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3 de setembro de 2016

LIVRO - SIMPLESMENTE AMOR

SIMPLESMENTE AMOR

       Se fosse a tempos passados, Bryan não teria a mesma acessibilidade que os dias atuais proporcionam. O acidente sofrido há três anos ainda lhe proporcionava traumas, além de ter tido a desagradável notícia de ter que ficar para o resto da vida numa cadeira de rodas. Bryan custou a se convencer que sua vida dali por diante sofreria uma adaptação. O inconformismo o impediu de se adaptar mais rápido. Teve sessões de terapia e fisioterapia para respectivamente tirar o trauma do acidente e tentar recuperar os movimentos das pernas. Somente no último ano se dedicou fielmente a se recuperar e iniciar uma nova vida com as adaptações necessárias. Hoje em dia Bryan faz noventa por cento de suas atividades independentemente da ajuda de outras pessoas, inclusive o carro adaptável que usa para sair e trabalhar no cartório de sua cidade como escrevente. Bryan tinha uma rotina diária muito completa. Pela manhã fazia fisioterapia e natação, depois ia para o trabalho dirigindo seu carro adaptado. Na hora do almoço gostava de descansar numa praça que tinha em frente ao cartório e nos momentos de descanso, relaxava e gostava muito de ler livros de autoajuda.  À tarde, quando terminava seu período de trabalho no cartório, Bryan tinha, de dois em dois dias, sessões de terapia que o fazia se sentir muito bem. No começo da noite chegava em casa e gostava muito de ouvir música clássica e assistir filmes de suspense, principalmente os de Brian de Palma e Alfred Hitchcock. Foi num dia de verão quando Bryan, após o almoço, dirigiu-se até a praça para começar a ler o livro Janela Indiscreta. Bryan estava muito feliz àquela época. Ao seu lado, sentou-se uma mulher. Bem vestida, cabelos longos com uma leve maquiagem:
       - Posso ficar aqui? Perguntou Bryan.
       - Claro! Respondeu a mulher.
       Bryan começou a ler seu livro enquanto a mulher, jovem, aparentando a mesma idade de Bryan, praticamente não se moveu. De vez em quando esfregava as mãos e na maioria das vezes parecia que estava olhando para o céu. Assim que deu seu horário, Bryan se moveu com a cadeira de rodas e se dirigiu de volta ao trabalho:
       - Até logo! Tenha uma boa tarde. Despediu-se Bryan. A mulher apenas fez um gesto com as mãos, como um sinal de tchau, sem ao menos virar a cabeça. Os dias que se sucederam a esse acontecimento com a mulher na praça foram muitos intensos no trabalho de Bryan, tanto que não teve mais tempo de relaxar na praça após seu almoço. Entretanto, da janela de sua sala que dava de frente para a praça, via que todos os dias, pontualmente no mesmo horário, aquela mulher estava na praça, sentada no mesmo banco e ficava sem se mexer, olhando para o infinito, como se fosse uma estátua. Bryan nunca a via chegando. Sempre que ia a praça, a mulher já estava sentada, imóvel no mesmo banco. As coisas se acalmaram no cartório e Bryan novamente pode ter tempo de descansar na praça após seu almoço.  Daquela vez ele estava lendo o livro Vestida para Matar. Quando Bryan chegou a mulher já estava sentada. Um sol forte batia no rosto das pessoas que descansavam ali e foi então que Bryan percebeu aquela mulher usando óculos de sol.
       - Boa tarde! Meu nome é Bryan e o seu?
       - Meu nome é Andréa!
       Andréa era deficiente visual. Bryan não tinha percebido das outras vezes que a viu na praça. Bryan e Andréa passaram a se encontrar na praça, todos os dias após o almoço. Andréa morava bem próximo. Costumava sentar-se ali durante os dias de sol para recordar-se do cheiro das plantas, do canto dos pássaros e de sua infância, quando no lugar da praça existia um campo onde os adolescentes se reuniam para fazer as brincadeiras da época. Aconteceu que aos dezesseis anos, Andréa foi diagnosticada com um tumor no cérebro. Realizou onze cirurgias dos dezesseis aos vinte e um anos de idade. O tumor sumia e reaparecia. Aos vinte e dois anos de idade, Andréa recebeu a pior notícia de sua vida: O tumor foi confirmado como maligno e ela perdeu a visão. De um momento para outro, Andréa deixou de enxergar a vida, os pássaros, as rosas no jardim, a praça... E tudo mais, mas como ela disse a Bryan, passou a enxergar a Deus. Os médicos disseram-na que o tumor não poderia mais crescer. Se assim o fizesse, Andréa estaria morta. Então, passou a tomar uma série de medicações para que o tumor não pudesse crescer e ela pudesse continuar vivendo. Perdeu os cabelos, se recolheu em seu quarto e só aceitou frequentar a praça após o falecimento de seu pai, pois ele a incentivava a sentir a natureza, mesmo que as luzes estivessem apagadas. Assim, Andréa passou a viver todos os dias como se fosse o último e a praça era um reduto sagrado onde ela sentia a esperança de continuar vivendo. Os dias foram se passando e quando Bryan e Andréa se encontravam na praça, Bryan lia os livros em voz alta e interpretava os personagens com vozes diferentes. Eles se divertiam muito, ao mesmo tempo em que sentiam a necessidade de ficarem mais juntos. Bryan também contou sua história para Andréa, até o ponto em que ficou definitivamente numa cadeira de rodas. Bryan passou a frequentar a casa de Andréa e juntos dividiam tantas sensações que serviam de estímulo para que deixassem seus problemas de lado e passassem a viver a vida verdadeiramente, não se importando se tudo pudesse acabar tão de repente que não pudessem se beijar:
       - A sensação de estar em teus braços é única! O contato com sua pele, suas carícias seu bom humor e suas gargalhadas são combustíveis para eu esquecer que existe dentro de mim algo que possa me aniquilar no próximo dia, na próxima hora, no próximo minuto. E nesse próximo minuto eu quero te beijar, te abraçar, sentir o calor do teu corpo... Eu quero te namorar!
       De todos os remédios, ambos encontraram aquele que estavam procurando: O amor. E o amor os completou e fazia de suas "novas vidas" um novo recomeço:
       - Acordar todas as manhãs, saber que estou viva e sentir você ao meu lado é mais uma prova de que Deus existe e que Ele me levou até a praça para te encontrar!
       Apesar de estarem morando juntos, Bryan e Andréa nunca deixaram de frequentar a praça. A praça para ambos era um lugar sagrado e a chamavam de céu. Os sábados pela manhã era um momento sagrado, dia em que eles mais gostavam de estar na praça. Bryan sempre ia à frente. Depois de alguns minutos Andréa chegava. Essa atitude era como se fosse um ritual e ambos se sentiam bem com esse procedimento. Quando Andréa chegava, Bryan sempre dizia:
       - Bom dia amor! Você chegou! Eu estava com saudades!
Andréa sorria, sentavam-se, se abraçavam, se beijavam e enquanto Bryan lia os livros, Andréa sentia o perfume das flores que Bryan sempre colhia antecipadamente. Até que chegou o inverno. Os sábados pela manhã ficaram diferentes. Com as geadas, as flores não exalavam mais seu perfume e o sol se escondia, tornando as manhãs cinzentas. Na noite anterior, Bryan percebeu que Andréa tremia muito. Levantou-se no meio da noite e lhe serviu um chá bem quente. 
       - Está tudo bem querida!
       Andréa não respondeu e Bryan deduziu que estivesse cansada, dormindo. O dia amanheceu e Bryan saiu na frente, como fazia em todas as manhãs de sábado. Não existiam flores no jardim e nem o sol estava brilhando entre as nuvens. Antes de sair Bryan pegou alguns livros e um agasalho a mais, pois estava muito frio. Andréa não se importava com o frio, sabia que Bryan se sentia bem quando estava na praça e ela também. 
       - Na praça, estamos no céu querida!
       Bryan sentou-se e ficou aguardando por Andréa. Separou alguns trechos dos livros que iria ler para ela. Notou que ela estava demorando mais do que o normal para vir à praça.
       Pensou ser em função do frio. Ameaçou retornar para buscá-la, mas lembrou de que sua amada gostava de vir sozinha. Estava acostumada com o caminho que fazia e que não a prejudicava, mesmo sendo deficiente visual. Bryan ficou muito preocupado com o atraso de Andréa e resolveu voltar para casa. Naquela manhã sentiu uma angústia que há muito tempo não sentia e até soltou um palavrão quando sua cadeira de rodas enroscou no portão da casa.
       - Querida! Querida!
Bryan não esperou que chegasse e antes começou a chamar por Andréa. Ao chegar ao quarto da casa, viu Andréa imóvel, coberta da mesma maneira em que estava quando Bryan acordou pela manhã. 
       - Querida! Querida!
       Andréa não respondia e não respondeu. Bryan voltou-se na cama para abraça lá e sentiu sua amada muito fria. Cobriu-a com mais um cobertor, foi até a cozinha, bebeu um café bem forte e ligou para o resgate. Andréa viajou para o “outro céu”, longe da praça. Alguns dias se passaram. Bryan continuou com sua rotina de trabalho no cartório, e no descanso do almoço voltava-se sempre à praça para conversar com Andréa. Conversava através do perfume das flores, do cheiro do mato, pelas frases dos livros que Andréa mais gostava, mesmo sem o sol que se escondia entre as nuvens cinza para chorar de tristeza, enquanto a garoa se confundia com as lágrimas que nunca cessavam em cair dos olhos de Bryan.


Ao seu lado descobri que entre o sonho e a realidade, existe um espaço chamado felicidade, e para que a minha felicidade se torne realidade, preciso estar ao seu lado.”


 TRECHO DO LIVRO

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