07 julho 2020

HISTÓRIAS DIFERENTES - NO MESMO LUGAR

Quando Marta saiu de casa naquela manhã, estava disposta a terminar o relacionamento com Charles, devido ao fato de que ele era ciumento ao extremo. Marta sempre foi guerreira, trabalhava em dois empregos e aos finais de semana ainda procurava alguns bicos para garantir o sustento dela e dos três filhos. Era uma mulher muito responsável, mas tinha certas atitudes que deixava Charles pensar que ela o traia. Paralelamente a essa história, no terceiro andar do Shopping Estrela do Mar funcionava aquele pequeno restaurante. A praça de alimentação estava sempre lotada no horário de almoço, nos dias de semana e também aos finais de semana. Uma equipe de uma empresa contratada pelo Shopping estava fazendo a manutenção preventiva e rotineira do sistema de gás que alimentava todos os restaurantes da praça de alimentação. Um pouco distante, pelo menos a três quarteirões, morava Pedro Henrique, um garoto rebelde que não gostava de frequentar a escola e ainda, aos vinte anos de idade não queria saber de trabalhar. Quando Marta saiu de casa pela manhã, Charles fingiu que estava dormindo, pois afinal, ele trabalhava como segurança no Shopping Estrela do Mar e seu horário de trabalho iniciava-se pouco antes do horário do almoço. Para uma mulher casada, mãe de três filhos, as roupas que Marta vestia não eram condizentes com uma mulher respeitada e séria, pelo menos na opinião de Charles. Marta saiu de casa usando vestido transparente, salto alto e toda maquiada. Charles nunca aprovou o jeito de se vestir de Marta e isso foi o motivo de tantas brigas. O casamento deles estava por um fio e o que segurava a decisão de terminarem foram os filhos. Antes de deslocar ao trabalho, Charles foi até o trabalho de Marta, na loja de calçados e dizia querer ter uma conversa com Marta.
          Marta relutou e disse que poderiam conversar à noite, quando estariam em casa. Charles não aceitou a proposta de Marta e para que ele não fizesse um escândalo em seu ambiente de trabalho, resolveu se encontrar com Charles na praça da alimentação num prazo de uma hora. E assim ficou combinado. Assim que Charles se afastou da loja de calçados, foi possível ver três homens com uniformes da empresa de manutenção de gás saírem do Shopping. Quando Charles foi para seu posto como segurança, disse ao amigo que iria render:
          - Você também está sentindo cheiro de gás?
          O amigo disse não e assim Charles continuou no posto esperando o amigo Samuel sair para o almoço e quando voltasse, Charles daria uma escapadinha para conversar com Marta. Há poucos metros dali estava Pedro Henrique, garoto rebelde, que havia brigado com a mãe e fora até o Shopping se encontrar com a namorada. Simone já o aguardava e Pedro Henrique sentou-se com Simone bem próximo à praça de alimentação e ficaram conversando. Na praça de alimentação os comentários sobre o cheiro forte de gás começaram a ser mais frequentes. Algumas pessoas comunicaram a segurança e os donos dos restaurantes. A praça de alimentação estava lotada e isso causou um retardo numa averiguação mais rápida por parte dos bombeiros de plantão no Shopping. - Eu quero a separação? Disse Marta, de supetão, logo que se encontrou com Charles. Charles argumentou, discutiu em voz alta e fez que muitos que estavam por perto percebessem. Marta se levantou e caminhou em direção ao seu local de trabalho. Charles foi atrás e ameaçou reação mais tempestiva quando surgiu Samuel e o conteve:
          - Calma Charles, calma!
         O amigo de Charles, Samuel, chegou no momento certo. Talvez, se não, Charles poderia ter cometido algo de pior em relação à Marta. Samuel caminhou em direção à saída do Shopping. Achou que seria melhor tirar Charles daquele ambiente até que esfriasse a cabeça. Próximo dali, num banco da praça de alimentação, Simone dava conselhos a Pedro Henrique sobre os problemas de relacionamento com sua mãe. Simone, apesar de ter a mesma idade de Pedro Henrique, era mais madura, mais vivida, sabia o que queria da vida, enquanto que Pedro não queria saber de trabalhar, nem de estudar:
          - Querido preciso ir, tenho aula de Inglês à tarde.
          Pedro Henrique pediu se Simone poderia passar a tarde com ele. Estava inseguro, queria ter uma conversa séria com a mãe, queria mudar suas atitudes e pediu ajuda para Simone. Simone achou que era a chance que tinha para de uma vez, fazer com que Pedro Henrique se acertasse na vida.
          - Está bem querido, eu fico com você. Vamos comer alguma coisa, depois vamos conversar com sua mãeSimone estava na porta de saída do Shopping, quando foi convencida por Pedro Henrique em ficar. No mesmo instante em que Simone estava voltando para dentro do Shopping, Charles estava saindo, amparado por seu amigo Samuel e Marta voltando para a loja de calçados para retomar seu trabalho. Charles e Samuel já tinham caminhado certa de cento e cinquenta metros distante da porta de entrada do Shopping quando se ouviu uma grande explosão: - Meu Deus! A explosão foi tão forte que fez desabar vários telhados das casas que estavam bem próximas ao Shopping. Uma poeira gigantesca subiu aos céus. O andar onde se encontrava a praça de alimentação ficou resumido em pedaços de concreto e poeira. As equipes da RESCUER e dos Bombeiros foram acionadas em caráter de urgência e emergência e toda área foi evacuada e isolada pela polícia:
          - O terceiro andar está totalmente destruído!
          - Quantas pessoas? Quantas pessoas?
          - Duzentas e cinquenta! Talvez trezentas!
Os rádios de comunicação da polícia, dos bombeiros e da RESCUER a todo o momento atualizavam as informações. As equipes de rádio e TV ficavam num área de segurança para que não fossem atrapalhados os trabalhos de resgates e salvamentos: - Atenção todas as unidades! Acionem a polícia! Vamos precisar de cães farejadores! Nesta ocorrência várias equipes da RESCUER foram deslocadas para o Shopping Estrela do Mar e em uma das ambulâncias estava o Dr. Abreu. As equipes dos bombeiros iam abrindo caminho entre os escombros em busca de sobreviventes. - Doutora! Doutora! Aqui! Gritava um dos bombeiros para a Dra. Maria Julia. Um jovem rapaz, cheio de fraturas por todo o corpo, gritando de dor. A dor era tamanha e entre pedaços de concretos e poeira a equipe da RESCUER liderada pela Dra. Maria Julia tentava de todas as maneiras amenizar o sofrimento do rapaz: - Ela está morta! Ela está morta! Simone está morta! Por favor, me matem, não suporto tanta dor! Eu quero morrer logo... Morrer logo!
          O jovem Pedro Henrique estava morrendo e delirava nos braços da Dra. Maria Julia. Não havia mais nada a fazer e assim como essa várias outras cenas de sofrimento em meio a tanta tragédia. Os cães farejadores foram de uma importância tamanha nos trabalhos de rescaldo e o número de vítimas fatais atingiam números superiores a duzentos. - Eu preciso entrar! Eu preciso entrar!
        Aos gritos, Charles queria de toda maneira entrar no que restou do Shopping. Chamando por Marta, foi contido pelos bombeiros que o afastaram de uma zona critica, pois havia risco de queda das vigas que sustentavam o teto e as paredes laterais. Maria ficou sendo assistida por uma equipe da RESCUER, mantendo os olhos arregalados, às vezes piscando, olhando para um lado e para outro procurando por alguém, não dizendo uma só palavra. Dr. Abreu viu que a situação ficou grave, uma de suas pernas estavam esmagadas, os braços mutilados, mas Marta não expressava a tamanha dor, não estava morta, respirava normalmente e apenas mudou de expressão facial quando viu Charles:
          - Estava esperando você chegar. Resisti até esse momento te esperando. Existem vários anjos ao meu redor e eles sopram minhas feridas, aliviando a minha dor. A luz ofusca meus olhos, mas ainda consigo ver tudo ao meu redor.
          Antes que a luz se apague e Deus venha me abraçar queria te dizer que te amo e que sempre vou te amar, na eternidade!
          Essas foram as últimas palavras de Marta e aos gritos Charles se desesperou, ao mesmo tempo em que a equipe da RESCUER retirava o corpo de Marta naquela região crítica, entre os escombros, que prenunciava queda das paredes que rodeavam aquele cenário de terror.

Antonio Auggusto João

25 junho 2020

DOWN

Quando Letícia soube que estava grávida, não se deu conta de como seria sua vida a partir daquela constatação, pois afinal, ela ainda brincava de boneca e era sua mãe quem penteava seu cabelo quando ela ia para a escola. As transformações no corpo daquela menina de quinze anos que acabará de debutar foram preocupando sua mãe que achava que a filha não teria estrutura suficiente para interpretar a nova realidade de sua vida. Apesar de toda estrutura familiar que não deixava faltar nada para a adolescente, Letícia ainda era uma criança na concepção de seus pais e sua mãe tinha em si que teria que cuidar da criança que iria nascer, pois não poderia contar com a ajuda do pai, de dezesseis anos, nem da família dele. Os primeiros exames pré-natal foram feitos e estava tudo normal. Letícia, apesar de muito jovem, sempre foi muito estudiosa e interessada em tudo que se referia a família, a bons costumes. - Infelizmente houve um deslize e fiquei grávida, mas assumo minha responsabilidade e daqui pra frente, apesar de muito jovem e inexperiente, vou cuidar do meu bebê com carinho e amor e agradeço a Deus por poder contar com a ajuda da minha família. Esse tipo de atitude deixou seus pais mais tranquilos, pois em nenhum momento sentiram qualquer tipo de rejeição em relação a criatura de Deus que Letícia trazia em seu ventre. A gravidez transcorreu normal até o último exame, no oitavo mês, quando Letícia recebeu uma notícia dada pelo médico de que havia algum problema com relação à formação da criança em seu ventre. Todos ficaram receosos em contar a Letícia sobre o assunto, mas ela havia desconfiado e exigiu que lhe contassem: - Eu vou perder o meu bebê? O que vai acontecer? Para surpresa, Letícia não encarou o fato como um problema: A Síndrome de Down é um distúrbio genético causado quando uma divisão celular anormal resulta em material genético extra do cromossomo 21. Provoca uma aparência facial distinta, deficiência mental, atrasos no desenvolvimento e pode ser associada a doença cardíaca ou da tireoide. O tratamento é feito por programas de intervenção precoce com uma equipe de terapeutas e educadores especiais, que podem tratar a situação específica de cada criança. Quando Maria Luiza nasceu foi recebida com muito amor e carinho. Letícia foi uma mãe dedicada e doou todo seu tempo, toda sua vida para cuidar da filha que para ela sempre foi uma criança igual as outras, pois nunca faltou amor, carinho e ternura de ambas as partes.
ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

MEU PAI CHOROU

Quando garoto olhava para meu pai e imaginava ser como ele quando crescer. Minha mãe dizia que tinha que comer bastante arroz com feijão. Bem magrinho, olhava no espelho e projetava a minha imagem, a minha vida que estava por vir. Meu pai foi um comerciante das feiras livres. Carregava caixas e sacos de legumes nas costas como se fosse pena e queria fazer como ele quando crescer. Eu tinha orgulho. Ele me dizia que a força vinha da inteligência e que a inteligência era adquirida nos estudos, na força de vontade, em querer saber e conhecer. Meu pai me aconselhava a estudar bastante, para ser alguém na vida. Eu vi meu pai chorando. Nem quando a caixa cheia de legumes caiu em seus pés, tampouco quando ele tinha uma forte dor de dente. O tempo passou e comecei a compreender a vida e suas emoções. Chorei muito, mas pelos amores possíveis e impossíveis, pela falta de um ente querido, pela saudade – Palavra mais escrita pelos poetasPensei que meu pai fosse chorar como minha mãe chorou quando quase fui para o exército, quando me formei na faculdade de administração de empresas, já que não tive a sorte de ser um jogador de futebol - O sonho dele. Quando me casei, arrumei minhas coisas e fui para bem longe e mesmo assim ele não chorou. - Minha mãe chorou! Quando minha filha nasceu ele não chorou. Suas lágrimas escorriam por dentro. Queria que ele pudesse ter visto meu filho nascer! Duvido! Ele iria chorar como eu. Mas como dizem: Ninguém é de ferro: - Meu pai chorouAo ver as lágrimas escorrendo em seu rosto, me senti numa guerra, prisioneiro do inimigo. Ele reteve as lágrimas até quanto pode, mas seu coração transbordou, não teve como segurar, pois um filho que ele criou foi embora e se sentiu como se estivesse perdido uma guerra.  Chorou desesperado. Um dia vou reencontra-lo. Ele vai me abraçar e vamos chorar. Só que será um choro de felicidade! - Meu pai chorou.
ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

PARABÉNS A VOCÊ!

A festa de aniversário dos meus quatorze anos foi a última que quis comemorar, depois, nunca mais fiz uma festa no dia do meu aniversário. A comemoração caiu num sábado e o baile foi nos fundos da minha casa. Tinha mais menino do que menina, mas a festa foi minha, a vitrola foi minha e todos estavam na minha casa. Então, eu tinha que dançar e nenhuma menina se atreveu a dizer não. Foi o único baile que não "esquentei a parede", termo que era usado quando você ficava o baile inteiro encostado na parede, pois nenhuma menina quis dançar com você. Na vitrola o compacto simples do Dave McLean cantava a música we said goodbye, riscado de tanto tocar. Foi a música que mais gostei de tocar para dançar com as meninas! Minha mãe caprichou no bolo, enfeitou como se fosse um campo de futebol: - Teve vela mágica, bexigas, língua de sogra, bolo pullman, batata de casamento, pão de salsicha, bala de coco, brigadeiros, beijinhos, teta de nega, cabelo de palhaço, nariz entupido, além de doce de banana em forma de triângulo! Para beber meu pai comprou baré cola, grapete, cruch e gini!  Na hora de cantar o parabéns a você, minha mãe ficou ao meu lado, enquanto os meninos e meninas não paravam de comer e beber aquelas guloseimas! - Com quem será! com quem será! Dessa parte eu não gostava, nem na hora do:- É pique! É pique! Todos me felicitaram desejando feliz aniversário, muita saúde, prosperidade, aquelas coisas todas. E na hora do primeiro pedaço do bolo, não esqueci de presentear minha mãe que fazia aniversário no mesmo dia que eu! Teve parabéns para ela e meu pai ainda brindou com uma taça de vinho sangue de boi! - Parabéns a você mãe! Em todo dia nove de novembro e sempre!
Antonio Auggusto João

20 janeiro 2019

QUANDO A CHUVA PASSAR

Heraldo chegou em casa o sol havia nascido e seus raios, através das frestas da janela, invadiam o quarto bem arrumado e ainda podia sentir o perfume de Maria Luiza. Ela não estava em casa. Como todas as manhãs, acordava bem cedo, deixava a filha na creche e corria atrasada para o trabalho na repartição pública. Heraldo ficava pelo menos setenta e duas horas fora de casa, às vezes mais, quando as viagens eram mais longas, ou quando tinha que cobrir a falta de algum colega na Empresa de Turismo. Heraldo era motorista de ônibus, costumava fazer sempre a mesma viagem de uma capital à outra, sempre nas madrugadas, e estava bem acostumado com aquela rotina e também era bem quisto na empresa. O ônibus saía sempre à meia noite. Heraldo dirigia a madrugada inteira e chegava na cidade de destino pela manhã. Depois descansava até por volta do meio dia e dirigia novamente da cidade de destino até a cidade de origem, chegando à meia noite, pois na volta fazia escalas em cidades que ficavam no percurso. O percurso era sempre o mesmo e a empresa, precavida, dispunha de dois motoristas em todos os ônibus, para que pudessem revezar em caso de cansaço ou qualquer outro imprevisto. O trajeto sempre foi muito perigoso: Muita neblina, garoa e pistas irregulares, mas Heraldo sempre teve muito cuidado... Um excelente motorista. Ele trabalhava na mesma empresa fazia vinte anos e nunca havia tirado ferias como se devia e dizia que não conseguia ficar parado, sem trabalhar, tanto que nos dias em que ficava de folga, trabalhava com o taxi do irmão. Heraldo conhecia a maioria dos passageiros de suas viagens, assíduos, viajavam a negócios, por trabalho, estudos, pois existiam grandes empresas multinacionais e faculdades localizadas no percurso. Os passageiros ficavam tranquilos quando viam que era Heraldo quem estava ao volante do ônibus. Por outro lado, o relacionamento de Heraldo com Maria Luiza não andava bem fazia algum tempo. Ele vivia para trabalhar e ela, trabalhava para viver, pois a situação financeira do casal não era das melhores. Eles só se encontravam nos finais de semanas ou nos feriados em que por ventura Heraldo estivesse de folga. Apesar de todas as amarguras Heraldo amava muito Maria Luiza. No dia em que veio a separação definitiva, Heraldo tinha uma importante viagem onde levaria vários estudantes para fazer vestibular numa das universidades que ficava no percurso, no roteiro da viagem onde ele estava escalado como motorista. Apesar da situação conturbada que culminou na separação, Heraldo amava Maria Luiza e naquele dia todos perceberam em seu semblante uma terrível desilusão. A viagem iniciou-se pouco depois da meia noite e a previsão de chegada ao destino seria por volta das seis horas da manhã, horário suficiente para os estudantes se prepararem para a prova do vestibular que começaria por volta das nove horas. Entre os passageiros do ônibus estava Andressa. Andressa era muito conhecida de Heraldo e viajava sempre na primeira poltrona do lado direito e ficava basicamente ao lado do motorista. Heraldo e Andressa se conheciam viagens anteriores e ela sempre dizia que era muito tranquilo e agradável viajar com ele ao volante do ônibus. Naquele dia ele estava de poucas palavras face ao abalo por sua separação. Andressa entendeu e respeitou o sentimento do amigo motorista e permaneceu em silêncio durante a viagem. Ao se aproximarem da serra, uma neblina intensa fez com que Heraldo reduzisse a velocidade e andasse com mais atenção, tanto que pediu auxilio para o motorista reserva na orientação do percurso. Precavido, achou melhor parar o ônibus num recuo seguro quando começou uma chuva muito intensa. - Pessoal! Vamos esperar a chuva passar! Vou estacionar o ônibus neste recuo seguro – Disse Heraldo aos passageiros. A chuva demorou a cessar e chegou no limite de tempo em que a viagem teria de prosseguir de qualquer maneira para que os alunos/passageiros não corressem o risco de chegarem atrasados no destino e perderem a prova do vestibular. - Pessoal! A Chuva ainda continua intensa, mas temos que prosseguir! A visibilidade não era das melhores, e com toda sua experiência Heraldo dirigia o ônibus com a maior cautela e cuidado. Olhou pelo retrovisor e viu que os passageiros estavam calmos e tranquilos, muitos estavam dormindo, inclusive Andressa a quem Heraldo constantemente olhava. - Quando a chuva passar ficaremos mais tranquilos! A descida da serra era perigosíssima em dias normais, com visibilidade normal... Imagine com chuva e neblina! Heraldo por mais que tentasse tornar o ônibus dirigível, as curvas acentuadas na pista molhada e a baixa visibilidade fez com que o ônibus derrapasse várias vezes até capotar. Por sorte não caiu ribanceira abaixo. No momento do acidente Heraldo ainda percebeu que a maioria dos passageiros estavam dormindo. Ele ficou preso entre as ferragens do ônibus e até que o socorro chegasse não teve como mensurar o tamanho da tragédia, mas ouvia gritos, gemidos e pedidos de socorro. Chamou por André, o motorista reserva, mas ele não respondeu. Olhou para a poltrona onde Andressa estava sentada e só enxergou destroços. Chovia muito e isso dificultava o trabalho das equipes de resgate. Da ultima vez em que teve consciência, Heraldo reclamava que não estava sentindo sua pernas e chamava pelo nome, os passageiros mais conhecidos, sem resposta alguma. - Venha por aqui! - Não consigo me mexer! Alguém tentava prestar ajuda a Heraldo, que tentava a todo custo se desprender das ferragens. - Estou sentindo muitas dores! Estou sentindo muitas dores! Uma voz calma e tranquila, no meio daquela cena desesperadora, tentava guiar Heraldo para “um lugar seguro”, como a voz dizia: - Venha por aqui! Já existem vários que estão comigo! Estão seguros! - Mas quem é você? Você é do resgate? - Venha por aqui! Muitos já estão aqui comigo! Outros, infelizmente não foi possível! Assustado e sentindo muitas dores, Heraldo conseguiu se desvencilhar das ferragens e com muito esforço seguiu na direção em que ouvia uma voz chamá-lo sem cessar. - Entre Heraldo! Entre! Heraldo reconheceu quem o chamava e pedia para entrar: Era Andressa! Juntamente com algumas pessoas que estavam no ônibus que desgovernou e capotou. - Onde estão os outros? - Alguns foram resgatados e levados para os hospitais da região, outros, infelizmente não tiveram a mesma sorte que a nossa de conseguir entrar nesteônibus reserva”! Disse Andressa a Heraldo.Heraldo estava com o semblante assustado. Nem Andressa nem as outras pessoas estavam com qualquer escoriação e ainda ficou mais assustado quando percebeu que as fortes dores que estava sentindo havia cessado: - Nós vamos embora quando a chuva passar! Andressa repetia essa frase várias vezes, encostada na janela do “ônibus reserva” com a palma da mão direita estendida:- Nós vamos embora quando a chuva passar! Quando finalmente Heraldo percebeu o que havia ocorrido e o que estava acontecendo, chorou... Chorou e chamou por Maria Luiza. Depois sorriu, abraçou Andressa e as demais pessoas que estavam dentro do “ônibus reserva”, olhando a chuva cessar e um raio de luz brilhar no céu azul entre nuvens! - A chuva passou! Já podemos ir! Até um dia, Maria Luiza! Um dia vou chegar até você! Enquanto isso não vou parar de fazer a minha prece: Como vou chegar até você? Talvez voando, entre as nuvens, entre o céu é o amanhã. Quem sabe se eu rezar você possa aparecer e segurar na minha mão, como da última vez em que morri para te encontrar... Passarão os dias e as noites e se eu não achar o caminho, a chuva vai me levar. A chuva é sempre forte, os raios e os travões não me amedrontam mais, mas, mesmo assim, vou esperar a chuva passar... Paciente, para eu poder voar novamente entre as nuvens, pois na certa vou te encontrar e vamos para bem longe, para algum lugar... Porque eu te amo e a chuva vai passar. Vai passar!
ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

O SILÊNCIO DA PENHA - "JAMAIS TE CALAS"

Maria conheceu João na melhor época da sua vida. Ela tinha quinze anos; ele, vinte e cinco. Quando o assunto é amor, não há regra. Casais com grande diferença de idade são mais comuns, contudo a questão sugere tabu para muitas pessoas, principalmente se a diferença ultrapassa os dez anos. A sociedade está muito mais aberta a aceitar que a idade não é impedimento para o amor, mas é preciso compreender o que a diferença pode significar na vida a dois. Amadurecimento deve ser a palavra de ordem em um relacionamento desse tipo. Quando um casal é maduro, independente da idade, a convivência tende a ser harmônica e as possíveis dificuldades em relação à diferença não serão valorizadas pelo casal. Comentários preconceituosos são menos frequentes mais existem e, em alguns casos, eles vêm da própria família. Não dá para controlar a opinião das pessoas, e por isso o casal deve ter paciência para que o tempo dê um jeito de mostrar para a família que os dois se amam e que é isso que realmente importa”.  Quando existem valores essenciais, como o amor, a sinceridade, a amizade e o desejo, a relação se fortalece independente do preconceito. Quando isto existe a diferença de idade não atrapalha e o casal lida com ela de forma simples e natural. Essa questão pesa quando não há equilíbrio na relação. No começo do relacionamento de João e Maria o que  predominava eram as juras de amor. Maria estava apaixonada e não se cansava em se declarar para João. - Você sabe que Te Amo. Sabe que sou completamente apaixonada por ti, por cada um dos detalhes físicos e de caráter que fazem de ti um ser único e especial. Mas há algo em ti que me deixa completamente encantada: é a sua boca maravilhosa, capaz dos sorrisos mais luminosos, dos beijos mais calorosos e das palavras mais carinhosas. É da tua boca que sempre me chega o conforto, seja através dos teus especialíssimos toques, seja através das palavras doces que só ela é capaz de dizer... Como é possível tão forte beleza repousar sobre lábios tão gostosos? E quer saber mais, quando tua boca se abre em um sorriso, o mundo fica mais claro e a minha alma enche de luz, pois você sorrindo é Lindo um Gatinho... Meu eterno Amor. A tua boca me fascina e as palavras, sempre as boas palavras que diz através dessa boca linda me cativa definitivamente, faz com que eu viaje por um mundo de paz e amor. Ver teu sorriso e ouvir a tua voz são coisas que me faz muito feliz. E quando essa boca se cala em beijos que calam fundo no meu corpo? Nem imagina as sensações maravilhosas que os teus beijos, os beijos dessa boca encantadora me proporcionam. Amo-te João, amo-te inteirinho, mas fico completamente alucinada quando olho para tua boca, quando me aproximo da tua boca, quando toco a tua boca com a minha bocaMaria não se completava sem João...
TRECHO DO LIVRO

O BEIJO QUE VOCÊ ME DEU... LEMBRA?

Os alunos sempre ficavam perfilados no pátio e ouviam o hino nacional antes que subissem para a sala de aula. Depois, os inspetores conferiam na fila se todos estavam com os uniformes devidamente alinhados, limpos, sapatos engraxados, cabelos penteados e devidamente aparados. Evidente que existia certo rigor excessivo, mas servia para complementar a educação que recebíamos de nossos pais. Para complementar o rigor, os meninos ficavam bem longe das meninas, mas mesmo de longe eu conseguia ver a beleza de Elizabeth, para mim, a menina mais linda do Grupo Escolar. Quando terminávamos de cantar o hino nacional, os meninos e meninas, perfilados, se dirigiam para a sala de aula e sempre, num dado instante, a fila dos meninos se encontrava com a fila das meninas. Como eu era um dos mais altos, ficava sempre no final da fila e consegui ver todas as meninas passarem e me encantava com todas, mas em especial com Elizabeth. Elizabeth sempre ganhava os concursos de menina mais bonita e que tirava as melhores notas em todas as matérias e eu de cara deduzi que para conquistá-la, primeiro teria que ser um excelente aluno. Eu me esforçava demais para tirar boas notas. Minhas notas não eram ruins, mas não iguais a de Elizabeth. Na sala de aula eu gostava de sentar-me na lateral, do lado da janela. Elizabeth sentava-se numa posição mais central, na terceira fileira e da minha posição conseguia ver suas pernas perfeitas e seu corpo de silhueta de traços uniformes, tudo encaixado na saia cinza e camisa branca. Eu precisava de uma chance, de uma oportunidade de ficar frente a frente com Elizabeth e poder iniciar uma conversa. Nos grupos de trabalho eu gostaria de poder participar com Elizabeth, mas a professora, a chata da Dona Cacilda quem formava os grupos e ela sempre separava os meninos das meninas: - Vai ter a festa de aniversário do Robertinho. Você vai? Sinceramente não estava a fim de ir à festa do aniversário do Robertinho. Eu estava cansado de ficar esquentando a parede da garage onde fazíamos os bailes, principalmente quando tocava a música we said goodbye do Dave McLean. Nenhuma menina queria dançar comigo: - Você é muito alto. Diziam elas. Mas quando fiquei sabendo que Elizabeth iria à festa, não pensei duas vezes. Fui. O Robertinho era um cara legal, mas muito metido. Era ruim de bola, preferia jogar vôlei a futebol, por isso não fazia parte da minha roda de amigos, mas, mesmo assim nos dávamos bem. O pior foi saber que ele também estava a fim da Elizabeth e além do mais as notas dele eram melhores que as minhas. O grande defeito de Elizabeth era escolher seus amigos e amigas em função das notas que tínhamos no boletim. Isso me incomodava, pois, apesar de não ser mal aluno, estava no terceiro escalão de notas e assim seria difícil me aproximar de Elizabeth. Todos achavam Elizabeth a mais linda da escola. Até as meninas, os professores, a diretora, achavam Elizabeth linda, e eu, evidentemente, muito mais ainda. Quando cheguei à escola naquele início de tarde, após cantarmos o hino nacional e tomarmos uma geral dos inspetores, as filas iniciaram a subida para as salas de aula. Na curva da escada, me dei de frente com Elizabeth.  Meu Deus! Que garota linda! Ela olhou para mim e sorriu. Minha boca ficou aberta e eu hipnotizado. Os olhos de Elizabeth brilhavam e as minhas pernas tremiam. Ela sorriu novamente e me chamou pelo nome: Você vai à festa do Robertinho? - Vou sim! - Então nos vemos lá! Na sala de aula era muito difícil os meninos conversarem com as meninas por causa da Dona Cacilda e as chances disso acontecer era na fila, depois do hino, subindo as escadas em direção à sala de aula. No recreio também era tudo separado e sempre éramos vigiados pelos inspetores. Uma vez eu e o Robertinho armamos um plano que deu certo e conseguimos passar para o lado das meninas. Foi uma aposta. Quem conseguia passar as meninas beijavam... Pena que aquilo me custou dois dias de suspensão e uma carta de advertência, assinada pela Dona Cacilda. Fiquei muito feliz de ter tido a oportunidade de conversar com Elizabeth e teria uma grande oportunidade de conversar novamente na festa do Robertinho. De volta para casa, naquele dia, comecei a descobrir o que é realmente o amor, como ele se manifesta e as transformações que temos no comportamentos e ficamos como se realmente estivéssemos no "mundo da lua". A partir daquele momento eu tinha decidido que iria tentar conquistar Elizabeth de qualquer maneira. Eu estava apaixonado e meu primeiro desafio foi melhorar ainda mais meus estudos, pois sabia que a maneira mais rápida de me aproximar de Elizabeth era ter um boletim cheio de notas verdes. Minha mãe ficou preocupada e confusa, pois pelas notas que eu tinha no boletim não era necessário que eu me "matasse" de estudar. Meu pai ficou muito preocupado, pois me pegou várias vezes nas madrugadas debruçado e dormindo sobre os livros: - O que será que está acontecendo com esse menino?
       A festa foi um fracasso. O puto do Robertinho só convidou homem. Devia ter uns quinze meninos para quatro meninas, dentre elas Elizabeth. A vitrola quebrou na terceira música e o jeito foi ficar conversando, comendo bolo pullman e bebendo crush. Elizabeth foi logo embora. Seu pai veio buscá-la muito cedo e assim a festa perdeu a graça, pois as outras três meninas eram muito feias. Na semana seguinte eu teria uma grande chance de mudar o rumo desta história. Aconteceria um concurso ou uma gincana de matemática. Eu havia estudado feito louco nos últimos meses e as minhas notas que já eram boas, ficaram ótimas. Só que desta vez a gincana teria um atrativo a mais e que aguçou todos os meninos: Como Elizabeth vencia todas as gincanas de matemática, daquela vez ela não participaria. Além disso, o primeiro colocado dos meninos ganharia um beijo de Elizabeth. Existiam doze meninos participando da gincana, pois somente os doze que tinham as melhores notas poderiam participar. Os três primeiros colocados ganhariam medalhas de ouro, prata e bronze e o primeiro colocado, além da medalha de ouro, ganharia o beijo de Elizabeth. A prova foi composta por dez questões, dez exercícios de matemática em que os doze meninos teriam quarenta e cinco minutos para resolvê-los. Eu estava bem preparado, tinha estudado bastante, gostava muito de matemática, mas os outros garotos também eram bons e todos nós queríamos o beijo da garota mais linda e mais gostosa da escola. A prova não estava difícil, mas o professor Alcides era mestre em preparar algumas pegadinhas nos exercícios que fazia confundir e se não fossemos espertos poderíamos errar até mesmo os exercícios fáceis. Terminei a prova com trinta e sete minutos. Robertinho terminou com trinta e os outros concorrentes ainda ficaram "quebrando a cabeça" - Cadê Elizabeth! - Calma garoto. Tá com fogo? Disse a Dona Angélica, diretora que iria ajudar o professor Alcides na correção das provas. Eu estava nervoso, minhas mãos estavam suando e me deu vontade de fazer xixi. Fui ao banheiro e no corredor encontrei-me com o Robertinho: - O que achou da prova?
     - Não estava difícil, mas o professor Alcides gosta de fazer pegadinhas nas questões. - É mesmo, mas minha medalha e meu beijo estão garantidos, disse o metido do Robertinho. O professor Alcides começou a corrigir as provas com um sorriso sarcástico no rosto quando a diretora Dona Angélica disse que todos estavam dispensados e podiam voltar para suas casas e que o resultado da gincana de matemática somente seria divulgado no dia seguinte. Foi muito difícil dormir naquela noite que antecedeu o resultado da gincana. Eu tinha certeza que tinha ido bem na prova, mas me bateu um conflito em minha consciência. Eu estava apaixonado pela Elizabeth, mas não queria ganhá-la num concurso de matemática e ao mesmo tempo o beijo seria apenas um cumprimento, da mesma forma que as pessoas se saúdam por um feito, prêmio etc. Dessa maneira eu fui para a cerimônia de premiação despreocupado, sem a ansiedade de que teria que ganhar a qualquer custo e pensar que o beijo de Elizabeth valeria mais do que a medalha de ouro. - Vamos iniciar o anúncio do resultado, Disse a Dona Angélica. Eu fiquei longe do palco. Estava estranho naquele dia. Senti uma vontade de ir embora e sequer saber do resultado da gincana. No meio da multidão de alunos não consegui avistar Elizabeth, enquanto a Dona Angélica entregava a medalha de bronze para o Victor Hugo. O Robertinho esfregava as mãos, mas ficou decepcionado com a medalha de prata.
       - E o vencedor da gincana de matemática da oitava serie do ano de mil novecentos e setenta e quatro foi... Quando o professor Alcides anunciou meu nome como vencedor, a única coisa que me veio à mente foram os dias em que passei estudando até nas madrugadas para que pudesse estar mais perto da garota que eu estava apaixonado. Lembrei-me da preocupação dos meus pais e cheguei à conclusão naquele momento que o mais importante era saber que fui capaz de atingir um objetivo e isso foi muito importante para o que eu pretendia na minha vida. Quanto a Elizabeth, para que deveria me preocupar com o beijo se ela nem ao menos estava na cerimônia de premiação? - Eu estou aqui! Eu vi quando você se afastou do palco e veio nesta direção! Era Elizabeth, na minha frente! Ela olhou em meus olhos e logo fui hipnotizado pelo brilho de seus olhos de ébano, enquanto a Dona Angélica me chamava pelo microfone para me entregar a medalha de ouro. - Fiquei contente que você venceu a gincana. Torci por você. Na verdade eu não estava acreditando no que estava acontecendo. Abaixei a cabeça e vi quando os pés de Elizabeth caminharam na minha direção. À medida que ela se aproximou, exalou um perfume que jamais havia sentido. Parecia que eu estava num imenso jardim em que todas as rosas tinham inveja de Elizabeth, por ela ser a mais bela, a mais perfumada. E quando ficamos frente a frente, pensei em dar uma face para que Elizabeth me beijasse, pois afinal, eu havia ganhado a medalha de ouro. Mas existem momentos na vida que são únicos, que não podemos deixar passar, pois só existem uma vez e pode ser que não teremos mais uma oportunidade como aquela. E foi então que ao invés da face, dei minha boca para Elizabeth. Foi uma sensação única que pensei que demoraria poucos segundos e fomos surpreendidos por um longo beijo. E o beijo quando somado ao abraço, invade a alma e o coração dispara feito uma bateria de ritmos descompassados, e o resultado são formas de expressão, como as bochechas vermelhas no rosto de Elizabeth e as minhas pernas trêmulas, resultando no que chamamos de paixão. - Elizabeth, eu nunca vou me esquecer daquele beijo. Do beijo que você me deu!
        “O mundo pode acabar amanhã que não vou me esquecer do beijo que você me deu! Existem momentos na vida que ficam gravados para sempre na alma e no coração. E isso se torna um combustível que nos permite forças para nunca desistir de caminharmos em busca da felicidade. E é por isso que nunca vou me esquecer do beijo que você me deu! Lembra? Mesmo quando as estrelas uma a uma estiverem se apagando não vou esquecer-me do beijo que você me deu. Se estiver velho e sem forças, quando meu coração insistir em parar de bater, vou recordar o beijo, daquele beijo, do beijo que você me deu. Para o caminho que eu seguir, pode ser que minha memória se apague. Em meus devaneios vou pedir ajuda de Deus para que não se apague a lembrança do beijo, do beijo que você me deu. E se a saudade for tanta, tamanha, que eu queira deixar de existir para esquecer-se do gosto do teu beijo, caminharei das mais distantes vilas, do fundo do mar, da última estrela do universo, do infinito, e vou pedir a Deus para nascer de novo, nem que seja por alguns minutos, e que eu possa te encontrar de novo e você me dar um beijo igual àquele que você me deu!”
TRECHO DO LIVRO

09 janeiro 2018

O CÉU TEM QUE ESPERAR

Quando Pedro ficou sabendo que Sofia estava grávida do primeiro filho, estava na estrada rumo a visitar um cliente distante, que lhe renderia uma boa comissão. - Amor! Amor! Deu positivo! Deu positivo! Sofia passava o tempo todo conectada, seguindo os passos do marido aonde ele ia. Pedro sempre foi fiel à Sofia, não dava motivos para ela desconfiar de qualquer coisa, mas como ficava conectada, Pedro tinha que estar o tempo todo online. - Querido! Não se esqueça de trazer as batatas fritas, vem logo para não chegarem frias e tem que ser as do Mcdonalds. Se estiver fechado, tenta o drive thru! Existem casais que foram feitos um para o outro. Esse era o caso de Pedro e Sofia. As manias de Sofia não perturbavam Pedro, o que, diferentemente, se fosse casada com outro homem, com certeza o casamento não daria certo, pois na concepção de vários amigos, Sofia era verdadeiramente uma chata em pessoa! Querido! Onde você está? Já mandei várias mensagens e não responde. Você está online? Sofia e Pedro tinham resolvido não saber antecipadamente o sexo do bebê, mas ele ficou muito ansioso. Ela sabia que Pedro tinha preferência por um menino, mas se viesse uma menina, ele ficaria contente do mesmo jeito: - Compra tudo branco, amarelo ou verde! Não amor! Vamos saber antes! Sei que está ansioso por isso! - Está bem! Sofia realizou o pré-natal e tinha consultas todos os meses. A gestação transcorreu normal, só que de vez em quando, Sofia “judiava” de Pedro, que fazia tudo que ela queria na mais perfeita tranquilidade.  - Estou com vontade de comer caju! Eu estou dirigindo amor! Quando eu chegar em casa a gente combina! Quero agora! Estou com vontade agora! Tá bom! Vou passar no supermercado antes de voltar para casa Te amo!  - Também te amo amor! Pedro estava numa excelente fase em sua vida profissional. Corretor de Seguros, atendia vários clientes em todo estado, grandes empresas, que lhe garantia uma excelente remuneração. Quando chegou o dia da ultima consulta do pré-natal, Pedro e Sofia resolveram saber o sexo do bebê: Se fosse um menino, seria batizado como Pedro Junior e se menina, Stephanie. O médico posicionou lhes que estava tudo bem, que o bebê estava na posição correta para o parto e, mostrando a eles no monitor, informou que nasceria um meninão. Pedro deu pulos de alegria e fez o maior escândalo no consultório médico, como se a criança tivesse nascido! - Mãe! Vai ser um menino! Pedro Junior! - Que bom minha filha! Liga para seu pai! Os pais de Sofia eram separados e ela não se dava bem com o pai e só falava com ele, às vezes, pelas redes sociais, cujo Sofia era vidrada e “viciada”: - Amor! Agora você já pode comprar tudo azul, até o berço! - Sim querida! Vamos comprar tudo azul! Pedro não cabia em si de alegria e mais importante para ele foi que Sofia estava bem, alegre e tranquila. Só faltava formalizar junto ao hospital sua assistida ao parto, onde também iria filmar e registrar o grande momento de sua vida. Pelo cálculo do médico, o bebê iria nascer bem próximo do aniversário de Sofia, dia nove de novembro, o que seria mais uma grande alegria! Já pensou amor! Nascer no mesmo dia do seu aniversário! Seria incrível! Vou ter que desconectar amor! Estou dirigindo e não posso ser multado. À noite a gente conversa. - Não saia não amor! Vamos continuar conversando! - Não dá não! Olha aqui! Quase bati o carro! Sofia usava todas as redes sociais para conversar com Pedro, o dia inteiro. Pedro viajava muito de carro para visitar os clientes e fechar seus negócios e ela o tempo todo no pé dele. O risco de ele sofrer um acidente era iminente, pois Sofia não sossegava e o telefone smartphone ou o laptop era como se fosse parte de seu corpo: Não existia sem eles. A preocupação de Pedro começou quando tiveram o primeiro alarme falso: Pedro estava na estrada, vindo de uma reunião com um cliente e Sofia mandou-lhe um messenger dizendo que estava sentido fortes dores. Se o Junior estivesse mesmo nascendo, Pedro não chegaria a tempo de assistir o parto, filmar, fotografar, como tanto queria. Assim, como seus negócios estavam prósperos, Pedro resolveu se ausentar do trabalho até que Junior nascesse. Então Pedro começou a passar os dias paparicando Sofia até chegar a hora do parto. Pedro Junior ainda não tinha nascido, mas já fazia parte de um grupo numa rede social onde existiam membros das famílias, tinha também o nome gravado na camisa do time de futebol preferido do pai, não o da mãe, e o quarto estava todo azul, exceto o berço que ficou na cor branca para dar um aspecto de céu ao quarto: - Querido! Onde você está? - Estou no mecânico fazendo a revisão do carro! - Corre pra casa querido! Acho que chegou a hora! Sofia não esperou por Pedro e seguiu de taxi para a maternidade, junto com a mãe e uma irmã. Estava tudo bem com Sofia, o bebê iria nascer, estava tudo sob controle. Pedro teve que ficar esperando o carro ficar pronto, mas preocupado, pois não teria como chegar a tempo de assistir ao parto. Saiu da oficina em disparada para a maternidade. Estava chovendo muito naquela tarde e a pista escorregadia. Pedro dirigia além dos limites e as mensagens de Sofia não paravam de chegar em seu smartphone, a todo o momento: - Chega logo querido! Vem logo! Corre! - Amor! Onde você está? Vem logo! Ao passar por um túnel que ligava os dois lados da cidade, Pedro não se deparou com a pista irregular e um carro quebrado do lado direito. Não teve visibilidade o suficiente e justamente quando estava respondendo uma mensagem de Sofia, - “Querida, eu te amo”, bateu violentamente na traseira de um carro furgão que seguia lentamente à sua frente: Foi fatal. Imediatamente o trânsito parou e as pessoas desciam do carro para socorrer Pedro, mas ele teve morte instantânea, preso entre os ferros retorcidos que sobraram do veículo. Na pista, o smartphone ainda tocava insistentemente, além das várias mensagens deixadas em sua caixa postal, conforme apurado pelos bombeiros que o socorreram: - Nossa! Que batida feia! Mas... Esse é o meu carro! Estou vendo pela placa! E aquele corpo deitado no chão todo quebrado é o meu! Sou eu! Mas... Como pode ser! Sou eu! Eu morri? Mas eu aqui, estou vendo! Que luz forte é essa? - Calma aí! Não quero subir! Eu preciso correr para a maternidade, pois meu filho Junior está nascendo! Cadê meu celular? E agora! Sofia vai me “matar”! O que sobrou do acidente foi o celular de Pedro, por onde a polícia chegou a um dos parentes para dar a terrível notícia. Sofia teve o bebê, que nasceu de parto normal e com saúde. Quando souberam da noticia sobre a morte trágica de Pedro, os médicos acharam por bem mantê-la sedada, até que achassem uma melhor maneira para dar-lhe a notícia. Quando ficou sabendo, Sofia custou a acreditar, pensando ser uma brincadeira. Quando a ficha caiu, como se diz na gíria, Sofia teve que ser sedada novamente. No velório de Pedro, como não poderia deixar de ser, a tristeza foi comovente e Sofia não parou de ser consolada por familiares e amigos: - Nossa! Meu Deus! Aquele sou eu! Eu estou no caixão! Eu morri... Mas preciso entregar a camisa do meu filho! Cadê meu filho?  Ei Deus! Não posso subir agora, tenho que entregar a camisa do meu filho! Espere mais um pouco... O céu tem que esperar. - Ei querida! Querida? Olhe para mim, estou aqui, não está me vendo? Querida? Ei vocês! Ninguém está me vendo? Pedro ainda não havia se acostumado com seu "estado de morte" e não sabia o que fazer: - Querida! Você precisa pegar a camisa do Junior. Eu deixei no fundo da minha gaveta onde guardo as minhas camisetas... Vai logo que não sei até que momento o céu pode me esperar! Se morri, por que ninguém vem me buscar? Eu não sei como chegar ao céu. Mas será que vou mesmo para o céu? Pedro foi sepultado e Sofia não conseguia tirar a tristeza do rosto, nem da alma. Vivia choramingando pelos cantos e não falava com ninguém. Pedro Junior nasceu com saúde e com a cara do pai e esse foi o único motivo para Sofia continuar vivendo: - Sem meu amor eu quero morrer. Dizem que quando morremos inesperadamente e deixamos algo muito importante pendente de realizar, Deus nos concede “um tempo” antes de seguirmos definitivamente para a vida eterna e Pedro sonhava com aquele momento de poder vestir seu filho com a camisa do time de futebol preferido com o nome do filho nas costas: - Pelo estado que ficou o carro, pensei que eu estaria todo quebrado aqui, a caminho do céu, mas não senti e não estou sentindo dor nenhuma e “alguém” já está me chamando para subir, mas tenho que entregar a camisa, tenho que fazer Sofia descobrir onde está a camisa. Eu consigo ouvi-la, mas ela não me ouve, ninguém me ouve e eu preciso que ela vista a camisa no Pedro Junior para que eu possa seguir em paz! Ainda bem que não tenho sono, fome ou coisa nenhuma, só sinto uma vontade imensa de fazer com que Sofia atenda o meu pedido e eu possa ver meu filho com a camisa. Acho que Deus só está esperando isso para que eu vá embora para o céu... E tomara que seja mesmo o céu... Tem que ser o céu, pois eu fui um bom homem na terra. Mamãe, hoje é o dia da missa do sétimo dia da morte do Pedro. Encontro com a senhora na igreja! Beijos! A igreja ficou lotada. Os amigos do trabalho, os familiares e até as antigas namoradas estiveram presentes. Todos comentavam da tristeza da perda de um grande cara que foi o Corretor de Seguros Pedro Antonio de Figueiredo e o azar que teve por morrer justamente no mesmo dia do nascimento do filho que tanto queria presentear com a camisa do clube e com quem sempre imaginou brincando, educando e sendo seu parceiro para a vida toda, que infelizmente foi abreviada por um gravíssimo acidente de carro. Após a missa Sofia voltou imediatamente para casa, pois não queria muita conversa para não ficar a todo o momento tristonha pelo acontecido. Preferia ficar confinada em sua casa, cuidando de Pedro Junior e conectada nas redes sociais quando quisesse desabafar com alguém, porém sabia que sua vida teria de mudar, pois precisaria trabalhar, voltar a estudar, não depender apenas da pensão que Pedro iria deixar: Precisaria mudar a sua vida e tentar ser feliz novamente, por mais difícil que poderia parecer. Ei Sofia! Sofia! A camisa está na ultima gaveta da cômoda do nosso quarto, junto com minhas outras camisetas. Pegue por favor, vista no Junior que eu já estou sendo “pressionado” para ir embora para o céu! - Nossa Sofia! Como você está bonita! Pena que não consigo te agarrar meu amor! - E você Junior! Nossa! É a minha cara mesmo! Sorria para o papai! - Mamãe, amanhã a senhora pode ir comigo no advogado? Tenho que cuidar dos papéis do Pedro, do seguro de vida e tudo mais. Aos poucos Sofia foi se desvinculando da tristeza, pois não poderia ficar naquele estado a vida inteira. O seu amor por Pedro será eterno, como ela dizia, mas o mundo não havia se acabado e ela tinha uma grande missão: Criar o filho, fruto de seu grande amor vivido com Pedro e abreviado inesperadamente. - Vou viver em função do meu filho e sempre terei meu eterno amor em minha memória! Sofia reagia a cada dia, mas as recaídas eram frequentes e nos momentos de tristeza sentia que Pedro estava ao seu lado, tentando conforta-la, pedindo para que seguisse a vida. Muitas vezes sonhava com Pedro e os sonhos eram tão reais que ela duvidava que ele estivesse morto. Uma vez o sonho parecia tão real que Sofia acordou abraçada ao travesseiro, como se estivesse abraçando e beijando Pedro: - Eu senti até o gosto do beijo! Sofia sabia que Pedro estava por perto, pois tinha muita fé em Deus e acreditava que em espírito Pedro estava olhando por ela e pelo filho Júnior. Não quis se desfazer de nada que pertencia a Pedro, como roupas ou objetos, manteve-os como sempre estiveram, guardados e arrumados, para poder recordar. Dizem que devemos nos desfazer dos pertences dos que já morreram, mas para Sofia, o que mais queria era estar com Pedro em pensamento, a todo o momento, mesmo que causasse tristeza, mesmo que não fosse bom para ela se recuperar da solidão. Depois de um tempo, Sofia mudou completamente a sua vida, largou o luto e começou a trabalhar como corretora de seguros, mesmo trabalho que Pedro exercia. Pegou a mesma carteira de clientes e captou novos e assim seguiu sua vida. A maior parte do tempo trabalhava em casa, em home office, e quando precisava sair para visitar clientes, sua mãe quem ficava cuidando do filho. Isso fez com que Sofia se distraísse, não ficasse somente pensando na falta que Pedro lhe fazia e assim pode cuidar do filho da melhor forma possível. Porem, com o passar do tempo, os negócios começaram a ficar escassos. O mercado parou em função da recessão no país, troca de governo, aumento de impostos, e a situação ficou difícil. Sofia teve que cortar alguns gastos e tirar o filho da escola particular. Estava vivendo um momento muito delicado e certa vez quando estava tomando um café, com a cabeça em outro mundo, uma senhora apareceu e lhe perguntou: - Minha filha, você está se sentindo bem? Às vezes uma palavra basta para a pessoa desabar na melancolia, desabafar e pedir socorro mesmo pra quem a pessoa não conheça. Sofia estava desolada e precisava desabafar e aquela senhora apareceu em boa hora. Ficaram horas e horas conversando, trocaram telefones e prometeram se encontrar novamente. Ao chegar em casa notou que algo estava errado. O semblante de sua mãe era de uma mulher assustada, muito assustado. Sofia entrou correndo no quarto e percebeu que Junior não estava bem: - Ele está ardendo em febre. Já ministrei uma medicação, mas não está tendo efeito. Disse sua mãe. Sofia pegou o menino no colo e ele estava muito quente. Junior não chorava, apenas mantinha os olhos fixos nos olhos da mãe, como que se não tivesse forças para chorar. - Mamãe, não vamos esperar mais. Vamos leva-lo ao pronto socorro. Ao chegarem no pronto socorro, dirigiram-se imediatamente para o setor de urgência e emergência. Junior estava no colo da avó, que despercebida, não se deu conta que o menino estava com uma fisionomia muito estranha. Uma médica se apresentou para examinar o garoto e ao pegá-lo no colo, chorou. A médica chorou. O menino estava com os olhos fundos, de fisionomia estranha, sintoma agudo de desidratação. Junior começou a chorar e naquele momento até que foi bom, pois mostrava algum tipo de reação do menino. Sofia estava por um fio, a ponto de estourar e se desesperar, mas manteve a angustia, sem deixar o desespero lhe apoderar. Uma equipe de médicos e enfermeiros começaram os procedimentos para tratar do menino. Sofia e sua mãe permaneceram muito aflitas na sala de espera. As horas foram passando e a angustia aumentando, até chegarem ao desespero: - Como ele está Doutor? - O estado dele inspira cuidados. Estamos realizando todos os procedimentos, mas ele precisa reagir. O dia amanheceu e Pedro Junior ainda estava em estado grave. Os médicos pediram para que Sofia ficasse com o garoto no colo, tentasse fazer com que ele se movimentasse, reagisse, pois a medicação somente não estava surtindo efeito rápido. O garoto não reagia, não chorava, mas também não esboçava sorriso e não queria se alimentar, ficando apenas no soro. No terceiro dia de internação Junior esboçou uma melhora, mas foi aparente. - Chamando Doutor Esteves! Emergência! A insistência no chamado pelo autofalante despertou Sofia, que descansava na sala de espera: - Emergência! Quarto 411. EmergênciaO quarto 411 era o que estava Pedro Junior. O estado clinico do menino havia piorado.  - Vamos transferi-lo para a UTI! Sofia, naquele momento, ficou impedida de acompanhar o filho na UTI, abraçou a mãe e chorou muito, tanto que teve de ser sedada, pois seu desespero era enorme. Enquanto os médicos ficaram full time cuidando de seu filho na UTI, Sofia adormeceu com os medicamentos que recebeu. Sua mãe havia voltado para casa e não ficou sabendo da reviravolta negativa no estado de saúde de Pedro Junior. É você querido! Venha logo! O Junior não está bem! Amor, o que está acontecendo? Você pode me ouvir? Nosso filho! Não está bem! Está na UTI! UTINa manhã seguinte, Sofia foi despertada por sua mãe. O efeito dos sedativos havia passado e ela se desesperou a contar à mãe que Junior não estava bem. Os médicos deram permissão para que somente Sofia fosse vê-lo na UTI. - Senhora Sofia, Seu filho permanece sem nenhuma reação. O estado de saúde dele é muito grave. Estamos fazendo todos os procedimentos possíveis para reverter o quadro, mas não tivemos sucesso até o momento. É preciso ter muita calma nesse momento difícil. Vamos continuar cuidando do seu filho da forma mais adequada. Tenha fé, reze, ore... Isso vai ajudar. Esse foi o relato do médico. Frio e seco. Sofia resolveu esperar mais um pouco antes de entrar na UTI. Tinha algo a fazer. Entregou algumas peças de roupas que sua mãe havia trazido para as enfermeiras trocarem o menino, fez suas preces, suas orações. Ela sempre teve fé, muita fé. Disse à sua mãe que queria ficar sozinha na sala de espera, o que foi respeitado:  Pedro! Onde você está? Eu pedi a Deus para falar com você! Pedro me responda, por favor. Nosso filho não está bem! Ele precisa muito de você! Quando finalmente Sofia se dirigiu para a UTI, percebeu que existia no interior um enfermeiro que ficava a todo o momento fazendo anotações numa folha de papel, como se estivesse escrevendo um prontuário. - Ele está reagindo! Ele está reagindo! Ele está olhando pra mim! Ele sorriu! Sofia chamou imediatamente os médicos, que ao verem o menino sentado na cama, sorrindo, brincando com a mãe, fizeram cara meio que de espanto e felicidade. - Inacreditável ! - Mamãe, estou com fome! Os médicos pediram para buscar o prontuário do menino, quando Sofia indagou que o documento estava com o enfermeiro: - Que enfermeiro? Aqui na UTI somos somente em dois médicos! - Mas eu vi um enfermeiro aqui dentro fazendo várias anotações e ministrando alguns remédios... - Bom... O pior passou. Vamos mantê-lo em observação por mais quarenta e oito horas! Depois de uma semana Pedro Junior já estava em casa. Forte, feliz, correndo de um lado para outro e fazendo a maior bagunça com os brinquedos espalhados pela casa. - Mamãe, eu ainda não tinha visto aquela camisa que você levou para trocar o Junior no hospital: - Que camisa? - Aquela de um time de futebol e que tem o nome dele escrito nas costas. Achei muito bonita! - Bom... Eu também achei muito bonita! - Ei querida! Sofia! O Junior está curado! Eu recebi a sua mensagem! Ele ficou lindo com a camisa! Sua mãe achou na gaveta conforme indiquei. Agora preciso ir, pois o céu não pode mais me esperar! Vejo ao meu redor vários entes queridos sorrindo para mim. O caminho é estreito, mas cabe todo mundo. Estamos sendo guiados por raios de luzes! Sinto uma paz enorme e não sinto nenhuma dor. Deus soprou carne aos meus ossos mutilados e as minhas feridas se secaram, desapareceram! O lugar para onde estou indo deve ser mesmo maravilhoso! Deus me disse! Sei que de lá do céu vou poder ver você e ao nosso filho, rezar por vocês e amenizar a saudade, pois não existirá a tristeza alguma e um dia sei que vamos nos reencontrar! Que assim seja!
ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

01 janeiro 2018

JESUS CHOROU

Eu só conseguia enxergar as luzes da ambulância que e os olhos arregalados da paramédica monitorando meu coração. O barulho externo era evidente, a ambulância estava em alta velocidade, mas eu não ouvia nada, um silêncio, uma paz estava dentro de mim e em nenhum momento me vi desesperado. Será que Deus nos prepara para o momento da “virada”, quando passamos desta vida para outra? Pensei, calei. A paramédica olhava constantemente para os meus olhos e para os sinais dos aparelhos que estavam ligados por um monte de fios no meu peito. Quando chegamos ao pronto socorro existia uma equipe de médicos e enfermeiros me aguardando na recepção. Quanta honra! Pensei, lembrando que na minha vida eu nunca tinha perdido o senso de humor. Uma gritaria tomava conta dos profissionais que me atendiam. O corredor que ligava a entrada do pronto socorro até a sala de emergência era estreito e gelado e uma gritaria e correria dos profissionais era tão intensa que parecia que a dor era mais intensa neles do que em mim. - Vamos fazer a reversão elétrica! Disse um dos médicos que me atendia. - Anestesista, anestesista! Suplicava o médico. Em pensamento, pedia a todos que tivessem calma e, em silêncio, comecei a rezar. Um filme da minha infância passava constantemente na minha mente e eu me via segurando na mão da minha querida mãe. De uma hora para outra me senti como se estivesse levitando. Eles percebiam que eu acompanhava desde o início todos os “trabalhos”. O efeito da anestesia foi muito rápido e me senti no intervalo entre deitar-se numa cama e pegar no sono. Sentia frio e calor ao mesmo tempo e nos últimos segundos da minha lucidez tive a nítida impressão que do quadro que ficava no alto da parede da sala de emergência, Jesus olhava para mim com um semblante de quem estivesse pedindo calma, muita calma e paciência. Das ultimas vezes em que havia sido anestesiado, me via num sonho como se tivesse regredindo ao passado, à minha infância e de certo modo fiquei ansioso, pois sabia que iria rever os meus entes queridos. Se morrer significasse aquilo que eu estava sentindo, então eu estava tranquilo, pois não sentia dor alguma e eu estava numa paz de espírito tão grande que não via a hora de me encontrar com Jesus Cristo: - Como será que ele vai me receber? Logo na chegada vou dar-lhe um abraço bem forte e não vou esperar muito para perguntar sobre meu pai, minha mãe e minha filha, principalmente. Claro que vou querer ver todo mundo e também a minha avó que muitas vezes me livrou das chineladas da minha mãe. Eu estava num corredor estreito, iluminado por luzes amarelas e pelos raios do sol. Não tinha ninguém ao meu lado e fui descendo como se estivesse escorregando num tobogã. A descida terminou e cheguei num imenso jardim. O dia estava muito bonito, como nas manhãs de primavera e os bem-te-vis cantavam forte e davam voos rasantes entre uma árvore e outra. As árvores eram frutíferas, só que eu não conseguia distinguir quais frutas eram. Por vezes colocava a mão no meu peito que ardia como se eu estivesse pegando fogo. Era como se estivesse com um ferro de passar roupas grudado no meu peito. Ouvia vozes, não sabia de onde vinham... - Desfribilador, desfribiladorAlguém estava desesperado. De uma hora para outra, percebi que uma força me conduzia para algum lugar, não sabia onde, mas que era muito agradável estar ali. Eu vi o sol. Eu vi um lago de águas azuis cristalinas e não me contive e rolei no mato que tinha gosto de framboesa. - Onde está todo mundo? Indaguei a mim mesmo. - Onde está Jesus Cristo? Por que está demorando pra vir me buscar?   Eu estava ansioso demais para dar-lhe um abraço bem forte e pedir para Ele me levar onde eu pudesse encontrar as pessoas que eu amo e que tinha muita saudade. De repente me vi sentado num lugar que parecia uma capela. Pensei que iria participar de alguma missa ou que eu teria que me confessar com algum padre antes de abraçar Jesus Cristo: - Seu padre, seu padre! Olha eu aqui! Ele fingiu que não me viu, não estava de batina. Estavam todos de branco e parecia mais com um médico do que um padre. Aquele lugar parecia mais um hospital do que uma igreja. Resolvi sair daquele lugar e voltar onde eu podia ver o sol e os pássaros: - Vou procurar alguém para conversar. Pensei! Resolvi dar um mergulho no lago. As águas estavam calmas. Antes de mergulhar consegui ver meu rosto refletido nas águas:- ? Esse sou eu? Eu parecia ter ficado bem mais jovem! Olhei para o meio do lago e vi uma menina nadando. Era muito pequenina, achei que ia se afogar e nadei até alcançá-la. - Quem é você? Ela não respondeu, mas sorria muito e a sua fisionomia não era estranha, mas não conseguia me lembrar de onde eu a conhecia. - Ei menina! Menininha! Você sabe onde posso me encontrar com Jesus?  Ela não me respondeu, mas parecia que estava me levando para algum lugar. Nós saímos do lago e ela segurou na minha mão e passamos a percorrer por dentro do jardim. Os pássaros também ajudavam a menina a me guiar. De longe avistei um casal de velhinhos, pensei que fosse Jesus conversando com a avó daquela menininha. Ao me aproximar, a menina, como se fosse num passe de mágica, sumiu e o casal de velhinhos ficaram de costas para mim. - Ei meu senhor! Minha senhora! Vocês viram para onde foi uma menininha, assim, assim, pequenina? - Logo ela volta! Respondeu o velhinho! - Por acaso o senhor sabe como eu faço para me encontrar com Jesus? - ELE está entre nós! Respondeu a velhinha simpática! - A senhora se parece muito... Por acaso... Não, não... - Você precisa voltar menino! Completou o velhinho! - Olhem! Lá está a menininha! Eu vou brincar com ela! Tchau! A menina então me chamou pelo nome. Ela estava falando! Eu sabia que a conhecia de algum lugar! Mas de onde? - Quem é você? Qual o seu nome? E ela então respondeu: - Você não queria se encontrar com ELE, Olha ELE aí! As nuvens no céu estavam se movimentando rapidamente, de vez em quando as nuvens cobriam o brilho do sol e os pássaros estavam numa alegria tão grande que me deu até vontade de voar. Uma paz, uma tranquilidade tomava conta de mim e ao longe avistei o casal de velhinhos me dando adeus! Sentei-me num banco, no meio do jardim e vários pássaros ficaram ao meu redor. A menina apareceu pulando amarelinho e não parava de sorrir. Uma voz calma chamou-me pelo nome e disse que eu precisava voltar de onde vim e que sentiria muita saudade de mim, mas que ainda não era o momento de eu ficar ali, pois tinha muita coisa a fazer no lugar de onde vim. A voz vinha de bem perto de mim e de repente senti aquela voz embargada, soluçando, fraca, como a de alguém que estivesse muito, muito emocionado e ao me virar do banco do jardim em direção ao lago eu vi Jesus e ELE estava chorando! Jesus chorou a me ver sem as feridas, sem a expressão de sofrimento e com o coração batendo normalmente, o que representava a vida! Todos nós somos anjos prediletos de Jesus e quando nos curamos de algum mal por Sua interseção, por suas mãos sagradas de médico dos médicos, ELE chora, pois voltamos a viver com vigor! Jesus fica contente, se emociona, chora de alegria e contentamento, assim como nós! - Enfermeira, enfermeira! A reversão elétrica foi um sucesso! Ele voltou! Chame o Doutor! Os batimentos cardíacos e a pressão arterial estão normais e a fibrilação foi revertida. Vamos removê-lo para a UTI para um melhor monitoramento. Ele deve ficar em observação por quarenta e oito horas!
ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

ELE VIVE

Para viver precisamos de alimento. Para que nosso corpo viva 70, 80 anos – quando muito – alimentamo-nos, diariamente, várias vezes. E para a nossa alma viver, não 70 ou 80 anos, mas eternamente, nós a alimentamos? Eis um assunto a ser pensado. Há diversos alimentos da alma: a oração, a meditação, a boa leitura, o estudo, a boa conversa, etc. Porém, de todos, o melhor é, sem dúvida, a Comunhão. Quando nos alimentamos com leite, carne, ovos, legumes, estes alimentos transformam-se em proteínas, vitaminas, sais minerais, etc. E, assimilados, passam a fazer parte do corpo – de nosso carne ou nosso sangue. Nós lhes somos superiores e os absorvemos. Quando nos alimentamos da Hóstia consagrada, passa-se o contrário. Este alimento (espiritual) nos é superior e nos absorve. Daí a frase de Santo Agostinho: "Não Vos humanizais em mim; eu é que me divinizo em Vós". Na Hóstia consagrada, a presença de Cristo mantém-se enquanto duram as espécies (de pão); Jesus fica presente na Hóstia de pão, que conserva sua matéria própria, com suas características de cor, cheiro, sabor, etc. O que muda é a substância – deixando de ser pão, para tornar-se Cristo – Por isso, este milagre é chamado de transubstanciação.  Na Última Ceia, no pão consagrado, os apóstolos não viram a aparência de carne. Também, no vinho, nenhum deles percebeu aparência de sangue. No entanto, eles acreditaram. "O interior de um ovo transforma-se num pássaro vivo – e a casca permanece a mesma" (S. Tomás de Aquino). Jesus não instituiu só para os apóstolos este sacrifício (incruento), em que os convivas se alimentam da Vítima. "Fazei isto em minha memória" – disse Ele, pensando em nós. E "isto em Sua memória", é a missa – em que nós somos os participantes. Na mesa (o altar), no ofertório, o sacerdote, representando Cristo, oferece pão e vinho. Quando, na consagração, ele repete as mesmas palavras de Jesus, o pão e o vinho tornam-se o Corpo e o Sangue do Senhor. Na Comunhão, nós nos alimentamos de Deus. Essas são as três partes essenciais da missa – repetição do que se passou na última Ceia e no Calvário. No Calvário, Jesus ofereceu-se de maneira sangrenta – o Cordeiro foi imolado. Nos altares, como na Ceia, o mesmo Cordeiro é oferecido ao Pai e entrega-se aos homens. No Calvário, o sacrifício foi cruento. Na Ceia e na missa é incruento. Mas o sacrifício é o mesmo. Porque mesmo é o Sacerdote e mesma é a Vítima. E mesma é a doação. Mesmo é o amor. "A missa procede do Calvário, de onde lhe vem a energia espiritual e salvífica; e procede da Ceia, de onde vem do modo incruento e tranquilo de realizar o mesmo sacrifício" Um é, pois, o Sacrifício – e perfeito. Por causa da Vítima e do Pontífice. E por causa da oblação – ato de Sua Vontade: "Porque Ele mesmo quis", como disse Isaías. E por ser Ele o Único que podia dispor de sua vida (Jo 10, 18). Por ter o valor da Ceia e da Cruz, a Missa atinge plenamente – e realmente – o que os antigos buscavam em seus sacrifícios. A Missa é o ato de culto em que, da maneira mais perfeita, se adora, louva e agradece a Deus, pedindo-lhe perdão e ajuda. É o próprio Cristo, o Filho de Deus, Sacerdote e Vítima, quem, por nós, adora, louva e agradece ao Pai; quem, por nós, ao Pai, suplica o perdão para os nossos pecados e o auxílio para a nossa miséria. Por isso, o sacrifício da missa (também chamado de Eucaristia, isto é, ação de graças) é o centro de toda a Liturgia Católica. É a oração mais perfeita, o ato mais sagrado que existe entre os homens. A missa não é simplesmente "uma assembléia de fiéis", em que todos se unem, dando as mãos. É muito mais do que isso. E a união deve ser muito mais profunda. Tendo o mesmo valor do sacrifício do Calvário, nela se encontra a mesma fonte de graças, de vida e santidade. Devemos participar. Comungando. Jesus – por nós – Sacerdote e Vítima, não nos pede, simplesmente, "a assiduidade nas cerimônias indolores. Ele nos pede a nossa dor e nos diz que nossa pobre dor habitualmente tecida somente de miséria, de medo, de tristezas e, à vezes, ate de revolta, sim, Ele nos diz que nossa dor pode e deve tornar-se fundida em Sua dor e assim poderemos, de algum modo, diuturnamente hiperbólico, completar no Corpo Místico o que faltou na Paixão". Ah se soubéssemos ser pequenas hóstias!           

INSUSTENTÁVEL

Fazia um tempão que Jair não passava um final de semana sozinho, sem a esposa e o casal de filhos. Trabalhador, pai dedicado e marido exemplar, Jair não poderia passar o final de semana com a esposa e os filhos, pois daria plantão no sábado e domingo em seu trabalho. Aproveitando, sua esposa e filhos resolveram ir para uma cidade do interior, distante duzentos quilômetros, visitar os pais e parentes. Jair trabalhava como enfermeiro chefe de um grande hospital e sempre foi muito responsável. - Tchau querida!  Tchau crianças!  Boa viagem! Jair se despediu da família na sexta feira à noite. Depois foi logo dormir, pois tinha que chegar ao hospital no dia seguinte às seis horas da manhã para a troca da equipe. Logo que chegou ao hospital pela manhã o clima estava pesado. Com o pronto socorro superlotado as equipes médicas com auxílio dos enfermeiros enfrentavam vários casos urgentes, comuns no dia a dia e principalmente nas madrugadas de sexta para sábado. Maria Helena era a auxiliar de Jair. Eles se davam muito bem na distribuição das tarefas, no auxílio aos médicos e acompanhamento dos pacientes. Jair dizia que Maria Helena era seu braço direito, fundamental para o sucesso, por assim dizer, no trabalho que eles executavam. Todos sabiam que Maria Helena tinha uma queda por Jair, mas Jair era um homem sério, bem casado, pai de dois filhos e Maria Helena respeitava essa condição, mas não deixava de confidenciar a alguns colegas que era perdidamente apaixonada por Jair. Maria Helena era uma mulher muito bonita, respeitadora, constantemente cantada por muitos homens, mas seu verdadeiro amor sempre foi Jair, que infelizmente para ela, muito bem casado. O sábado passou e no final do expediente, depois de doze horas ininterruptas, a equipe de Jair fez um balanço do dia: Foram treze salvamentos e dois óbitos. No dia a dia nos entristecemos com as mortes, mas vibramos quando conseguimos salvar uma vida. Salvar uma vida vale muito mais que se entristecer por uma morte, conceituada, evidentemente, Jair. Maria Helena foi ao vestiário do hospital para se trocar. Quando voltou encarou Jair como se fosse um anjo loiro de olhos azuis. Jair balançou e Maria Helena percebeu. Ela sempre foi uma mulher muito bonita e se surpreendeu quando Jair lhe fez uma proposta: - Se quiser podemos jantar juntos essa noite! Maria Helena nem pensou para dizer sim. Não poderia perder aquela oportunidade de ficar alguns momentos com o grande amor de sua vida. Jair achou que não havia nada de mais em convidar Maria Helena para jantar, pois afinal, eram colegas de trabalho e na cabeça dele não havia segundas intenções, aparentemente. Os dois foram a um restaurante bem perto do hospital e durante o jantar resolveram não falar sobre trabalho, sobre vida ou morte e Maria Helena se encantou quando Jair disse que ela era muito bonita. - Uma coisa era observar Maria Helena no estresse do trabalho e outra era estar diante de seus olhos, sem o barulho das sirenes e dos autofalantes das emergências. O jantar transcorreu de maneira muito agradável. Maria Helena percebeu que Jair estava vidrado e usou de sedução, palavras pausadas com sua voz rouca. Uma taça de vinho foi suficiente para relaxar, ficarem mais a vontade. Depois da terceira taça, estavam dançando de rosto colado ao som de músicas românticas cantadas com acompanhamento de um piano. De corpos entrelaçados e com a doçura de um perfume sedutor, não demorou muito para se beijarem e se abraçarem com garras de paixão. Ao final da noite estavam abraçados numa cama de motel. O domingo passou numa rotina normal de trabalho.  Jair e Maria Helena trabalharam normalmente nada foi comentado sobre a noite de amor. Na cabeça de Jair tinha sido uma aventura, um momento de prazer entre duas pessoas que se gostavam, mas sem compromisso e tudo teria terminado na manhã seguinte, quando os dois regressaram ao trabalho. Porém, na cabeça de Maria Helena, aquela aventura tornou-se um sonho real, alimentou uma paixão avassaladora, pois os dois se abraçaram, se beijaram e fizeram amor com intensidade de quem se ama. Na noite de domingo Jair saiu assim que encerrou o plantão. Queria voltar logo para casa para reencontrar a esposa e filhos que voltavam de viagem. Não se despediu de ninguém, saiu muito depressa e quando Maria Helena percebeu Jair tinha ido embora. Jair chegou em casa e passou o resto da noite com a mulher e os filhos. Estava feliz, pois no dia seguinte seria sua folga no hospital e combinou de passear com a família. Tarde da noite, após as crianças irem dormir, Jair ficou um bom tempo conversando com sua esposa antes de dormir. No meio da noite, acordou com cede e foi beber água. Quando voltou viu seu celular de luz acesa e foi verificar. Jair se assustou. Haviam vinte e duas chamadas perdidas em seu celular e as chamadas foram feitas por Maria Helena. Jair apagou as ligações e as mensagens e percebeu a enrascada que se meteu depois da noite com Maria Helena. Quando retornou ao trabalho, chamou Maria Helena para uma conversa e perguntou sobre as ligações.  Maria Helena disse que estava sentindo sua falta e que a noite que tiveram juntos teve um significado muito importante para ela: Estava apaixonada. Jair tentou convencê-la de que o que tiveram foi uma aventura e que tudo havia terminado na manhã seguinte, era um homem casado e não poderia ter um romance com ela. Ponderou ainda que o que tiveram foi uma caso passageiro, uma atração meteórica que culminou numa noite de amor. Maria Helena chorou muito e depois de uma longa conversa prometeu esquecer, prometeu que Jair ficaria guardado em seu coração, mas que respeitaria sua condição de homem casado. Alguns dias se passaram e Jair pensou que tudo estava resolvido. Os telefonemas se cessaram e no ambiente de trabalho ficou tudo normal. Maria Helena parecia que tinha se convencido de que o acontecido tinha sido uma aventura que começou numa noite, como bons amigos, numa mesa à luz de velas e terminou na manhã seguinte, numa cama de motel. Perto de completar mais um aniversário Jair estava muito feliz. Sua esposa prometeu que faria um jantar com seu prato preferido e alguns familiares compareceriam em sua casa. Por outro lado, Maria Helena voltou a insistir: Queria uma nova noite de amor como a que tiveram, mas Jair demoveu-a da ideia. - Você precisa entender de uma vez por todas que eu sou um homem casado. Amo a minha esposa e os meus filhos e o que aconteceu conosco foi um deslize de minha parte. Nunca dei a você qualquer esperança, tampouco lhe prometi alguma coisa. Vamos esquecer tudo, pois afinal ainda somos amigos, trabalhamos juntos e não podemos deixar nada transparecer em nosso ambiente de trabalho. Contemporizou Jair. O dia do aniversário de Jair chegou e a equipe de trabalho preparou um bolo e cantaram parabéns a você! Jair agradeceu, recebeu os comprimentos de todos e ao final do expediente se despediu emocionando:
 - Minha família está me esperando! Obrigado a todos! Jair voltou para casa ansioso pela comemoração de seu aniversário com seus familiares. Tudo estava perfeito em seu dia e ele estava muito feliz. Antes de servirem o jantar, uma surpresa: Uma visita até certo ponto inesperada. Enquanto Jair brindava com sua família e amigos, tocou a campainha e sua esposa foi atender: - Maria Helena! Querido! Olha quem chegou! Jair ficou com cara de poucos amigos. Não tinha convidado Maria Helena para o jantar, porém, não poderia deixar transparecer qualquer atitude inconveniente e acabou por receber Maria Helena à mesa. Sua esposa achou normal, pois Maria Helena era sua conhecida e sabia que trabalhava com o marido. Um pouco alegre pelas bebidas que havia consumido Jair não sabia o que dizer:- Veja querido quem chegou! Sua colega de trabalho! Para a esposa de Jair a situação, ou seja, a presença de Maria Helena em sua casa era normal, pois afinal, sua esposa sabia que ela era uma boa colega de trabalho de seu marido. Jair ficou constrangido e não sabia o que fazer diante daquela surpresa. Entretanto, procurou agir com a maior naturalidade possível, mas a situação começou a ficar preocupante, pois Maria Helena não lhe desviava os olhos e tudo aquilo poderia ser uma bomba relógio que explodiria a qualquer momento. E todos se sentaram à mesa para que fosse servido o jantar. Maria Helena, um tanto quanto deslocada não se intimidou e ficou conversando com Sofia de cinco anos, filha de Jair. Jair e sua esposa ficaram o tempo todo conversando com os convidados. O jantar foi bem sucedido, todos ficaram satisfeitos e o casal começou a se despedir dos convidados, um a um, até que ao final notaram que Maria Helena havia ido embora sem de despedir. De certo modo, Jair ficou aliviado, apesar da desconfiança de sua esposa quanto a Maria Helena. E enquanto se despedia do último convidado, ouviu-se um grito desesperador de Samanta, esposa de Jair: - Sofia! Sofia! Sofia não estava em casa, não estava no quarto, no quintal, em nenhuma dependência da casa. Jair não acreditou e percorreu a casa inteira feito um louco à procura da filha. Ligaram para todos os parentes e amigos e nada de saberem onde estava Sofia. Por fim, houve-se uma interpelação de Samanta: - Ela ficou o tempo todo com Maria Helena. Só pode ter sido ela. Jair, desesperado, ligava ininterruptamente para Maria Helena, mas só entrava na caixa postal. Enquanto isso Samanta ligou para a polícia e logo se fez um alerta com o retrato identificado de Maria Helena e da criança. Enquanto isso Jair era interrogado por Samanta e acabou contando para a esposa o envolvimento extraconjugal que havia tido com Maria Helena e que talvez, pela indiferença dele, o sequestro de Sofia poderia ser uma represália. Samanta não questionou Jair em nenhum momento sobre seu envolvimento com Maria Helena, pois, de certo, o sequestro da filha deixou-a fora de órbita, o que não fez com que ela digerisse a revelação do marido. A noite inteira se passou e a polícia não tinha nenhuma pista, além de que o envolvimento de Maria Helena no sequestro de Sofia ainda era uma suspeita que precisava ser comprovada. A situação estava insustentável.Tentando entender a realidade dos fatos, Jair foi confessar ao delegado do caso o motivo de sua suspeita.  Além do amor louco que Maria Helena tinha por Jair, o maior sonho era que tivessem uma filha, porém, Maria Helena sabia que nunca poderia ser mãe e toda sua loucura poderia ter feito com que tivesse sequestrado Sofia. O dia amanheceu e a polícia começou a investigar as denúncias que recebia, até que um telefonema delatava que uma mulher e uma criança com as características de Maria Helena e Sofia foram vistas no parque central da cidade. Foi num feriado, um dia bonito de sol e o parque estava cheio.
    Pessoas andando de bicicleta, fazendo exercícios, praticando esportes ou tomando sol na beira do lago, enfeitavam o lindo dia. Ao fundo do parque existiam algumas cabanas onde as famílias utilizavam para fazer piquenique e quando a polícia chegou, acompanhada de Samanta e Jair, encontraram Sofia, sozinha, brincando com outras meninas que havia conhecido no parque: - A tia Helena foi comprar comida! Ela disse que você iria chegar mamãe! Disse a criança inocente. Enquanto seus pais choravam e abraçavam Sofia, a polícia seguia alguns rastros que poderiam leva-los até Maria Helena. Sofia estava bem, disse aos pais que havia dormido no carro e que a tia Helena havia prometido trazê-la no parque para comerem algodão doce. Enquanto isso Maria Helena percebia que estava cercada e fugiu dirigindo seu carro em alta velocidade. Sofia voltou com Samanta para casa sã e salva, enquanto Jair foi com a polícia em perseguição a Maria Helena. A polícia estava no encalço e dificilmente Maria Helena iria escapar. Jair tentava a todo o momento manter contato, mas Maria Helena estava perturbada. - Não atirem! Não atirem! Ela não fez por mal! Jair ficou desesperado. Sabia que Maria Helena estava muito perturbada e aquele estado de loucura poderia ser revertido. Quando finalmente a polícia fechou o carro, Maria Helena fez uma manobra suicida e o carro capotou por várias vezes. Jair saiu em disparada para socorrer Maria Helena, que ficou presa entre os ferros retorcidos do carro destruído. - Cuidado! O carro pode explodir! Alertou o policial. E entre os escombros e um coração partido, Maria Helena, num olhar profundo, lamentou dizendo: - Eu não maltratei a nossa filha! Maria Helena se recuperou depois de quase trinta dias internada. Jair não deixou de cuidá-la um só momento e quando teve alta foi levada para um hospital psiquiátrico onde pagou sua pena. Quanto a Jair, foi perdoado por Samanta e se transferiu de hospital.
ANTONIO AUGGUSTO JOÃO