19 dezembro 2020

ALGUMAS CARTAS GUARDADAS NA MEMÓRIA - VOL. V

Vejo o sol se escondendo atrás das montanhas, as ondas do mar bem calmas e uma suave brisa no ar. No céu o voo rasante do condor enfeitando a paisagem, no mesmo momento que emerge das águas do mar uma sereia, mulher exuberante que aparece toda vez que o condor está voando. Queria eu ser o condor, para sensibilizar a sereia e tê-la numa visão privilegiada, filmar seus movimentos nas águas do mar e vê-la revoltando seus cabelos e confundindo seus olhos com a imagem do mar, vista de cima, entre nuvens de algodão, no céu azul. Na manhã seguinte, cai no mar novamente no mesmo momento em que o sol estava nascendo. No céu, não avistei o condor. Deveria estar guardando suas energias para vir rasante quando avistasse a sereia mergulhando no mar. E essa paixão, quando avassaladora, confunde o real com o imaginário e em meus devaneios sou o pássaro condor, feroz, em busca da minha presa, minha sereia, dotada de toda sentimentalidade do amor perfeito, onde os sonhos se tornam realidade e as nossas vidas passam a ser a plenitude do amor maior, feitio de paixão e assim posso morrer de amor, ressuscitar no final do dia, quando o sol se por e as estrelas uma a uma iluminarem o céu como os olhos da sereia. Vou olhar para o céu em todos os finais de tarde, ver a paisagem com o sol e as montanhas – uma obra prima, e o reflexo da sereia no espelho do mar. E como pássaro condor, impondo minhas asas, voarei para buscar você – minha sereia, e saciar minha fome de amar, pois nem mesmo nas profundezas do mar azul, posso ter em meu pensamento que sou infeliz, pois tenho você, sereia. Vejo em teus olhos da cor do mar toda a sentimentalidade do bem querer. Tenho nos raios de luz dos teus cabelos toda maneira de te querer bem, desejar, possuir. Assim, transformo-me no Pássaro Condor, feroz, a procura de amor. Caço toda matéria nos mais longínquos cantos para poder te oferecer como prêmio de toda minha devoção. Mergulho no mar -caço você - minha sereia... Tento entender como esta presa que acorrenta meu coração, sufoca minha alma, possa me possuir assim, com tanta ternura: - Mulher, metade amor metade paixão - que nem os dentes afiados de um tubarão sedento possa me conter...que nem a mais raivosa das tempestades possa me deter - Sou o teu príncipe do marSou homem desvalido de tanto amar. Ressuscito quando o sol se põe, para viajar num sonho possível, onde a cada noite dou um pedaço do meu coração. Mesmo sangrando, meu coração pula do peito e pode ainda bater por longos dias, como prova de meu amor. De tanto amar, me vem o Pássaro Condor, no meu íntimo, na sua devoção, com a presa em suas mandíbulas, trazendo mais um pedaço de você, para que brote novamente o meu coração. 
TRECHO DO LIVRO...

PARA AUDREY, COM AMOR!

Os preparativos para a festa de formatura estavam avançados e os alunos ansiosos, sentimentais nas conversas e nas reuniões de despedida.  Muitos mudariam de cidade em busca de uma colocação profissional e outros, como Jonathan, atravessaria o oceano para estudar, se aperfeiçoar num intercâmbio graças à bolsa de estudos que ganhou classificado como um dos melhores alunos da universidade federal. Jonathan estava muito feliz pela oportunidade de estudar, ainda mais sabendo que depois de dois anos voltaria com a garantia de um excelente emprego numa empresa multinacional. Entretanto, não escondia sua preocupação com Audrey, que prometeu esperá-lo para se casarem. Audrey estava em tratamento de uma doença rara, que prejudicava sua coordenação motora, cujos médicos ainda não tinham um diagnóstico preciso. Assim sendo, preferiu adiar seu intercâmbio e Jonathan iria sozinho. Mas, o mais importante naquele momento foi o baile de formatura, comandado pela orquestra municipal, alunos formandos e seus familiares estavam felizes e se confraternizando pelo diploma e pelo objetivo conquistado. Um a um, os casais de alunos eram anunciados pelo mestre de cerimônias e sob palmas e vivas passavam por um corredor para receber os comprimentos em meio aos flashes que registravam todos os momentos da festa, para ficarem guardados para sempre. Quando Jonathan segurou na mão de Audrey ao serem anunciados, sentiu a emoção da despedida. - Atenção formandos para a hora da valsa! O mestre de cerimônias anunciava o momento da valsa. A primeira seria com o pai ou mãe, depois padrinhos e a terceira seria para os casais enamorados. A hora da despedida estava chegando e todos estavam emocionados e talvez tenha sido por isso que Jonathan não tinha dado importância ao fato de que Audrey estava tremendo, quando segurou em sua mão para dançarem. Durante a valsa os olhos de Jonathan e Audrey ficaram perdidos, filmando todos os detalhes que fariam parte de uma saudade breve e ansiedade pelo regresso que um dia iria chegar. Os olhos de Audrey se fixaram nos olhos de Jonathan, que se preocupou quando sentiu todo peso de Audrey em seus braços. A música entoava uma harmonia agradável e romântica que os olhos de Audrey abriam e fechavam, contemplando um largo sorriso adocicado em seus lábios de mel. - Você está se sentindo bem? Bastou Jonathan questionar Audrey que ela caiu, literalmente, em seus braços. Parecia desmaiada. A música parou e todos se assustaram com a cena. Audrey ficou sem movimentos e desacordada. Logo a levaram para longe dali e a orquestra voltou a tocar para que não deixasse um ar de preocupação ainda maior entre as pessoas. Uma ambulância logo chegou e levou Audrey para um hospital.  Chegando, foi removida imediatamente para uma UTI, tendo Jonathan sempre ao seu lado. Das crises, aquela havia sido a mais preocupante, a que deixou os pais de Audrey e Jonathan mais preocupados. Quatro dias se passaram e Audrey não demonstrava nenhuma reação.  Enquanto aquilo acontecia, os médicos repetiam as baterias de exames, mas sem chegarem a um diagnóstico preciso e concreto. Todos ficaram preocupados e Jonathan posicionou a todos que adiaria a viagem. Não teria condições psicológicas para viajar para o outro lado do mundo e deixar Audrey naquele estado. Depois de quinze dias Audrey acordou. Ficou consciente, reconheceu a todos e ficou preocupada por não ter visto Jonathan ao seu lado. Jonathan ficou muito cansado, passou dias e noites no hospital ao lado da mulher amada e tinha ido para casa, tomar banho, trocar de roupa para voltar novamente ao hospital e ficar ao lado de Audrey. Ao vê-la consciente novamente, disse a ela que nada era mais importante que sua saúde e que havia tomado uma importante decisão: - Audrey, não vou mais viajar. Não posso ficar longe de você e não vou me dar bem do outro lado do mundo sabendo que você não está bem aqui. Por mais que Jonathan tenha relutado em ficar, foi convencido pelos familiares e pela própria Audrey a ir embora em busca do seu sonho de realização profissional: - Ficarei bem meu amor. Ficarei te esperando até sua volta. Vá e realize seu sonho. Disse Audrey na despedida. Jonathan partiu preocupado e com lágrimas nos olhos. Audrey teve uma razoável melhora, mas sua doença ainda era um mistério para os médicos. Algum tempo se passou e Audrey começou a lecionar numa escola particular de línguas. Conversava com Jonathan no máximo duas vezes por semana. Jonathan por sua vez, tinha uma vida atribulada de estudos e estágios e pouco tempo de lazer. Quando sobrava algum tempo tinha que descansar para poder enfrentar a maratona pesada de trabalhos e estudos, mas estava satisfeito, porém com muita saudade da família e principalmente de Audrey. Quando existe a saudade no coração, o tempo é cruel e custa a passar. Nos momentos em que ficava só e isolado, Jonathan recordava com amor dos momentos felizes que passava com Audrey, mas ficou mais despreocupado, pois houve uma boa melhora na saúde da mulher que tanto amava. Perto de completar um ano distante de Audrey, Jonathan ligou para dar uma excelente notícia: Passaria o natal com ela e toda família graças a uma semana de férias antes de iniciar seu ultimo ano de intercâmbio. Audrey não se coube de tanta alegria e não via a hora de chegar o dia de reencontrar seu grande amor. Quando Jonathan chegou, a casa estava toda harmoniosa, com enfeites natalinos e ao ver Audrey à distância, correu até que pudessem se abraçar: Jonathan e Audrey se abraçaram e se beijaram no reencontro e não quiseram perder um só minuto para ficarem juntos e aproveitarem o pouco tempo que teriam antes de Jonathan retornar aos estudos. Muitos planos estavam fazendo para depois do último ano em que Jonathan concluiria seu intercâmbio e voltaria de vez para uma vida nova junto de Audrey. Assim, as festas de natal passaram depressa e Jonathan teria de retornar. Audrey lhe fez um pedido antes de partir: - Quando se aproximar a data do seu retorno, plante uma flor, espere ela brotar e traga-a para mim num pequeno vaso. Jonathan disse que atenderia o pedido de Audrey, sem mesmo perguntar o porquê e partiu.Passado um tempo Jonathan recebeu a notícia de que Audrey havia tido novas crises e que tinha ficado internada. Jonathan se desesperou, ameaçou largar tudo é vir ao socorro dela, mas foi convencido a ficar. Jonathan ficou desconfiado de que estavam lhe escondendo algo sobre a saúde de Audrey e isso fez com que começasse a ter níveis mais baixos de avaliação onde fazia estágio e estudava. Novas crises apareceram e Jonathan sentia que algo grave estava ocorrendo com Audrey. - Os médicos descobriram a doença e ela está internada e sendo tratada. - Eu quero falar com ela! - Quando for o momento e os médicos assim permitir você falará com ela! E quando chegou o momento em que Jonathan conseguiu falar com Audrey, sentiu que estava dispersa, falando coisas sem sentido, mas lembrou-se da flor e pediu que Jonathan não esquecesse de trazê-la. Finalmente chegou o dia de Jonathan regressar, de reunir os dois lados. Em sua bagagem o sucesso de um intercâmbio perfeito, emprego garantido e possibilidade de concretizar todos os planos que fez, ao lado de Audrey. Seu pensamento positivo fazia com que ele imaginasse encontrar Audrey bem, curada de sua enfermidade e feliz, correndo para abraçar e beija-lo, matando a saudade de seu grande amor. Jonathan segurava a flor amarela com o maior cuidado, como se fosse um prêmio, um troféu, um objeto de devoção. Lembrou-se que poderia escrever um cartão para colocá-lo junto com a flor, e assim o fez: - Por favor, quero comprar um cartão de presente! - Sim senhor! Pode escolher entre esses! - Eu gostei deste! - O senhor vai escrever alguma coisa? - Sim. Escreva por favor: Para Audrey, com amor! O voo que trouxe Jonathan de volta teve vários atrasos, várias conexões e o tempo que ficou incomunicável foi de quase três dias. Ao chegar, estranhou que ninguém estava lhe esperando no aeroporto. Pegou um táxi e seguiu para casa. No caminho sentiu um calafrio, suas mãos ficaram geladas, assustou como se um vulto tivesse passado à sua frente e segurou com mais cuidado a flor amarela que carregava. Chegando em casa não tinha ninguém de seus familiares e dos familiares de Audrey lhe esperando. Chegou a chamar por eles, mas ninguém respondeu. A casa estava vazia, nem os cachorros estavam latindo como de costume, até que apareceu um senhor de quem Jonathan não conhecia e que lhe entregou um bilhete com um endereço, onde alguém pedia que fosse imediatamente até o local assim que chegasse: - Meu amigo, vá depressa antes que seja tarde! Disse o desconhecido. Jonathan se desesperou, mas continuou segurando com todo o cuidado a flor que Audrey lhe pediu. O táxi demorou a chegar aumentando ainda mais a ansiedade de Jonathan que depois, questionado pelo motorista do porque estava chorando, disse-lhe que estava com a sensação de ter perdido um pedaço de seu coração e de sua alma. E ao chegar no local determinado no bilhete, Jonathan adentrou ao recinto. Ouviu choros e gemidos. Não quis olhar no rosto de ninguém antes de ver Audrey. Jonathan estava sereno, como se estivesse sendo guiado por uma força suprema, divina, como se estivesse sendo emanado por um raio de luz. Jonathan sabia onde estava e porque estava naquele local, só não quis acreditar. Um local obscuro, triste, com cheiro forte de parafina de tantas velas que estavam sendo queimadas, misturando-se com o forte perfume de flores de todas as espécies e cores. Nas laterais de paredes geladas, ficavam os vultos de seus familiares e amigos. No centro um caixão branco, "enfeitado" com flores coloridas, e dentro dele estava Audrey, de olhos fechados, sem expressão ou marcas de sofrimento. Encostado ao caixão existiam várias coroas de flores e faixas com a palavra "saudade". Jonathan entrou bem devagar com a flor em suas mãos e avançou até o caixão sem dizer nada a ninguém e ninguém o interpelou. Jonathan colocou a pequena flor amarela bem perto do rosto de Audrey, deu-lhe um beijo na face e fez o sinal da cruz. Do bolso, tirou um lenço branco para enxugar suas lágrimas e um cartão, onde estava escrito "Para Audrey, com Amor!

ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

CONVERSANDO COM DEUS

Escrevi na contracapa do livro Conversando com Deus, algumas palavras caladas para que pudesse agradecer, apenas agradecer. Sei que Ele me ouve, lê meus pensamentos e me protege, até quando os lobos feitos hereges tentam me enganar. Na contracapa escrevo: Meu Deus, esta carta é para o Senhor saber o quanto estou "decepcionado". Afinal, não houve tantas tempestades para que eu pudesse salvar o meu amor. Não pude andar sobre as águas escusas para salvar quem tanto amei. A fúria dos vulcões foi apenas meu coração querendo entrar em erupção de tanto amor a quem o Senhor no meu caminho pôs. Meu Deus! Fazeis chover para que no meu jardim as rosas possam exalar o cheiro do meu amor, fazeis com que a correnteza das lágrimas de felicidades que chorei encontrem os rios de águas claras cristalinas, puras tão divinas, para eu poder matar a sede do meu bem. Deus, vou lhe chamar para lhe mostrar e conversar com meu amor. O Senhor vai ver como fiquei depois que me apaixonei. Deus, quando encontrá-lo, vou lhe contar que conquistei a felicidade que tanto sonhei. Assim, pode esperar que verás uma alma que retratará um pedaço de mim, a pessoa que me completa e que me faz tão bem. Daí, vou confessar o quanto é bom amar. E é por isso que eu te amo e rezo para cuidar de mim, da minha vida, que apesar de tantas agonias, sou feliz sim, por nunca deixar de acreditar no Senhor! Amém! Que Deus esteja sempre iluminando a vida de todos nós.
ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

CARTA PARA MINHA MÃE

Toda vez que aproxima o dia das mãe, penso em comprar o melhor presente para poder oferecer: -Não se preocupe mãe, não vou esquecer do seu presente não! O seu presente será algo simples, assim como eu e você gostamos, pois o que vale mesmo é o nosso amor. Sei que você nunca ligou para presentes. Preferia que nós estivéssemos ao seu lado para você cuidar de cada um, dividindo o seu imenso coração, sabendo como cada um gostava de ser tratado, pois você nunca se cansou de distribuir carinho e amor para toda a família. Ontem cheguei tarde, cansado, dormi com a roupa do corpo e me esqueci de lhe dar um beijo de boa noite, de despedida. Sei que você me compreende e não vai ficar chateada. Foi assim que aprendi a viver e foi você quem me ensinou. Penso em você todas as noites e em todos os momentos, principalmente quando estou em apuros e não posso correr para seus braços, não tenho as suas asas para me proteger e o seu colo para me abrigar:  - Mãe, enxugue as minhas lágrimas! Sopre o meu coração, pois está doendo tanto e tenho medo que ele pare de bater, de tanta saudade que tenho de você!  Ao escrever esta carta, prometi que não ia chorar. Que iria lembrar-se dos nossos momentos felizes e até das vezes em que você puxou minha orelha ou me deu uma chinelada na bunda, das tantas artes que eu aprontava... - Mas mãe... Não dá!  As minhas lágrimas são como as gotas de orvalho que eu ficava apreciando na janela embaçada pelo frio, esperando você chegar para que eu pudesse te abraçar e te beijar, pois a única tristeza que apertava nossos corações foi a saudade. Queria muito que você pudesse ler esta carta. Sei que me daria o melhor conselho, o afeto e o carinho que vive fugindo de mim. Peço a DEUS que isto seja possível... - Sei que será! Se por algum motivo não possa ler esta carta, não faz mal... Mas, faça um esforço, peça para Deus deixar você ler essa carta! Rezarei para todos os Santos intercederem, clamarei em todas as orações para que este escrito possa chegar até você, aí no céu, e que os anjos possam te entregar esse meu presente, para que eu receba de ti uma mensagem de paz e você possa sentir novamente todo o amor deste teu filho e de meus irmãos, que nunca vão te esquecer.

ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

SUBINDO A RAMPA

Estava pronto para sair para o trabalho quando o telefone tocou: - Era minha mãe. Ela estava aflita. Tomei um gole de café, fui até o quarto das crianças, sai às pressas dando tchau:  - Seu pai não está bem. Disse minha mãe ao telefone. Meu pai precisava ir com urgência para o hospital. Assim que acordou, minha mãe o convenceu: - Ele passou a noite inteira gemendo, se movendo na cama de um lado para outroCheguei rápido. Meu pai estava sorridente, procedimento que sempre usou para não deixar minha mãe preocupada: – Ele escondia a dorPediu para fazer a barba antes de sair, passou a colônia de alfazema e colocou a camisa para dentro da calça. Ele agia como se não estivesse acontecendo nada. Apesar da gravidade aparente, ele estava bem otimista, assim como todos nós. No caminho, não falamos em doenças, médicos e hospitais, mas sim de recordações de alguns momentos de nossas vidas: – Momentos felizes! Não poderia, nunca mesmo, deixar de escrever esse acontecimento, depois de tantos sonhos que tive com meu pai, apesar de saber bem o final. É mais uma página do Livro da Minha Vida, das nossas vidas, gravado para sempre na memória de toda a família. Chegamos ao hospital rapidamente e existia uma fila aonde várias pessoas iriam se internar. Pela ordem de chegada, meu pai ficou perto da rampa que dava acesso a sala de internação. Minha mãe não pode ficar ao lado dele e fiquei na recepção cuidando dos papéis para a internação. Do último diálogo que me lembro, minha mãe pediu para que ele ajeitasse a camisa dentro da calça. De repente, ouve-se uma voz grave, pedindo para que as pessoas daquela fila começassem a andar em direção a sala de internação. Lembro que meu pai disse: - Fiquem com Deus! Minha mãe respondeu:- Amém! Meu pai ficou parado no início da rampa, a todo o momento olhando para trás, procurando por mim e pela minha mãe, acenando com a mão direita e segurando um lenço branco na mão esquerda. Quando chegou sua vez de caminhar em direção a sala de internação, lembro perfeitamente do meu pai Subindo a Rampa – Acenando! Como querendo dizer até breve, adeus... Como uma criança que se perdeu do braço da mãe, mas que caminhou - Subindo a Rampa - De encontro aos braços de DEUS.
ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

70 x 7

... Da cabeceira da cama pode tirar o teu retrato, não vou querer recordar. Ao passar pela ultima vez no jardim que um dia brotaram rosas coloridas, não deixe rastros sem saídas, não pise fundo nas terras negras, pois vem de lá toda a inspiração para meus versos. Tome muito cuidado com os buracos que você mesma deixou para que eu pudesse cair em suas armadilhas. Ao sair de casa, não derrube o que estiver pela frente, não destrua o que já está destruído e nem bata a porta com a força da sua indignação, pois eu não estou vendo a tua ira. Passando pela sala de estar junto à mesa de jantar, não se esqueça de recolher as rosas sobre a mesa... Elas não vivem mais... Ficaram murchas, [cresceram-se em espinhos], secaram com o tempo, morreram como o amor que um dia eu e você pensamos ter existido. Eu não sou um homem perfeito nem o filho preferido de Deus. Eu tenho paciência e faço todos os dias o exercício do amor. Não mostro a Deus o tamanho dos meus problemas e sim aos meus problemas o tamanho de Deus. Já nos perdoamos mais de setenta vezes sete, mas o remorso quando retorna vem como a força de um furacão e uma palavra mal dita pode incitar novamente à ira de nós dois. Naquela tarde eu estava terminando de escrever um romance.  Pra variar, escrevia sobre dor, tristeza, desilusão... Desamor. É fácil escrever sobre nossas dores. Difícil é encontrar um final feliz, pois a felicidade quando é plena e verdadeira, advém de uma dor. Eu não estava esperando por ninguém é quando o interfone tocou, achei que foi por engano, mas a outra voz, do outro lado da linha, queria muito falar comigo. - Eu Preciso falar com você.  Pode me atender? Eu bem sabia de quem era a voz do outro lado da linha, mas não queria acreditar. Logo pensei em discussões, novas brigas, ofensas... Fazia quase dois anos que eu não a via. Estava bem mais magra, olheiras profundas e cor pálida: Estava acabada. Pensei que de certo vinha conversar sobre algo que ainda tínhamos em comum, mas poderia ter me telefonado. Aí é que vem a retórica, a oportunidade de dizer a coisa certa. Também vem a vingança, oportunidade de regressar, de reverter o prejuízo da última briga, mas sou capaz de amar o mais ferrenho inimigo, pois aprendi com a vida e talvez seja por isso que sofro com isso. De certo que não lhe disse que tinha prazer em revê-la, porém ouvi paciente a sua queixa. Realmente ela estava precisando de ajuda e se me procurou, acreditei que teve várias portas fechadas e aqueles que se diziam amigos e foram contra mim, a deixaram na mão, sozinha na contra mão da vida. - Sua situação é muito delicada. Fazia tempo que não nos olhávamos nos olhos. Pude ver a mulher que conheci, sem os vícios mundanos, sem o orgulho de quem não conquistou nada e vivia pisando nas pessoas. Como já disse, longe de eu ser o filho preferido de Deus, pois eu também tenho os meus pecados e vai chegar uma hora que vou ter que ser perdoado. A vida inteira tive o coração mole e diante de mim existia uma pessoa pedindo ajuda.  É claro que não neguei, não virei às costas, não bati a porta e nem carreguei comigo as rosas sobre a mesa, pois as rego todas as manhãs esperando dias melhores. Foi difícil a reconstrução de seu problema. Dispus-me a ajudar sem piedade, sem desejar algo em troca... Ajudei porque o meu espírito é assim, fraterno, bondoso e caridoso. Porém, a vida nos prega cada peça, nos decepcionamos tanto com as pessoas, mas o que fica gravado sempre é a nossa honestidade e a nossa consciência. Foi só a situação começar a se organizar, com a minha máxima ajuda, que a discórdia imperou novamente. Os olhos cresceram, os saltos também...E a prepotência votou a reinar e com isso vieram novamente as brigas, as implicâncias e discordâncias, mas eu sou compreensivo e sempre soube a hora de sair de cena e deixar o barco navegar sem que eu esteja no timão. Mas a vida continua e o barco segue... E se por acaso, mais uma vez, ela bater à minha porta pedindo socorro, é claro que vou abrir a porta, pois o exercício do perdão não tem fim e é por isso que sigo a instrução do criador em perdoar setenta vezes sete. Contudo, sei que a vida pode me colocar do outro lado e eu tenha que bater à porta dela. Se isso acontecer não sei se serei bem recebido, da mesma forma que a recebi. Realmente sou sincero em dizer que não tenho certeza. Talvez o meu orgulho me impeça de procura-la, em qualquer circunstância, mesmo se for a última pessoa da face da terra. Se eu tiver que aceitá-la, acredito que minha história jamais irá terminar, pois mesmo que eu desapareça, existirão vários rastros para que outras pessoas possam me encontrar. Mas, se por acaso eu me perder e estiver na beira do abismo, pedindo que alguém me estenda a mão, sei que ela surgirá para me empurrar ribanceira abaixo, pois acredito que seja a única pessoa nesta vida que deseja o “melhor” para mim!

ANEOBALDA - BONECA DE DEUS

Deus me deu Você para que eu me enxergasse, para manter-me forte e ajudar-me a tocar em frente. Deus me deu Você para partilhar meu coração e minha alma, para trazer-me coragem e esperança, para ensinar-me o significado do Amor Incondicional. Deus me deu Você para aceitar-me como sou para entender minhas dificuldades, para que eu tivesse um Amor de verdade. Deus me deu Você para trazer-me lições, ajudar-me a crescer e fortalecer meu espírito. Deus me deu Você para dar-me esperanças, clarear meus pensamentos e encorajar os meus sonhos. Deus me deu Você para inspirar-me a ser o melhor que eu possa, para mostrar-me a importância da verdade e da alegria de oferecer meu coração ao conforto de outro coração. Deus me deu Você para ensinar-me a deixar as tristezas de lado, para eu declarar-me vulnerável quando assim estou e para mostrar meu verdadeiro eu e minhas ocultas esperanças. Deus me deu Você, um anjo, uma Boneca... E embora Deus tenha te levado de volta porque sentiu muita, mas muita saudade de Você, eu compreendi, porque Deus também sente saudade e chora a falta de seus anjos. Deus me deu Você para amar, para assumir e entregar minha confiança da forma que eu sempre quis. ELE me deu Você porque tinha um plano: Fazer-me feliz! Eu sou feliz por ter podido ter sido o seu Pai, Boneca de Deus, na qual Deus confiou e me fez verdadeiramente FELIZ!




18 dezembro 2020

AMOR EM PEDAÇOS

- Juninho! Venha aqui meu filho! Vem pegar o dinheiro para comprar o pão! Todos os dias pela manhã minha mãe pedia para ir buscar o pão. Ela sabia o horário certo que o Seu Manuel da padaria fazia os pães e pedia para eu ir de bicicleta, e os comprava ainda bem quente. Eu ia numa vula até a padaria e quando voltava minha mãe já havia preparado o café com leite. Minha mãe deixava tudo pronto. Depois do café eu lavava a louça enquanto minha mãe se preparava para ir trabalhar. - Tchau mãe! Bom dia e bom trabalho! - Juízo menino! Não vai se atrasar para ir à escola. - Minha mãe trabalhava no supermercado da cidade. Saía de casa às dez e voltava às sete horas da noite. Logo que minha mãe saía para trabalhar, eu ficava no campo a jogar futebol com os amigos e em seguida voltava para casa, tomava banho e me arrumava para ir à escola. Minha mãe deixava meu almoço pronto e eu somente esquentava. Em seguida, pegava minha bicicleta e ia para a escola. No caminho, sempre parava na ponte. Encostava a bicicleta e ficava jogando pedrinhas no rio. De cima da ponte via as pedrinhas afundando no rio e fazia um pedido, conforme minha mãe tinha me ensinado. Eu pedia para Deus proteger minha mãe. Meu pai morreu quando eu nasci. Minha mãe nunca deixou faltar nada e o meu amor por ela sempre foi infinito. Eu chegava à escola sempre trinta minutos antes do início das aulas. Ficava na classe lendo as matérias dos livros que a professora iria comentar no dia. Minha mãe me ensinou que se estudasse a matéria antes, seria mais fácil de compreender quando a professora fosse transmitir aos alunos. A prova de português estava bem difícil. Era a última do bimestre. Depois entraríamos em férias. Graças a minha mãe, que sempre fazia as lições de casa comigo, conseguia sair bem nas provas: - Qual é a resposta da questão número cinco? Uma voz bem baixinha, de menina, atrás de mim, pediu a resposta da questão cinco - Uma voz doce, que chegava aos meus ouvidos come se fosse uma canção romântica. Era a voz de Isabel. Isabel estava me pedindo uma cola da questão número cinco. Deixei meu lápis cair duas vezes no chão, o que indicava alternativa B. Terminei a prova, pegue minha bicicleta e fui embora pra casa, sem antes passar na padaria do Seu Manuel para comprar os pães para o café da tarde. O seu Manuel sempre estava com um sorriso largo no rosto e todo mundo gostava dele. - Seu Manuel, posso pegar um doce de leite? Eu pegava tudo que queria na padaria, sem exagerar. O Seu Manuel anotava tudo numa caderneta é no final do mês minha mãe pagava. No dia seguinte eu estaria em férias. Minha mãe faltou no trabalho pela manhã, pois houve reunião de pais e mestres e entrega dos boletins do bimestre. - Tranquilo mãe! Só vai ter verde no boletim! Minha mãe sabia que eu era um aluno esforçado e nunca precisou chamar minha atenção para estudar. Enquanto minha mãe participava da reunião, fui até a ponte para jogar pedrinhas no rio. Joguei as pedrinhas, fiz vários pedidos e agradeci Deus por ter tido mais um bimestre de bons resultados na escola. - Muito obrigada! Era Isabel. - Eu sabia que te encontraria na ponte. Você passa aqui todos os dias? - Venho na ponte para pedir e agradecer a Deus, jogando pedrinhas no rio. Isabel me agradeceu pela cola que eu tinha lhe passado na prova de português. Naquele dia conversamos bastante e demos muitas risadas. Depois daquele dia começamos a nos encontrar todos os dias na ponte, até o dia do primeiro beijo. Assim que beijei Isabel, joguei uma pedrinha no rio e pedi a Deus que a sensação que tive durasse para sempre. Isabel sempre foi meiga, doce e carinhosa. Todos diziam que um completava o outro. A minha mãe ficou muito amiga da mãe dela e estávamos todos felizes naquela época. Eu sempre fui romântico. Encontrava-me com Isabel todo fim de tarde na ponte. Ela chegava primeiro. Estacionava sua bicicleta e ficava olhando para o rio de cima da ponte. Na verdade eu me atrasava de propósito, pois passava pelo jardim da Dona Odete e colhia uma rosa para dar a Isabel. Quando estava em casa sozinho, pegava um caderno e escrevia cartas para Isabel. Ela adorava e respondia. Certa vez minha mãe pegou o caderno e leu o que eu escrevia para Isabel e me disse que um dia eu poderia escrever um livro que poderia se chamar Amor em Pedaços, pois as cartas contavam pedaço por pedaço as aventuras de amor que eu tinha com Isabel. As aulas reiniciaram e Isabel passou a ir todos os dias de bicicleta. Encontrávamos na ponte, jogávamos algumas pedrinhas no rio, fazíamos nossos pedidos e depois rumávamos para a escola. - Qual foi seu pedido hoje? Perguntou Isabel. - Pedi que nosso amor dure para sempre! - Eu também! No dia seguinte fui até a cidade com minha mãe. Não fui à escola. Tinha que passar no dentista para fazer um tratamento. Combinei com Isabel para nos encontrarmos na ponte à tarde, depois que terminasse as aulas. Minha mãe prometeu fazer um café da tarde para nós. Quando me despedi de Isabel senti um frio na barriga, os olhos dela estavam brilhando como se fosse uma estrela e no abraço apertado que demos, senti come se estivéssemos com os pés fora do chão. ... Voando! Depois do dentista, cheguei afobado para encontrar Isabel. - Calma menino! Sua namorada não vai fugir! Fui até a ponte para me encontrar com Isabel. Depois passaríamos no seu Manuel para pegar os pães e iríamos para minha casa. Cheguei à ponte e não vi Isabel. Achei que estava adiantado para o encontro. Fui até o jardim da Dona Odete e apanhei uma rosa. Voltei para a ponte, mas Isabel não havia chegado. Joguei uma pedrinha no rio e pedi que ela chegasse logo, mas não chegou. Então fui para casa, pois os pães estavam esfriando e minha mãe ia ficar brava comigo. Peguei minha bicicleta e rumei para casa. Quando passei pela avenida principal encontrei uma multidão e um carro virado na contramão. Achei estranho, pois vi minha mãe no meio da multidão. Fui me aproximando e vi que tinha ocorrido um acidente e tinha um corpo estendido no chão. - Ela foi atropelada! Ela foi atropelada! Minha mãe me olhou com os olhos arregalados. - O que a mãe de Isabel está fazendo caída no chão? Minha mãe arregalou os olhos novamente na minha direção. Olhei para o chão e vi a bicicleta de Isabel, retorcida, moída e seu corpo estirado no chão. Isabel estava morta e sua mãe estava chorando e cortando seus longos cabelos. Foi atropelada enquanto estava indo ao meu encontro. Um carro na contramão a pegou em cheio. Eu nunca tive convivido com uma perda. Quando meu pai morreu eu era um recém-nascido, tinhas meses, não tive sentimentos, não tive reação. Fui até o corpo de Isabel e a chamei. Ela não respondeu e não abriu os olhos. Eu peguei minha bicicleta e sai correndo. Minha mãe tentou me segurar, mas não conseguiu. Fui até a ponte e peguei todas e quantas pedrinhas que coubessem em minhas mãos e atirei no rio: - Deus, traga o meu amor de volta. Faça com que ela se levante e abra os olhos! O café da tarde vai esfriar. Minha vida é como um rio e vou aproveitar cada dia dela. Agora estou sozinho, mas o tempo passa rápido demais e Deus vai trazer o meu amor de volta. Oh meu Senhor, meu Deus, traga o meu amor de volta e a minha dor desaparecerá! Não espere mais, traga o meu amor de volta e faça a minha dor desaparecer... Meu amor, se eu pudesse fazer você voltar te diria uma só palavra: Eu te amo! Entre luzes que iluminam estradas e paisagens com cores de arco-íris, reviveremos todos os nossos sonhos e os momentos de ternura que a vida nos proporcionou e que ainda vai nos proporcionar para a eternidade. Não ficarei mais um só segundo sem abraçar você, sem segurar a sua mão quando você tiver medo e te fazer dormir quando você estiver com medo dos trovões e das tempestades. Mar de risos e ouro dos céus: Ali eu viverei cada dia da minha vida! Quando o amor está longe, o tempo não faz planos e peço: Oh meu senhor! Meu Deus! Traga o meu amor de volta e faça a minha dor desaparecer. Isabel foi enterrada num caixão branco coberto de flores e assisti de longe vendo sua mãe segurando seus cabelos, cortados para recordar. Foi muito difícil retomar a vida sem Isabel. Fiquei alguns dias sem ir à ponte até que minha mãe me levou um dia. Jogamos pétalas de rosas ao invés de pedras, das mesmas rosas que eu colhia do quintal da Dona Odete, com sua autorização. No último ano do ginásio, ao invés de participar da festa resolvi participar do concurso literário. Aos participantes foi designado escrever um livro de romance e fui o vencedor. O Livro se chamou Amor em Pedaços e nele estava escrito às cartas de amor que escrevi para Isabel e as que ela escreveu para mim. Depois da cerimônia de premiação peguei minha bicicleta e fui para a ponte. Desci até a beira do rio e lancei nas águas cada página do livro, junto com uma pedra, e as vi navegar para algum lugar, onde Isabel pudesse estar. E ao lançar a última página, onde estava escrito "fim", surgiu das águas um anjo encantador, de cabelos compridos, de olhos brilhantes como estrelas, no rosto de Isabel. Tentei nadar para me aproximar, mas a correnteza impediu que eu chagasse. Ainda tive tempo de acenar, acenar para Isabel que se perdeu nas águas límpidas do rio, enquanto minha mãe me chamava para ir buscar o pão na padaria do Seu Manuel. E ao passar na ponte sobre o rio, encontrei um papel rasgado - voando, uma carta borrada, molhada pelas águas do rio:  “Nas águas escuras desse rio existem os ‘restos mortais’ das cartas que eu escrevi pra você e você escreveu pra mim. Falam sobre amor e ternura... Carinho e devoção. E nas correntezas das águas escuras, Amor em Pedaços são papéis rasgados, borrados de lágrimas, feridos, perdidos da mesma forma que eu me perdi de você e você se perdeu de mim. Papéis borrados de lágrimas não sangram no peito, mas se desfazem com a força da correnteza e dos ventos. Papéis borrados de lágrimas não se ferem em espinhos e não sentem dor se o calor da paixão ainda existir, por menor que seja, pra secar as feridas, formar novamente as palavras sinceras das cartas poéticas que sempre escrevi sobre o nosso amor. Papéis borrados de lágrimas não têm alma. Mas têm coração! E podem ressuscitar a cada manhã, todo dia, mesmo feridos, mesmo rasgados, mesmo encharcados de águas escuras, manchados pela saudade, pois não se cansam de morrer de amor!”
TRECHO DO LIVRO

17 dezembro 2020

VIDAS NEGRAS

... Depois de ficarem na expectativa por muitos minutos, viu-se as últimas pessoas sendo salvas pelos bombeiros: Estavam de mãos dadas Jardel e a comissária Mari. Eles ficaram no avião para salvar o senhor racista e ateu que após o impacto do avião no solo, sofreu uma pancada violenta na cabeça e ficou desacordado: - Se não fosse a ação rápida de Jardel e da comissária Mari em socorrê-lo entre os escombros que ficaram dentro da aeronave, o senhor racista e ateu teria morrido.- Ambulância! Ambulância! Temos que remover esse senhor imediatamente para o hospital. Ele está perdendo muito sangue. Todos passageiros que estavam no avião, além do susto e do medo, tiveram apenas escoriações leves, exceto aquele senhor racista e ateu que apresentou um quadro clínico muito grave: - Vamos leva-lo imediatamente para o Hospital de Clínicas.  - Emergência! Emergência! A ambulância trazendo o senhor racista e ateu, cujo se soube que seu prenome era Adolpho, chegou rapidamente ao Hospital de Clínicas, que já tinha sido avisado pelos bombeiros da gravidade do paciente: - Levem-no imediatamente para a sala de cirurgia! Assim que deu entrada no Hospital de Clínicas, a família do senhor Adolpho chegou, ao mesmo tempo: - Onde está meu marido! Onde está meu marido!  Uma senhora estava desesperada, era a esposa do racista Adolpho e sabia que o marido tinha tido uma pancada forte na cabeça que ocasionou um coagulo em seu cérebro: - Vamos ter que fazer a cirurgia imediatamente. Façam os preparativos enquanto vamos chamar o Dr. Antonio de Medeiros Lima e Silva. Disse um enfermeiro. Imediatamente o Dr. Antonio de Medeiros se deslocou para a sala de cirurgia. Ao passar pela recepção onde se se encontravam os familiares do racista Adolpho, foi interpelado de forma agressiva pela esposa que chorava copiosamente e tinha os olhos arregalados de tanta raiva e de inconformismo: - É esse negro quem vai operar meu marido? Você é médico? Prove que você é médico. Eu quero um médico! Enquanto a esposa fazia o maior escândalo na porta da sala de cirurgia, outros familiares tentavam de todas as maneiras fazer a transferência do senhor Adolpho para outro hospital: - Não temos tempo para fazer a transferência para outro hospital. Ele tem que ser operado imediatamente, senão vai perder a vida. E deu-se início na cirurgia, complicada por ele ter perdido massa encefálica. Durante a cirurgia comandada pelo Dr. Antonio de Medeiros, houve a necessidade de fazer uma transfusão de sangue. Os outros passageiros acidentados do avião estavam no mesmo hospital para fazer curativos e ficarem em observação, visando tirar qualquer dúvida de um possível agravamento de suas condições clínicas: - Vamos examinar todos e descobrir quem pode doar o sangue para o senhor Adolpho. O sangue de seus familiares não foi compatível. Dentre todos, somente Jardel e a comissária Mari tinham o tipo sanguíneo compatível com o sangue necessário para salvar a vida do racista Adolpho: - Estamos à disposição para doar o sangue necessário para salvar a vida desse senhor. Compreenderam Jardel e Mari. A cirurgia completa durou quase quinze horas. Durante os procedimentos cirúrgicos, Adolpho teve três paradas cardiorrespiratórias. Foi preciso reanimá-lo e “ressuscitá-lo” com ajuda dos aparelhos. Dr. Antonio de Medeiros realizou a cirurgia com competência e experiência de um grande médico. No dia em que teve alta, Adolpho foi visitado por Jardel e a comissária Mari, que lhe desejaram boa saúde e pediram que Deus o abençoasse. Na sala de espera estavam sua esposa e alguns familiares, todos disfarçados com óculos escuros, olhando para os cantos da sala e falando ao telefone celular, enquanto o Dr. Antonio de Medeiros assinava o documento da alta médica, dizendo ao paciente: - Vá com Deus, senhor Adolpho. Que o senhor e sua família possam refletir sobre a vida. Tenha uma vida regada de saúde. Deus te abençoe!

 

SÃO TANTAS COISAS...

São tantas coisas para relembrar que meu coração fica confuso, perturbado, não sabendo qual a melhor maneira de conter tanta saudade. São tantas coisas que passam em meus sonhos, mas a felicidade que tenho é a de lembrar cada momento feliz com você, como se fosse hoje, como se fosse agora, nesse momento. São tantas coisas, que fico confuso de saber qual era a canção que cantava para te embalar, qual era a maneira que usava para fazer você dormir... São tantas perguntas que eu gostaria de fazer para Deus, mas ELE, comovente, me respondeu mantendo você aquecendo meu coração e curando-me de tantas doenças que querem me matar de vez, mas você não deixa, não quer. A Saudade é uma doença que não tem cura e ainda bem que Deus de meu o dom da escrita, pois assim serão os papéis das cartas poéticas que ficarão borrados de sangue e de lágrimas, até o dia que eu não aguentar mais. Até quando eu estiver vivo vou continuar a recordar de você, para sempre em minha alma é no meu coração como se fosse uma tatuagem. Em pensamento vou te girar em meus braços como se você ainda fosse uma criança, pois sem você não sou ninguém, não sou nada... Sou um risco, um rabisco, um traço sem letras que não formam uma frase... Um coração arrebentado e maltrapilho que não para de chorar!

AAJ

SIMPLESMENTE AMOR

Se fosse a tempos passados, Bryan não teria a mesma acessibilidade que os dias atuais proporcionam. O acidente sofrido há três anos ainda lhe proporcionava traumas, além de ter tido a desagradável notícia de ter que ficar para o resto da vida numa cadeira de rodas. Bryan custou a se convencer que sua vida dali por diante sofreria uma adaptação. O inconformismo o impediu de se adaptar mais rápido. Teve sessões de terapia e fisioterapia para respectivamente tirar o trauma do acidente e tentar recuperar os movimentos das pernas. Somente no último ano se dedicou fielmente a se recuperar e iniciar uma nova vida com as adaptações necessárias. Hoje em dia Bryan faz noventa por cento de suas atividades independentemente da ajuda de outras pessoas, inclusive o carro adaptável que usa para sair e trabalhar no cartório de sua cidade como escrevente. Bryan tinha uma rotina diária muito completa. Pela manhã fazia fisioterapia e natação, depois ia para o trabalho dirigindo seu carro adaptado. Na hora do almoço gostava de descansar numa praça que tinha em frente ao cartório e nos momentos de descanso, relaxava e gostava muito de ler livros de autoajuda.  À tarde, quando terminava seu período de trabalho no cartório, Bryan tinha, de dois em dois dias, sessões de terapia que o fazia se sentir muito bem. No começo da noite chegava em casa e gostava muito de ouvir música clássica e assistir filmes de suspense, principalmente os de Brian de Palma e Alfred Hitchcock. Foi num dia de verão quando Bryan, após o almoço, dirigiu-se até a praça para começar a ler o livro Janela Indiscreta. Bryan estava muito feliz àquela época. Ao seu lado, sentou-se uma mulher. Bem vestida, cabelos longos com uma leve maquiagem: - Posso ficar aqui? Perguntou Bryan. - Claro! Respondeu a mulher. Bryan começou a ler seu livro enquanto a mulher, jovem, aparentando a mesma idade de Bryan, praticamente não se moveu. De vez em quando esfregava as mãos e na maioria das vezes parecia que estava olhando para o céu. Assim que deu seu horário, Bryan se moveu com a cadeira de rodas e se dirigiu de volta ao trabalho: - Até logo! Tenha uma boa tarde. Despediu-se Bryan. A mulher apenas fez um gesto com as mãos, como um sinal de tchau, sem ao menos virar a cabeça. Os dias que se sucederam a esse acontecimento com a mulher na praça foram muitos intensos no trabalho de Bryan, tanto que não teve mais tempo de relaxar na praça após seu almoço. Entretanto, da janela de sua sala que dava de frente para a praça, via que todos os dias, pontualmente no mesmo horário, aquela mulher estava na praça, sentada no mesmo banco e ficava sem se mexer, olhando para o infinito, como se fosse uma estátua. Bryan nunca a via chegando. Sempre que ia a praça, a mulher já estava sentada, imóvel no mesmo banco. As coisas se acalmaram no cartório e Bryan novamente pode ter tempo de descansar na praça após seu almoço.  Daquela vez ele estava lendo o livro Vestida para Matar. Quando Bryan chegou a mulher já estava sentada. Um sol forte batia no rosto das pessoas que descansavam ali e foi então que Bryan percebeu aquela mulher usando óculos de sol. - Boa tarde! Meu nome é Bryan e o seu?- Meu nome é Andréa! Andréa era deficiente visual. Bryan não tinha percebido das outras vezes que a viu na praça. Bryan e Andréa passaram a se encontrar na praça, todos os dias após o almoço. Andréa morava bem próximo. Costumava sentar-se ali durante os dias de sol para recordar-se do cheiro das plantas, do canto dos pássaros e de sua infância, quando no lugar da praça existia um campo onde os adolescentes se reuniam para fazer as brincadeiras da época. Aconteceu que aos dezesseis anos, Andréa foi diagnosticada com um tumor no cérebro. Realizou onze cirurgias dos dezesseis aos vinte e um anos de idade. O tumor sumia e reaparecia. Aos vinte e dois anos de idade, Andréa recebeu a pior notícia de sua vida: O tumor foi confirmado como maligno e ela perdeu a visão. De um momento para outro, Andréa deixou de enxergar a vida, os pássaros, as rosas no jardim, a praça... E tudo mais, mas como ela disse a Bryan, passou a enxergar a Deus. Os médicos disseram-na que o tumor não poderia mais crescer. Se assim o fizesse, Andréa estaria morta. Então, passou a tomar uma série de medicações para que o tumor não pudesse crescer e ela pudesse continuar vivendo. Perdeu os cabelos, se recolheu em seu quarto e só aceitou frequentar a praça após o falecimento de seu pai, pois ele a incentivava a sentir a natureza, mesmo que as luzes estivessem apagadas. Assim, Andréa passou a viver todos os dias como se fosse o último e a praça era um reduto sagrado onde ela sentia a esperança de continuar vivendo. Os dias foram se passando e quando Bryan e Andréa se encontravam na praça, Bryan lia os livros em voz alta e interpretava os personagens com vozes diferentes. Eles se divertiam muito, ao mesmo tempo em que sentiam a necessidade de ficarem mais juntos. Bryan também contou sua história para Andréa, até o ponto em que ficou definitivamente numa cadeira de rodas. Bryan passou a frequentar a casa de Andréa e juntos dividiam tantas sensações que serviam de estímulo para que deixassem seus problemas de lado e passassem a viver a vida verdadeiramente, não se importando se tudo pudesse acabar tão de repente que não pudessem se beijar:  - A sensação de estar em teus braços é única! O contato com sua pele, suas carícias seu bom humor e suas gargalhadas são combustíveis para eu esquecer que existe dentro de mim algo que possa me aniquilar no próximo dia, na próxima hora, no próximo minuto. E nesse próximo minuto eu quero te beijar, te abraçar, sentir o calor do teu corpo... Eu quero te namorar! De todos os remédios, ambos encontraram aquele que estavam procurando: O amor. E o amor os completou e fazia de suas "novas vidas" um novo recomeço: - Acordar todas as manhãs, saber que estou viva e sentir você ao meu lado é mais uma prova de que Deus existe e que Ele me levou até a praça para te encontrar! Apesar de estarem morando juntos, Bryan e Andréa nunca deixaram de frequentar a praça. A praça para ambos era um lugar sagrado e a chamavam de céu. Os sábados pela manhã era um momento sagrado, dia em que eles mais gostavam de estar na praça. Bryan sempre ia à frente. Depois de alguns minutos Andréa chegava. Essa atitude era como se fosse um ritual e ambos se sentiam bem com esse procedimento. Quando Andréa chegava, Bryan sempre dizia:  - Bom dia amor! Você chegou! Eu estava com saudades!  Andréa sorria, sentavam-se, se abraçavam, se beijavam e enquanto Bryan lia os livros, Andréa sentia o perfume das flores que Bryan sempre colhia antecipadamente. Até que chegou o inverno. Os sábados pela manhã ficaram diferentes. Com as geadas, as flores não exalavam mais seu perfume e o sol se escondia, tornando as manhãs cinzentas. Na noite anterior, Bryan percebeu que Andréa tremia muito. Levantou-se no meio da noite e lhe serviu um chá bem quente. - Está tudo bem querida! Andréa não respondeu e Bryan deduziu que estivesse cansada, dormindo. O dia amanheceu e Bryan saiu na frente, como fazia em todas as manhãs de sábado. Não existiam flores no jardim e nem o sol estava brilhando entre as nuvens. Antes de sair Bryan pegou alguns livros e um agasalho a mais, pois estava muito frio. Andréa não se importava com o frio, sabia que Bryan se sentia bem quando estava na praça e ela também.  - Na praça, estamos no céu querida! Bryan sentou-se e ficou aguardando por Andréa. Separou alguns trechos dos livros que iria ler para ela. Notou que ela estava demorando mais do que o normal para vir à praça. Pensou ser em função do frio. Ameaçou retornar para buscá-la, mas lembrou de que sua amada gostava de vir sozinha. Estava acostumada com o caminho que fazia e que não a prejudicava, mesmo sendo deficiente visual. Bryan ficou muito preocupado com o atraso de Andréa e resolveu voltar para casa. Naquela manhã sentiu uma angústia que há muito tempo não sentia e até soltou um palavrão quando sua cadeira de rodas enroscou no portão da casa. - Querida! Querida! Bryan não esperou que chegasse e antes começou a chamar por Andréa. Ao chegar ao quarto da casa, viu Andréa imóvel, coberta da mesma maneira em que estava quando Bryan acordou pela manhã. - Querida! Querida! Andréa não respondia e não respondeu. Bryan voltou-se na cama para abraça lá e sentiu sua amada muito fria. Cobriu-a com mais um cobertor, foi até a cozinha, bebeu um café bem forte e ligou para o resgate. Andréa viajou para o “outro céu”, longe da praça. Alguns dias se passaram. Bryan continuou com sua rotina de trabalho no cartório, e no descanso do almoço voltava-se sempre à praça para conversar com Andréa. Conversava através do perfume das flores, do cheiro do mato, pelas frases dos livros que Andréa mais gostava, mesmo sem o sol que se escondia entre as nuvens cinza para chorar de tristeza, enquanto a garoa se confundia com as lágrimas que nunca cessavam em cair dos olhos de Bryan. Ao seu lado descobri que entre o sonho e a realidade, existe um espaço chamado felicidade, e para que a minha felicidade se torne realidade, preciso estar ao seu lado.”
 TRECHO DO LIVRO...

07 julho 2020

HISTÓRIAS DIFERENTES - NO MESMO LUGAR

Quando Marta saiu de casa naquela manhã, estava disposta a terminar o relacionamento com Charles, devido ao fato de que ele era ciumento ao extremo. Marta sempre foi guerreira, trabalhava em dois empregos e aos finais de semana ainda procurava alguns bicos para garantir o sustento dela e dos três filhos. Era uma mulher muito responsável, mas tinha certas atitudes que deixava Charles pensar que ela o traia. Paralelamente a essa história, no terceiro andar do Shopping Estrela do Mar funcionava aquele pequeno restaurante. A praça de alimentação estava sempre lotada no horário de almoço, nos dias de semana e também aos finais de semana. Uma equipe de uma empresa contratada pelo Shopping estava fazendo a manutenção preventiva e rotineira do sistema de gás que alimentava todos os restaurantes da praça de alimentação. Um pouco distante, pelo menos a três quarteirões, morava Pedro Henrique, um garoto rebelde que não gostava de frequentar a escola e ainda, aos vinte anos de idade não queria saber de trabalhar. Quando Marta saiu de casa pela manhã, Charles fingiu que estava dormindo, pois afinal, ele trabalhava como segurança no Shopping Estrela do Mar e seu horário de trabalho iniciava-se pouco antes do horário do almoço. Para uma mulher casada, mãe de três filhos, as roupas que Marta vestia não eram condizentes com uma mulher respeitada e séria, pelo menos na opinião de Charles. Marta saiu de casa usando vestido transparente, salto alto e toda maquiada. Charles nunca aprovou o jeito de se vestir de Marta e isso foi o motivo de tantas brigas. O casamento deles estava por um fio e o que segurava a decisão de terminarem foram os filhos. Antes de deslocar ao trabalho, Charles foi até o trabalho de Marta, na loja de calçados e dizia querer ter uma conversa com Marta.
          Marta relutou e disse que poderiam conversar à noite, quando estariam em casa. Charles não aceitou a proposta de Marta e para que ele não fizesse um escândalo em seu ambiente de trabalho, resolveu se encontrar com Charles na praça da alimentação num prazo de uma hora. E assim ficou combinado. Assim que Charles se afastou da loja de calçados, foi possível ver três homens com uniformes da empresa de manutenção de gás saírem do Shopping. Quando Charles foi para seu posto como segurança, disse ao amigo que iria render:
          - Você também está sentindo cheiro de gás?
          O amigo disse não e assim Charles continuou no posto esperando o amigo Samuel sair para o almoço e quando voltasse, Charles daria uma escapadinha para conversar com Marta. Há poucos metros dali estava Pedro Henrique, garoto rebelde, que havia brigado com a mãe e fora até o Shopping se encontrar com a namorada. Simone já o aguardava e Pedro Henrique sentou-se com Simone bem próximo à praça de alimentação e ficaram conversando. Na praça de alimentação os comentários sobre o cheiro forte de gás começaram a ser mais frequentes. Algumas pessoas comunicaram a segurança e os donos dos restaurantes. A praça de alimentação estava lotada e isso causou um retardo numa averiguação mais rápida por parte dos bombeiros de plantão no Shopping. - Eu quero a separação? Disse Marta, de supetão, logo que se encontrou com Charles. Charles argumentou, discutiu em voz alta e fez que muitos que estavam por perto percebessem. Marta se levantou e caminhou em direção ao seu local de trabalho. Charles foi atrás e ameaçou reação mais tempestiva quando surgiu Samuel e o conteve:
          - Calma Charles, calma!
         O amigo de Charles, Samuel, chegou no momento certo. Talvez, se não, Charles poderia ter cometido algo de pior em relação à Marta. Samuel caminhou em direção à saída do Shopping. Achou que seria melhor tirar Charles daquele ambiente até que esfriasse a cabeça. Próximo dali, num banco da praça de alimentação, Simone dava conselhos a Pedro Henrique sobre os problemas de relacionamento com sua mãe. Simone, apesar de ter a mesma idade de Pedro Henrique, era mais madura, mais vivida, sabia o que queria da vida, enquanto que Pedro não queria saber de trabalhar, nem de estudar:
          - Querido preciso ir, tenho aula de Inglês à tarde.
          Pedro Henrique pediu se Simone poderia passar a tarde com ele. Estava inseguro, queria ter uma conversa séria com a mãe, queria mudar suas atitudes e pediu ajuda para Simone. Simone achou que era a chance que tinha para de uma vez, fazer com que Pedro Henrique se acertasse na vida.
          - Está bem querido, eu fico com você. Vamos comer alguma coisa, depois vamos conversar com sua mãeSimone estava na porta de saída do Shopping, quando foi convencida por Pedro Henrique em ficar. No mesmo instante em que Simone estava voltando para dentro do Shopping, Charles estava saindo, amparado por seu amigo Samuel e Marta voltando para a loja de calçados para retomar seu trabalho. Charles e Samuel já tinham caminhado certa de cento e cinquenta metros distante da porta de entrada do Shopping quando se ouviu uma grande explosão: - Meu Deus! A explosão foi tão forte que fez desabar vários telhados das casas que estavam bem próximas ao Shopping. Uma poeira gigantesca subiu aos céus. O andar onde se encontrava a praça de alimentação ficou resumido em pedaços de concreto e poeira. As equipes da RESCUER e dos Bombeiros foram acionadas em caráter de urgência e emergência e toda área foi evacuada e isolada pela polícia:
          - O terceiro andar está totalmente destruído!
          - Quantas pessoas? Quantas pessoas?
          - Duzentas e cinquenta! Talvez trezentas!
Os rádios de comunicação da polícia, dos bombeiros e da RESCUER a todo o momento atualizavam as informações. As equipes de rádio e TV ficavam num área de segurança para que não fossem atrapalhados os trabalhos de resgates e salvamentos: - Atenção todas as unidades! Acionem a polícia! Vamos precisar de cães farejadores! Nesta ocorrência várias equipes da RESCUER foram deslocadas para o Shopping Estrela do Mar e em uma das ambulâncias estava o Dr. Abreu. As equipes dos bombeiros iam abrindo caminho entre os escombros em busca de sobreviventes. - Doutora! Doutora! Aqui! Gritava um dos bombeiros para a Dra. Maria Julia. Um jovem rapaz, cheio de fraturas por todo o corpo, gritando de dor. A dor era tamanha e entre pedaços de concretos e poeira a equipe da RESCUER liderada pela Dra. Maria Julia tentava de todas as maneiras amenizar o sofrimento do rapaz: - Ela está morta! Ela está morta! Simone está morta! Por favor, me matem, não suporto tanta dor! Eu quero morrer logo... Morrer logo!
          O jovem Pedro Henrique estava morrendo e delirava nos braços da Dra. Maria Julia. Não havia mais nada a fazer e assim como essa várias outras cenas de sofrimento em meio a tanta tragédia. Os cães farejadores foram de uma importância tamanha nos trabalhos de rescaldo e o número de vítimas fatais atingiam números superiores a duzentos. - Eu preciso entrar! Eu preciso entrar!
        Aos gritos, Charles queria de toda maneira entrar no que restou do Shopping. Chamando por Marta, foi contido pelos bombeiros que o afastaram de uma zona critica, pois havia risco de queda das vigas que sustentavam o teto e as paredes laterais. Maria ficou sendo assistida por uma equipe da RESCUER, mantendo os olhos arregalados, às vezes piscando, olhando para um lado e para outro procurando por alguém, não dizendo uma só palavra. Dr. Abreu viu que a situação ficou grave, uma de suas pernas estavam esmagadas, os braços mutilados, mas Marta não expressava a tamanha dor, não estava morta, respirava normalmente e apenas mudou de expressão facial quando viu Charles:
          - Estava esperando você chegar. Resisti até esse momento te esperando. Existem vários anjos ao meu redor e eles sopram minhas feridas, aliviando a minha dor. A luz ofusca meus olhos, mas ainda consigo ver tudo ao meu redor.
          Antes que a luz se apague e Deus venha me abraçar queria te dizer que te amo e que sempre vou te amar, na eternidade!
          Essas foram as últimas palavras de Marta e aos gritos Charles se desesperou, ao mesmo tempo em que a equipe da RESCUER retirava o corpo de Marta naquela região crítica, entre os escombros, que prenunciava queda das paredes que rodeavam aquele cenário de terror.

Antonio Auggusto João

25 junho 2020

DOWN

Quando Letícia soube que estava grávida, não se deu conta de como seria sua vida a partir daquela constatação, pois afinal, ela ainda brincava de boneca e era sua mãe quem penteava seu cabelo quando ela ia para a escola. As transformações no corpo daquela menina de quinze anos que acabará de debutar foram preocupando sua mãe que achava que a filha não teria estrutura suficiente para interpretar a nova realidade de sua vida. Apesar de toda estrutura familiar que não deixava faltar nada para a adolescente, Letícia ainda era uma criança na concepção de seus pais e sua mãe tinha em si que teria que cuidar da criança que iria nascer, pois não poderia contar com a ajuda do pai, de dezesseis anos, nem da família dele. Os primeiros exames pré-natal foram feitos e estava tudo normal. Letícia, apesar de muito jovem, sempre foi muito estudiosa e interessada em tudo que se referia a família, a bons costumes. - Infelizmente houve um deslize e fiquei grávida, mas assumo minha responsabilidade e daqui pra frente, apesar de muito jovem e inexperiente, vou cuidar do meu bebê com carinho e amor e agradeço a Deus por poder contar com a ajuda da minha família. Esse tipo de atitude deixou seus pais mais tranquilos, pois em nenhum momento sentiram qualquer tipo de rejeição em relação a criatura de Deus que Letícia trazia em seu ventre. A gravidez transcorreu normal até o último exame, no oitavo mês, quando Letícia recebeu uma notícia dada pelo médico de que havia algum problema com relação à formação da criança em seu ventre. Todos ficaram receosos em contar a Letícia sobre o assunto, mas ela havia desconfiado e exigiu que lhe contassem: - Eu vou perder o meu bebê? O que vai acontecer? Para surpresa, Letícia não encarou o fato como um problema: A Síndrome de Down é um distúrbio genético causado quando uma divisão celular anormal resulta em material genético extra do cromossomo 21. Provoca uma aparência facial distinta, deficiência mental, atrasos no desenvolvimento e pode ser associada a doença cardíaca ou da tireoide. O tratamento é feito por programas de intervenção precoce com uma equipe de terapeutas e educadores especiais, que podem tratar a situação específica de cada criança. Quando Maria Luiza nasceu foi recebida com muito amor e carinho. Letícia foi uma mãe dedicada e doou todo seu tempo, toda sua vida para cuidar da filha que para ela sempre foi uma criança igual as outras, pois nunca faltou amor, carinho e ternura de ambas as partes.
ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

MEU PAI CHOROU

Quando garoto olhava para meu pai e imaginava ser como ele quando crescer. Minha mãe dizia que tinha que comer bastante arroz com feijão. Bem magrinho, olhava no espelho e projetava a minha imagem, a minha vida que estava por vir. Meu pai foi um comerciante das feiras livres. Carregava caixas e sacos de legumes nas costas como se fosse pena e queria fazer como ele quando crescer. Eu tinha orgulho. Ele me dizia que a força vinha da inteligência e que a inteligência era adquirida nos estudos, na força de vontade, em querer saber e conhecer. Meu pai me aconselhava a estudar bastante, para ser alguém na vida. Eu vi meu pai chorando. Nem quando a caixa cheia de legumes caiu em seus pés, tampouco quando ele tinha uma forte dor de dente. O tempo passou e comecei a compreender a vida e suas emoções. Chorei muito, mas pelos amores possíveis e impossíveis, pela falta de um ente querido, pela saudade – Palavra mais escrita pelos poetasPensei que meu pai fosse chorar como minha mãe chorou quando quase fui para o exército, quando me formei na faculdade de administração de empresas, já que não tive a sorte de ser um jogador de futebol - O sonho dele. Quando me casei, arrumei minhas coisas e fui para bem longe e mesmo assim ele não chorou. - Minha mãe chorou! Quando minha filha nasceu ele não chorou. Suas lágrimas escorriam por dentro. Queria que ele pudesse ter visto meu filho nascer! Duvido! Ele iria chorar como eu. Mas como dizem: Ninguém é de ferro: - Meu pai chorouAo ver as lágrimas escorrendo em seu rosto, me senti numa guerra, prisioneiro do inimigo. Ele reteve as lágrimas até quanto pode, mas seu coração transbordou, não teve como segurar, pois um filho que ele criou foi embora e se sentiu como se estivesse perdido uma guerra.  Chorou desesperado. Um dia vou reencontra-lo. Ele vai me abraçar e vamos chorar. Só que será um choro de felicidade! - Meu pai chorou.
ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

PARABÉNS A VOCÊ!

A festa de aniversário dos meus quatorze anos foi a última que quis comemorar, depois, nunca mais fiz uma festa no dia do meu aniversário. A comemoração caiu num sábado e o baile foi nos fundos da minha casa. Tinha mais menino do que menina, mas a festa foi minha, a vitrola foi minha e todos estavam na minha casa. Então, eu tinha que dançar e nenhuma menina se atreveu a dizer não. Foi o único baile que não "esquentei a parede", termo que era usado quando você ficava o baile inteiro encostado na parede, pois nenhuma menina quis dançar com você. Na vitrola o compacto simples do Dave McLean cantava a música we said goodbye, riscado de tanto tocar. Foi a música que mais gostei de tocar para dançar com as meninas! Minha mãe caprichou no bolo, enfeitou como se fosse um campo de futebol: - Teve vela mágica, bexigas, língua de sogra, bolo pullman, batata de casamento, pão de salsicha, bala de coco, brigadeiros, beijinhos, teta de nega, cabelo de palhaço, nariz entupido, além de doce de banana em forma de triângulo! Para beber meu pai comprou baré cola, grapete, cruch e gini!  Na hora de cantar o parabéns a você, minha mãe ficou ao meu lado, enquanto os meninos e meninas não paravam de comer e beber aquelas guloseimas! - Com quem será! com quem será! Dessa parte eu não gostava, nem na hora do:- É pique! É pique! Todos me felicitaram desejando feliz aniversário, muita saúde, prosperidade, aquelas coisas todas. E na hora do primeiro pedaço do bolo, não esqueci de presentear minha mãe que fazia aniversário no mesmo dia que eu! Teve parabéns para ela e meu pai ainda brindou com uma taça de vinho sangue de boi! - Parabéns a você mãe! Em todo dia nove de novembro e sempre!
Antonio Auggusto João

20 janeiro 2019

QUANDO A CHUVA PASSAR

Heraldo chegou em casa o sol havia nascido e seus raios, através das frestas da janela, invadiam o quarto bem arrumado e ainda podia sentir o perfume de Maria Luiza. Ela não estava em casa. Como todas as manhãs, acordava bem cedo, deixava a filha na creche e corria atrasada para o trabalho na repartição pública. Heraldo ficava pelo menos setenta e duas horas fora de casa, às vezes mais, quando as viagens eram mais longas, ou quando tinha que cobrir a falta de algum colega na Empresa de Turismo. Heraldo era motorista de ônibus, costumava fazer sempre a mesma viagem de uma capital à outra, sempre nas madrugadas, e estava bem acostumado com aquela rotina e também era bem quisto na empresa. O ônibus saía sempre à meia noite. Heraldo dirigia a madrugada inteira e chegava na cidade de destino pela manhã. Depois descansava até por volta do meio dia e dirigia novamente da cidade de destino até a cidade de origem, chegando à meia noite, pois na volta fazia escalas em cidades que ficavam no percurso. O percurso era sempre o mesmo e a empresa, precavida, dispunha de dois motoristas em todos os ônibus, para que pudessem revezar em caso de cansaço ou qualquer outro imprevisto. O trajeto sempre foi muito perigoso: Muita neblina, garoa e pistas irregulares, mas Heraldo sempre teve muito cuidado... Um excelente motorista. Ele trabalhava na mesma empresa fazia vinte anos e nunca havia tirado ferias como se devia e dizia que não conseguia ficar parado, sem trabalhar, tanto que nos dias em que ficava de folga, trabalhava com o taxi do irmão. Heraldo conhecia a maioria dos passageiros de suas viagens, assíduos, viajavam a negócios, por trabalho, estudos, pois existiam grandes empresas multinacionais e faculdades localizadas no percurso. Os passageiros ficavam tranquilos quando viam que era Heraldo quem estava ao volante do ônibus. Por outro lado, o relacionamento de Heraldo com Maria Luiza não andava bem fazia algum tempo. Ele vivia para trabalhar e ela, trabalhava para viver, pois a situação financeira do casal não era das melhores. Eles só se encontravam nos finais de semanas ou nos feriados em que por ventura Heraldo estivesse de folga. Apesar de todas as amarguras Heraldo amava muito Maria Luiza. No dia em que veio a separação definitiva, Heraldo tinha uma importante viagem onde levaria vários estudantes para fazer vestibular numa das universidades que ficava no percurso, no roteiro da viagem onde ele estava escalado como motorista. Apesar da situação conturbada que culminou na separação, Heraldo amava Maria Luiza e naquele dia todos perceberam em seu semblante uma terrível desilusão. A viagem iniciou-se pouco depois da meia noite e a previsão de chegada ao destino seria por volta das seis horas da manhã, horário suficiente para os estudantes se prepararem para a prova do vestibular que começaria por volta das nove horas. Entre os passageiros do ônibus estava Andressa. Andressa era muito conhecida de Heraldo e viajava sempre na primeira poltrona do lado direito e ficava basicamente ao lado do motorista. Heraldo e Andressa se conheciam viagens anteriores e ela sempre dizia que era muito tranquilo e agradável viajar com ele ao volante do ônibus. Naquele dia ele estava de poucas palavras face ao abalo por sua separação. Andressa entendeu e respeitou o sentimento do amigo motorista e permaneceu em silêncio durante a viagem. Ao se aproximarem da serra, uma neblina intensa fez com que Heraldo reduzisse a velocidade e andasse com mais atenção, tanto que pediu auxilio para o motorista reserva na orientação do percurso. Precavido, achou melhor parar o ônibus num recuo seguro quando começou uma chuva muito intensa. - Pessoal! Vamos esperar a chuva passar! Vou estacionar o ônibus neste recuo seguro – Disse Heraldo aos passageiros. A chuva demorou a cessar e chegou no limite de tempo em que a viagem teria de prosseguir de qualquer maneira para que os alunos/passageiros não corressem o risco de chegarem atrasados no destino e perderem a prova do vestibular. - Pessoal! A Chuva ainda continua intensa, mas temos que prosseguir! A visibilidade não era das melhores, e com toda sua experiência Heraldo dirigia o ônibus com a maior cautela e cuidado. Olhou pelo retrovisor e viu que os passageiros estavam calmos e tranquilos, muitos estavam dormindo, inclusive Andressa a quem Heraldo constantemente olhava. - Quando a chuva passar ficaremos mais tranquilos! A descida da serra era perigosíssima em dias normais, com visibilidade normal... Imagine com chuva e neblina! Heraldo por mais que tentasse tornar o ônibus dirigível, as curvas acentuadas na pista molhada e a baixa visibilidade fez com que o ônibus derrapasse várias vezes até capotar. Por sorte não caiu ribanceira abaixo. No momento do acidente Heraldo ainda percebeu que a maioria dos passageiros estavam dormindo. Ele ficou preso entre as ferragens do ônibus e até que o socorro chegasse não teve como mensurar o tamanho da tragédia, mas ouvia gritos, gemidos e pedidos de socorro. Chamou por André, o motorista reserva, mas ele não respondeu. Olhou para a poltrona onde Andressa estava sentada e só enxergou destroços. Chovia muito e isso dificultava o trabalho das equipes de resgate. Da ultima vez em que teve consciência, Heraldo reclamava que não estava sentindo sua pernas e chamava pelo nome, os passageiros mais conhecidos, sem resposta alguma. - Venha por aqui! - Não consigo me mexer! Alguém tentava prestar ajuda a Heraldo, que tentava a todo custo se desprender das ferragens. - Estou sentindo muitas dores! Estou sentindo muitas dores! Uma voz calma e tranquila, no meio daquela cena desesperadora, tentava guiar Heraldo para “um lugar seguro”, como a voz dizia: - Venha por aqui! Já existem vários que estão comigo! Estão seguros! - Mas quem é você? Você é do resgate? - Venha por aqui! Muitos já estão aqui comigo! Outros, infelizmente não foi possível! Assustado e sentindo muitas dores, Heraldo conseguiu se desvencilhar das ferragens e com muito esforço seguiu na direção em que ouvia uma voz chamá-lo sem cessar. - Entre Heraldo! Entre! Heraldo reconheceu quem o chamava e pedia para entrar: Era Andressa! Juntamente com algumas pessoas que estavam no ônibus que desgovernou e capotou. - Onde estão os outros? - Alguns foram resgatados e levados para os hospitais da região, outros, infelizmente não tiveram a mesma sorte que a nossa de conseguir entrar nesteônibus reserva”! Disse Andressa a Heraldo.Heraldo estava com o semblante assustado. Nem Andressa nem as outras pessoas estavam com qualquer escoriação e ainda ficou mais assustado quando percebeu que as fortes dores que estava sentindo havia cessado: - Nós vamos embora quando a chuva passar! Andressa repetia essa frase várias vezes, encostada na janela do “ônibus reserva” com a palma da mão direita estendida:- Nós vamos embora quando a chuva passar! Quando finalmente Heraldo percebeu o que havia ocorrido e o que estava acontecendo, chorou... Chorou e chamou por Maria Luiza. Depois sorriu, abraçou Andressa e as demais pessoas que estavam dentro do “ônibus reserva”, olhando a chuva cessar e um raio de luz brilhar no céu azul entre nuvens! - A chuva passou! Já podemos ir! Até um dia, Maria Luiza! Um dia vou chegar até você! Enquanto isso não vou parar de fazer a minha prece: Como vou chegar até você? Talvez voando, entre as nuvens, entre o céu é o amanhã. Quem sabe se eu rezar você possa aparecer e segurar na minha mão, como da última vez em que morri para te encontrar... Passarão os dias e as noites e se eu não achar o caminho, a chuva vai me levar. A chuva é sempre forte, os raios e os travões não me amedrontam mais, mas, mesmo assim, vou esperar a chuva passar... Paciente, para eu poder voar novamente entre as nuvens, pois na certa vou te encontrar e vamos para bem longe, para algum lugar... Porque eu te amo e a chuva vai passar. Vai passar!
ANTONIO AUGGUSTO JOÃO