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3 de setembro de 2016

LIVRO - AMOR EM PEDAÇOS

AMOR EM PEDAÇOS

- Juninho! Venha aqui meu filho! Vem pegar o dinheiro para comprar o pão!
Todos os dias pela manhã minha mãe pedia para ir buscar o pão. Ela sabia o horário certo que o Seu Manuel da padaria fazia os pães e pedia para eu ir de bicicleta, e os comprava ainda bem quente. Eu ia numa vula até a padaria e quando voltava minha mãe já havia preparado o café com leite. Minha mãe deixava tudo pronto. Depois do café eu lavava a louça enquanto minha mãe se preparava para ir trabalhar.
- Tchau mãe! Bom dia e bom trabalho!
- Juízo menino! Não vai se atrasar para ir à escola.
Minha mãe trabalhava no supermercado da cidade. Saía de casa às dez e voltava às sete horas da noite. Logo que minha mãe saía para trabalhar, eu ficava no campo a jogar futebol com os amigos e em seguida voltava para casa, tomava banho e me arrumava para ir à escola. Minha mãe deixava meu almoço pronto e eu somente esquentava. Em seguida, pegava minha bicicleta e ia para a escola. No caminho, sempre parava na ponte. Encostava a bicicleta e ficava jogando pedrinhas no rio. De cima da ponte via as pedrinhas afundando no rio e fazia um pedido, conforme minha mãe tinha me ensinado. Eu pedia para Deus proteger minha mãe. Meu pai morreu quando eu nasci. Minha mãe nunca deixou faltar nada e o meu amor por ela sempre foi infinito. Eu chegava à escola sempre trinta minutos antes do início das aulas. Ficava na classe lendo as matérias dos livros que a professora iria comentar no dia. Minha mãe me ensinou que se estudasse a matéria antes, seria mais fácil de compreender quando a professora fosse transmitir aos alunos.
A prova de português estava bem difícil. Era a última do bimestre. Depois entraríamos em férias. Graças a minha mãe, que sempre fazia as lições de casa comigo, conseguia sair bem nas provas:
- Qual é a resposta da questão número cinco?
Uma voz bem baixinha, de menina, atrás de mim, pediu a resposta da questão cinco - Uma voz doce, que chegava aos meus ouvidos come se fosse uma canção romântica. Era a voz de Isabel. Isabel estava me pedindo uma cola da questão número cinco. Deixei meu lápis cair duas vezes no chão, o que indicava alternativa B. Terminei a prova, pegue minha bicicleta e fui embora pra casa, sem antes passar na padaria do Seu Manuel para comprar os pães para o café da tarde. O seu Manuel sempre estava com um sorriso largo no rosto e todo mundo gostava dele.
- Seu Manuel, posso pegar um doce de leite?
Eu pegava tudo que queria na padaria, sem exagerar. O Seu Manuel anotava tudo numa caderneta é no final do mês minha mãe pagava.
No dia seguinte eu estaria em férias. Minha mãe faltou no trabalho pela manhã, pois houve reunião de pais e mestres e entrega dos boletins do bimestre.
- Tranquilo mãe! Só vai ter verde no boletim!
Minha mãe sabia que eu era um aluno esforçado e nunca precisou chamar minha atenção para estudar. Enquanto minha mãe participava da reunião, fui até a ponte para jogar pedrinhas no rio. Joguei as pedrinhas, fiz vários pedidos e agradeci Deus por ter tido mais um bimestre de bons resultados na escola.
- Muito obrigada!
Era Isabel.
- Eu sabia que te encontraria na ponte. Você passa aqui todos os dias?
- Venho na ponte para pedir e agradecer a Deus, jogando pedrinhas no rio.
Isabel me agradeceu pela cola que eu tinha lhe passado na prova de português. Naquele dia conversamos bastante e demos muitas risadas. Depois daquele dia começamos a nos encontrar todos os dias na ponte, até o dia do primeiro beijo. Assim que beijei Isabel, joguei uma pedrinha no rio e pedi a Deus que a sensação que tive durasse para sempre. Isabel sempre foi meiga, doce e carinhosa. Todos diziam que um completava o outro. A minha mãe ficou muito amiga da mãe dela e estávamos todos felizes naquela época.
Eu sempre fui romântico. Encontrava-me com Isabel todo fim de tarde na ponte. Ela chegava primeiro. Estacionava sua bicicleta e ficava olhando para o rio de cima da ponte. Na verdade eu me atrasava de propósito, pois passava pelo jardim da Dona Odete e colhia uma rosa para dar a Isabel. Quando estava em casa sozinho, pegava um caderno e escrevia cartas para Isabel. Ela adorava e respondia. Certa vez minha mãe pegou o caderno e leu o que eu escrevia para Isabel e me disse que um dia eu poderia escrever um livro que poderia se chamar Amor em Pedaços, pois as cartas contavam pedaço por pedaço as aventuras de amor que eu tinha com Isabel.
As aulas reiniciaram e Isabel passou a ir todos os dias de bicicleta. Encontrávamos na ponte, jogávamos algumas pedrinhas no rio, fazíamos nossos pedidos e depois rumávamos para a escola.
- Qual foi seu pedido hoje? Perguntou Isabel.
- Pedi que nosso amor dure para sempre!
- Eu também!
No dia seguinte fui até a cidade com minha mãe. Não fui à escola. Tinha que passar no dentista para fazer um tratamento. Combinei com Isabel para nos encontrarmos na ponte à tarde, depois que terminasse as aulas. Minha mãe prometeu fazer um café da tarde para nós. Quando me despedi de Isabel senti um frio na barriga, os olhos dela estavam brilhando como se fosse uma estrela e no abraço apertado que demos, senti come se estivéssemos com os pés fora do chão. ... Voando!
Depois do dentista, cheguei afobado para encontrar Isabel.
- Calma menino! Sua namorada não vai fugir!
Fui até a ponte para me encontrar com Isabel.
Depois passaríamos no seu Manuel para pegar os pães e iríamos para minha casa. Cheguei à ponte e não vi Isabel. Achei que estava adiantado para o encontro. Fui até o jardim da Dona Odete e apanhei uma rosa. Voltei para a ponte, mas Isabel não havia chegado. Joguei uma pedrinha no rio e pedi que ela chegasse logo, mas não chegou. Então fui para casa, pois os pães estavam esfriando e minha mãe ia ficar brava comigo. Peguei minha bicicleta e rumei para casa. Quando passei pela avenida principal encontrei uma multidão e um carro virado na contramão. Achei estranho, pois vi minha mãe no meio da multidão. Fui me aproximando e vi que tinha ocorrido um acidente e tinha um corpo estendido no chão.
- Ela foi atropelada! Ela foi atropelada!
Minha mãe me olhou com os olhos arregalados.
- O que a mãe de Isabel está fazendo caída no chão?
Minha mãe arregalou os olhos novamente na minha direção. Olhei para o chão e vi a bicicleta de Isabel, retorcida, moída e seu corpo estirado no chão. Isabel estava morta e sua mãe estava chorando e cortando seus longos cabelos. Foi atropelada enquanto estava indo ao meu encontro. Um carro na contramão a pegou em cheio. Eu nunca tive convivido com uma perda. Quando meu pai morreu eu era um recém-nascido, tinhas meses, não tive sentimentos, não tive reação. Fui até o corpo de Isabel e a chamei. Ela não respondeu e não abriu os olhos. Eu peguei minha bicicleta e sai correndo. Minha mãe tentou me segurar, mas não conseguiu. Fui até a ponte e peguei todas e quantas pedrinhas que coubessem em minhas mãos e atirei no rio:
- Deus, traga o meu amor de volta. Faça com que ela se levante e abra os olhos! O café da tarde vai esfriar. Minha vida é como um rio e vou aproveitar cada dia dela. Agora estou sozinho, mas o tempo passa rápido demais e Deus vai trazer o meu amor de volta. Oh meu Senhor, meu Deus, traga o meu amor de volta e a minha dor desaparecerá! Não espere mais, traga o meu amor de volta e faça a minha dor desaparecer... Meu amor, se eu pudesse fazer você voltar te diria uma só palavra: Eu te amo! Entre luzes que iluminam estradas e paisagens com cores de arco-íris, reviveremos todos os nossos sonhos e os momentos de ternura que a vida nos proporcionou e que ainda vai nos proporcionar para a eternidade. Não ficarei mais um só segundo sem abraçar você, sem segurar a sua mão quando você tiver medo e te fazer dormir quando você estiver com medo dos trovões e das tempestades. Mar de risos e ouro dos céus: Ali eu viverei cada dia da minha vida! Quando o amor está longe, o tempo não faz planos e peço: Oh meu senhor! Meu Deus! Traga o meu amor de volta e faça a minha dor desaparecer.
Isabel foi enterrada num caixão branco coberto de flores e assisti de longe vendo sua mãe segurando seus cabelos, cortados para recordar. Foi muito difícil retomar a vida sem Isabel. Fiquei alguns dias sem ir à ponte até que minha mãe me levou um dia. Jogamos pétalas de rosas ao invés de pedras, das mesmas rosas que eu colhia do quintal da Dona Odete, com sua autorização. No último ano do ginásio, ao invés de participar da festa resolvi participar do concurso literário. Aos participantes foi designado escrever um livro de romance e fui o vencedor. O Livro se chamou Amor em Pedaços e nele estava escrito às cartas de amor que escrevi para Isabel e as que ela escreveu para mim. Depois da cerimônia de premiação peguei minha bicicleta e fui para a ponte. Desci até a beira do rio e lancei nas águas cada página do livro, junto com uma pedra, e as vi navegar para algum lugar, onde Isabel pudesse estar. E ao lançar a última página, onde estava escrito "fim", surgiu das águas um anjo encantador, de cabelos compridos, de olhos brilhantes como estrelas, no rosto de Isabel. Tentei nadar para me aproximar, mas a correnteza impediu que eu chagasse. Ainda tive tempo de acenar, acenar para Isabel que se perdeu nas águas límpidas do rio, enquanto minha mãe me chamava para ir buscar o pão na padaria do Seu Manuel. E ao passar na ponte sobre o rio, encontrei um papel rasgado - voando, uma carta borrada, molhada pelas águas do rio:

“Nas águas escuras desse rio existem os ‘restos mortais’ das cartas que eu escrevi pra você e você escreveu pra mim. Falam sobre amor e ternura... Carinho e devoção. E nas correntezas das águas escuras, Amor em Pedaços são papéis rasgados, borrados de lágrimas, feridos, perdidos da mesma forma que eu me perdi de você e você se perdeu de mim. Papéis borrados de lágrimas não sangram no peito, mas se desfazem com a força da correnteza e dos ventos. Papéis borrados de lágrimas não se ferem em espinhos e não sentem dor se o calor da paixão ainda existir, por menor que seja, pra secar as feridas, formar novamente as palavras sinceras das cartas poéticas que sempre escrevi sobre o nosso amor. Papéis borrados de lágrimas não têm alma. Mas têm coração! E podem ressuscitar a cada manhã, todo dia, mesmo feridos, mesmo rasgados, mesmo encharcados de águas escuras, manchados pela saudade, pois não se cansam de morrer de amor!”
TRECHO DO LIVRO

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