Com todas essas tribulações, Robert não conseguiu enxergar a mulher maravilhosa que estava em sua volta, em sua companhia, e que foi fundamental para que conseguisse recuperar a guarda dos filhos, prestes a acontecer.
       Aquela noite foi maravilhosa para Robert e Marie. Parecia até que ambos estavam aproveitando aquela chance, aquela conveniência para poder juntar uma prova no processo para ter os filhos de Robert de volta. Marie prometeu a Robert dois compromissos: Primeiro ajudá-lo definitivamente a recuperar seus filhos e segundo, provar seu amor a Robert.
       E assim foi feito. Robert e Marie se casaram e após cem dias Nicholas e Annie estavam em casa novamente. Robert se sentia completo novamente: Tinha novamente uma família.
       Annie e Marie desde o início se deram muito bem. Nicholas a olhava com desconfiança. Não a tratava mal, porém, não aceitava o carinho da mesma forma que Annie aceitava. Nicholas gostava de ficar na terra, junto com Richard e Robert. Se sentia bem trabalhando. No início fez um trabalho de fisioterapia com o médico da cidade e não mancava mais como na época do orfanato. Quando todos estavam sentados à mesa para fazer as refeições, Nicholas ignorava Marie:
       - Esse lugar é da minha mãe. Ela não é a minha mãe.
       Os negócios prosperaram e Robert estava numa situação financeira muito privilegiada, tanto que Annie e Nicholas foram estudar numa excelente escola numa cidade vizinha. Somente aos finais de semana e nas férias os filhos estavam com Robert que não ficava triste com aquela situação:
       - Estou investindo no futuro dos meus filhos.
Quando as férias de verão chegaram no ano de mil novecentos e sessenta e sete, Nicolas estava com treze anos e Annie onze. A família estava muito feliz. Robert estava ensinando Nicholas andar a cavalo e Marie ensinando Annie a fazer bolos e tortas. Nicholas era vidrado em colher frutos e numa tarde estava em cima de uma árvore quando ocorreu um acidente:
       Nicholas se desequilibrou e caiu de cima da árvore. Antes de chegar ao solo tentou se proteger segurando em um galho, mas o galho quebrou-se e por infelicidade, ao cair, perfurou seu abdômen. Nicholas sangrou muito e foi imediatamente levado ao hospital. Precisou fazer uma cirurgia de emergência e precisou de doadores de sangue do tipo B positivo. Richard se dispôs a doar, mas seu sangue não foi compatível. Robert e Annie também. Robert comentou, decepcionado que Sarah era quem tinha o tipo de sangue adequado.
       - Eu vou doar. Disse Marie.
Marie tinha o sangue compatível com o de Nicholas, além de alguns vizinhos de Robert. O volume de sangue necessário foi doado e a operação foi um sucesso. Depois de cinco dias, Nicholas estava em casa novamente em repouso pela cirurgia. 
       E para comemorar, Annie fez um bolo de morango que Nicholas adorava:
       - Para quem será o primeiro pedaço!
Nicholas cortou, colocou o pedaço de bolo num prato e o direcionou a Marie:
       - O primeiro pedaço é pra você! Obrigado, mãe!

Com o sucesso produtivo do rancho, Robert e o amigo Richard compraram uma fazenda bem maior e expandiram a produção justamente quando Nicholas se formou em engenheiro agrônomo. Annie estava no último ano da faculdade de gastronomia quando Marie deu à luz aos gêmeos Sarah e Robert Junior. E assim, Robert, Marie e todos viveram felizes para sempre!
SINOPSE DO LIVRO